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A Estrada, de Cormac McCarthy

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A estrada encontrava-se deserta. Mais abaixo, no pequeno vale, a linha sinuosa de um rio, estagnado e cinzento. Imóvel e de contornos bem precisos. Ao longo da margem, uma amálgama de juncos mortos. Está tudo bem contigo?, perguntou. O rapaz fez que sim com a cabeça. E então puseram-se os dois a caminhar no asfalto sob a luz metálica, cinzento-azulada, a arrastar os pés na cinza, e cada qual era o mundo inteiro do outro.

Apreciação

Não se pode dizer que esteve é um livro fácil de ler. Tratando-se da história da viagem de um pai e do seu filho num cenário pós-apocalíptico, “A Estrada” é um livro que exige um estado de espírito muito próprio para se conseguir ler de uma só vez. O pai e o seu filho, personagens sem nome próprio num livro sem capítulos, lutam diariamente pela sobrevivência num mundo onde tudo é morte: procuram desesperadamente por comida, lutam incessantemente contra o clima, enfrentam os seus medos mais terríveis face a grupos de pessoas que, por desespero, recorrem ao canibalismo. Durante muitos anos – nem as personagens sabem quantos, o objectivo do pai é seguir a estrada para sul, sonhando que a sua salvação se encontre no final da viagem.

Cormac McCarthy apresenta-nos a uma América destruída por qualquer motivo indecifrável, mas a qual começamos a conhecer de forma muito real. A narrativa é assombrosa, escura, fria, quase poética, e as descrições dos cenários e da devastação total da humanidade tocam-nos dolorosamente, sendo a aproximação do amor entre o pai e o filho a única forma de os leitores sentirem alguma esperança neste cenário de morte. Aliás, mesmo os flashbacks em que conhecemos memórias de um mundo feliz, normal e com luz do sol, não são capazes de nos aliviar este peso com que o autor nos carrega porque, tal como o pai se apercebe a dado momento, ao reviver essas recordações, está novamente a encarar a perda e a iludir o filho com histórias de encantar.

“A Estrada” é um livro para se ler e pensar; é demasiado cru para que se possa fazer uma análise objectiva. Deve ser sentido. Aliás, penso que não há outra forma de o ler.

No final de Novembro, não percam ainda a adaptação cinematográfica de John Hillcoat, cujo trailer podem ver aqui.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 192
Editor: Relógio D` Água
ISBN: 9789727089345

Caim, de José Saramago

caim

Quem diabo é este Deus que, para enaltecer Abel, despreza Caim? Se em O Evangelho Segundo Cristo José Saramago nos deu a sua visão do Novo Testamento, em Caim regressa aos primeiros livros da Bíblia. Num itinerário heterodoxo, percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha pela mão dos principais protagonistas do Antigo Testamento, imprimindo ao texto o humor refinado que caracteriza a sua obra.

Caim revela o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: a capacidade de fazer nova uma história que se conhece do princípio ao fim. Um relato irónico e mordaz no qual o leitor assiste a uma guerra secular, e de certa forma, involuntária, entre o criador e a sua criatura.
Nota: Não se pretende fazer deste post um artigo teológico, nem mesmo questionar a inspiração do autor para este livro nem, muito menos, focar a polémica mediática que se observou aquando do seu lançamento. Pretende-se apenas discutir a obra literária.

Apreciação

Foi com muita expectativa que esperei por este livro e, agora que o li, confirmo aquilo que esperava: José Saramago não me desiludiu. Mais uma vez, o autor centraliza o centro da acção nas emoções humanos e naquilo que as faz mover, um pouco à semelhança d’O Ensaio sobre a cegueira.

Tendo como cenário uma série de passagens bíblicas, Saramago conta a história de Abel e Caim e de como Caim não tolera a indiferença de deus face ao seu esforço e boa vontade, acabando por matar o seu irmão e por se deixar castigar com um percurso de vida de homem errante, à deriva pelo mundo e susceptível ao teu temperamento. Assim, Caim começa uma viagem plena de aventuras onde assistirá a inúmeros acontecimentos que ditam a vida de milhares de pessoas, a par e passo com as decisões e a omnipresença de deus. Nestes momentos, Caim inicia diálogos teológicos com deus e questiona-o sobre as suas decisões o que, numa perspectiva mais abrangente, resultará numa discussão sobre a sua existência e sobre a capacidade e vontade de controlar e de castigar o Homem.

Quando terminei a leitura e fechei o livro, fiquei a olhar para a capa por longos minutos para assimilar uma série de informações e para ponderar sobre José Saramago e sobre a sua visão tão lúcida sobre as pessoas e as suas crenças, os seus medos e as suas esperanças. Na minha opinião, é este tipo de reacções pelas quais se pode e deve esperar em obras tão grandiosas e polémicas quanto esta.

Sem dúvida, um livro a não perder!

Caim não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra. Pois bem, com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia. Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos e, em muitos casos, cartas dizendo que essas ideias andavam a pedir forma, que já era hora de que o escritor se pusesse ao trabalho, e graças lhe damos por fazê-lo com tão admiráveis resultados. Pílar del Rio in Fundação José Saramago.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 182
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722120760
Colecção: Obras de José Saramago

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No início da Segunda Guerra Mundial, Heinrich Harrer, cidadão austríaco, alpinista famoso, foi capturado pelos Ingleses durante uma expedição aos Himalaias. Internado num campo de prisioneiros na Índia, conseguiu fugir e, viajando a pé em pleno Inverno, logrou chegar a Lassa, a cidade Proibida do Tibete. Aí permaneceu durante anos; aprendeu a língua e tornou-se profundo conhecedor do Tibete e dos Tibetanos. Amigo e perceptor do então jovem Dalai Lama, acompanhou-o até à Índia aquando da invasão do Tibete pela China Comunista.
Este livro, que é já hoje um clássico, relata-nos essa experiência extraordinária de um homem que logrou penetrar no mais fundo da alma do Tibete e do seu povo. Harrer foi, desde então, agraciado com inúmeras condecorações, escreveu mais de vinte livros, dos quais fizeram cerca de quarenta adaptações para cinema e televisão. A sua acção estendeu-se pelos seis continentes e granjeou-lhe a reputação de defensor dos direitos humanos.
Heinrich Harrer e Dalai Lama, exilado, continuam amigos até hoje.

Apreciação

A história é única e penso que este livro se pode considerar uma preciosidade literária, uma vez que nos mostra e ensina a cultura, a tradição, religião e os valores do país que é o “tecto do mundo” nos seus últimos sete anos de existência enquanto país imperial. O Budismo é explicitado enquanto religião, ensinando muito sobre as suas crenças e, sobretudo, sobre a ascensão do monge budista que virá a tornar-se o décimo quarto Dalai Lama. O filme, por outro lado, foca-se mais no esforço e dedicação do protagonista e do seu grande amigo, Aufschnaiter, numa viagem onde procuram o exílio num país neutro durante a Guerra. Porém, na minha opinião, perdeu-se a alma do livro uma vez que, neste, a viagem até Lassa demora dois anos através de cordilheiras de montanhas e pequenas povoações que os permitem sobreviver durante esse período de fome, sede e miséria. Passados esses dois anos, chegam finalmente a Lassa e conseguem organizar as suas vidas a partir das oportunidades que lhes são dadas por aqueles que se tornaram os seus grandes amigos, sendo convidados várias vezes para trabalhar em engenharia ambiental (embora com outro nome) para criar planos de irrigação, barragens, fontes e jardins, começando assim a ganhar a admiração do povo Tibetano.

Os momentos com o Dalai Lama são bastante fiéis ao livro, uma vez que este tem uma curiosidade infindável e uma compreensão extrema que permite que a amizade entre eles cresça sem qualquer tipo de preconceito, esquecendo na maior parte das vezes o protocolo que se deve seguir estritamente na presença do Rei Divino.

Algo curioso é o facto de Heinrich no livro decidir fazer a expedição aos Himalaias porque nenhum outro desporto para além do montanhismo consegue vencer a sua sede de vitória, sendo o seu prémio a sensação de liberdade e as paisagens com que se defronta. No filme, ele parte em expedição contra a vontade da sua noiva grávida e passa os sete anos em conflitos interiores que o corroem e não o libertam até os resolver, uma vez que tem conhecimento que o seu filho nasceu e que tem tantos anos quanto os que ele passa na Índia e no Tibete. Na obra literária, percebe-se o seu afastamento da família que deixou para trás embora goste de enviar e receber notícias ao mundo exterior, sem nunca ser referida uma mulher na sua vida. Aliás, foi-lhe dada a oportunidade mais que uma vez de viver ou casar com mulheres Tibetanas (porque a poligamia é normal) mas a sua posição de autonomia e independência sempre tiveram prioridade na sua vida. É também de referir o facto que Aufschnaiter não casa e não tem interesse especial por mulheres, mas sim pela cultura Tibetana.

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Livro a não perder; filme a ver se houver a oportunidade.

Ficha técnica do livro

Edição/reimpressão: 2002
Páginas: 406
Editor: Edições Asa
ISBN: 9789724129129
Colecção: ASA de Bolso

Ficha técnica do filme

Ano de lançamento: 1998
Tagline: At the end of the world his real journey began
Elenco: Brad Pitt, David Thewlis, B.D. Wong, Mako.

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É o bom leitor que faz o bom livro; em cada livro, ele encontra trechos que parecem confidências ou apartes ocultos para qualquer outro e evidentemente destinados ao seu ouvido; o proveito dos livros depende da sensibilidade do leitor; a ideia ou paixão mais profunda dorme como numa mina enquanto não é descoberta por uma mente e um coração afins.

Ralph Waldo Emerson, in ‘Sociedade e Solidão’

«O Aniversário de Astérix e Obélix – O Livro de Ouro», lançado hoje em 18 países em simultâneo, compila textos inéditos criados por Uderzo e Gosciny.

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Nascidas em 1959, estas personagens encantaram e fizeram “rir a bom rir” gerações de leitores dos 8 aos 80 anos, cada qual com uma interpretação muito própria de cada um dos livros. Não é surpresa que várias eram as alusões políticas e sociais que Uderzo e Goscinny faziam nos livros desta dupla gaulesa sem, mesmo assim, permitir que se perdesse o humor e a ingenuidade. Contudo, parece ser de opinião geral que os livros editados após a morte de Goscinny são, embora imperdíveis, um pouco menos apelativos e com um humor bastante menos refinado. Mesmo assim, torna-se obrigatória a leitura de toda a colecção Astérix e Obélix com muito tempo, disponibilidade e vontade de dar umas boas gargalhadas.

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Ex libris

Depois de visitarmos a Boekhandel Selexyz Dominicanen em Maastricht, porque não darmos uma voltinha ao mundo para conhecer algumas das bibliotecas mais bonitas?

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George Peabody Library, Baltimore, Maryland, EUA Continuar a ler »

Caim, de José Saramago (II)

O tema do novo livro de José Saramago não é inédito na sua obra e até lhe valeu o empurrão para o exílio em Lanzarote mas, desta vez, “deus” surge cru e sem a beleza narrativa de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Nunca o Prémio Nobel da Literatura foi tão a fundo em tão pouca narrativa e nem surpreendera os seus leitores com passagens em que domina um erotismo com uma componente inédita na sua obra

Após a surpresa que a ironia e o humor de A Viagem do Elefante provocaram nos leitores de José Saramago, surge o tempo para a estupefacção perante a sua continuada irreverência religiosa e um sorriso – que pode ser amargo ou trocista – para com a revisão bíblica proposta pelo Nobel em Caim. Livro de uma só palavra no título, José Saramago faz neste breve romance (181 p.) a reconversão de algumas das parábolas que têm estruturado a religião católica e devolve-as aos crentes da Terra como um cometa esponjoso e desinflamado.

Com Caim, o autor continua um novo ciclo de escrita iniciado com a obra anterior e no qual, despretensiosamente, conta uma história distante daqueles monumentos que ergueu ao criar Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira e A Caverna. Não o faz para exercitar a pena, nem abandona o “truque” de partir de uma importante premissa a dominar a narrativa, como lhe foi sempre habitual. A deste livro que, contrariamente à genial quebra de laços com a Europa que abria e – disse-o o escritor – esvaziava um pouco A Jangada de Pedra, o remate literário rivaliza com a tese da reinterpretação da personagem irmão de Abel que percorre o texto.

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A Terceira Visão” narra as vivências de T. Lobsang Rampa, lama médico acompanhante e porta-voz do XIII Dalai Lama tibetano. Ainda menino, Rampa fora enviado para o Lamastério Chakpori, templo da medicina tibetana, onde iniciou o domínio das faculdades psíquicas e espirituais desenvolvidas pelos lamas. O livro descreve rituais sagrados, a superação dos limites do corpo físico e experiências de projecção astral. Numa cerimónia secreta, também detalhada no livro, Rampa foi submetido a uma cirurgia de abertura da terceira visão, que possibilitou a expansão da sua capacidade psíquica a ponto de permiti-lo enxergar a aura de qualquer pessoa, identificar as suas encarnações passadas e futuras, os seus pensamentos e desejos.

Apreciação

Numa primeira abordagem, este livro pode parecer muito esotérico. Contudo, a forma como T. Lobsang Rampa narra a sua infância e entrada na adolescência no Tibete profundo não pode deixar de nos surpreender e de nos suscitar curiosidade sobre as tradições familiares tibetanas e os rituais de ensinamento para entrada na vida religiosa.

Terça-Feira Lobsang Rampa (o nome próprio do povo tibetano é o do dia da semana em que nasceu) conta na primeira pessoa a entrada num mosteiro tibetano, onde inicia a sua vida religiosa como monge – bastante mais tarde, torna-se o lama médico acompanhante e porta-voz do XIII Dalai Lama. Não só nos contextualiza de forma muito clara e intensa a vida familiar tibetana, como nos dá a conhecer muitas das tradições deste povo pacífico, o que acaba por se revelar muito interessante para quem procura romances com esse intuito. A sua entrada no mosteiro é um pouco brusca, não fosse ele um rapazinho de sete anos que gostaria de continuar a brincar livremente com os seus amigos e a passear com o seu pai. Na verdade, duras são as provas pelas quais Lobsang tem de passar para ser admitido e para se manter um dos “alunos” mais dedicados do mosteiro. À medida que cresce, vai conhecendo cada vez melhor os hábitos e procedimentos médicos deste povo, tornando-se uma referência junto das pessoas que o rodeiam. A determinada altura, dá-se o ponto de viragem na sua vida: é-lhe permitido o acesso à terceira visão. Com uma intervenção médica aparentemente simples, é-lhe aberto um buraco na testa que permitirá que Terça-Feira comece a percepcionar o mundo de uma forma cada vez mais viva e verdadeira.

A escrita é simples e fluida, a narração é muito pessoal e o desenrolar do enredo torna-se viciante, tornando este livro numa fonte de curiosidade junto aos leitores. Por se tratar de uma história verídica, é impossível parar de virar as páginas e de tentar descobrir como a personagem encara a sua nova vida. Contudo, há que acrescentar que a polémica em torno desta história pode ser um factor desmotivante para os interessados. Diz-se mundialmente no mercado literário (tratando-se, porém, de informações não confirmadas), que Lobsang T. Rampa não é a verdadeira identidade do autor e que, na realidade, este se chama Cyril Henry Hoskins, um comum cidadão inglês filho de um canalizador, sendo este livro um romance fictício que tem com base estudos de ocultismo e da cultura tibetana. Mesmo assim, é importante referir que os ensinamentos e descrições narradas por Lobsang Rampa são verídicos, de acordo com profissionais de metafísica.

Na minha opinião, “A Terceira Visão” não deixa de ser, de qualquer forma, um livro a não perder e que merece ser livro e muito bem apreciado. A polémica em torno da obra pode torna-se num bom tema para debate e para deixar os leitores ainda mais curiosos sobre a história de Terça-Feira Lobsang Rampa.

Ficha técnica

Ano: 1968
Encadernação: Capa mole
Edição actual: 35ª edição
Classificação: Romance
ISBN: 9788577010264

… sobretudo livros com estas capas fabulosas.

caim

Interrogam-se os fãs de José Saramago se este livro será um dos melhores da sua obra literária. Com lançamento marcado para esta semana, “Caim” de Saramago promete uma leitura plena de emoções fortes, cujo enfoque é Deus, Caim e a Humanidade.

Segundo Pilar del Río, no blog do escritor, neste livro (…) o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos – ou talvez fosse melhor dizer para exigir a outros – uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus.

Caim não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra. Pois bem, com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia. Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos e, em muitos casos, cartas dizendo que essas ideias andavam a pedir forma, que já era hora de que o escritor se pusesse ao trabalho, e graças lhe damos por fazê-lo com tão admiráveis resultados.

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