Feira do livro, parte I

Fui à feira do livro pouco depois de abrir as portas e, embora tenha sentido alguma hesitação sobre que livros comprar, acabei por me decidir por comprar (apenas) dois:

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A Fuga de Auschwitz, de Joel C. Rosenberg, que se irá juntar aos outros tantos que tenho sobre a segunda guerra mundial

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 Toda a Mafalda, Edição Comemorativa dos 50 Anos, para relembrar esta miúda que tem um olhar muito crítico sobre o mundo (e cujos livros li e reli tantas vezes acabaram por se perder)

Conto visitar a feira pelo menos mais uma vez e receio que a lista não se fique por aqui ;)

Que livros compraram?

Arrasar um livro? É assim que se faz

Manual de criptografia para escoteiros

Salman Rushdie disse que “O Código da Vinci” era “tão mau que fazia os livros maus parecerem bons”, mas A.M. Dean mostra que pior é sempre possível.

CRÍTICA DE LIVROS – THRILLER

Título: O Escriba
Autor: A. M. Dean
Editora: Clube do Autor
Páginas: 396
Preço: 17,50€

O romance O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, tornou-se num inesperado êxito à escala planetária no final dos anos 80, mas muitos dos seus leitores não se aperceberam de que o livro era uma sátira às visões conspirativas da História, envolvendo organizações secretas com sinuosas e improváveis ramificações, charadas mirabolantes e enigmas ocultos em venerandos pergaminhos e monumentos históricos, e, em particular, à abundante e delirante produção literária sobre esta temática.

A incapacidade de o leitor comum em identificar o alvo da paródia resultou deste facto: quando O Pêndulo de Foucault foi publicado, os livros sobre conspirações e sociedades secretas — tivessem eles pendor ficcional ou (pretensamente) factual — eram ainda um produto de nicho, consumido quase exclusivamente por maníacos do esoterismo e charadistas.

Consta que, no início deste século, quando um Dan Brown em início de carreira – publicara três livros que tinham tido vendas insignificantes – submeteu o manuscrito de O Código Da Vinci a um editor, este o rejeitou alegando que “estava muito mal escrito”. Era (e é) verdade, mas mesmo um editor mais preocupado com o lucro do que com o refinamento da prosa teria bons motivos para o rejeitar: os livros sobre estes assuntos tinham um número limitado de apreciadores e O Código Da Vinci nada acrescentava ao género, limitando-se a remastigar as fórmulas e tramas exploradas há décadas pelos thrillers esotéricos.

Mas houve um editor que, por qualquer razão, decidiu arriscar: o romance foi publicado em 2003 e acabou por vender 80 milhões de exemplares em 40 línguas. Este sucesso avassalador não se deveu à sua qualidade literária nem à originalidade da intriga, apenas à fortuna de ter saltado do nicho dos coca-bichinhos rosacrucianos e dos carolas dos segredos templários para o público que compra livros nos supermercados e aeroportos.

O Código Da Vinci viria a ser alvo de processos por plágio de The Da Vinci Legacy (1983) e Daughter of God (2000), de Lewis Perdue, e de Holy Blood, Holy Grail (1982), de Baigent, Leigh & Lincoln, mas muitos mais autores da mesma estirpe poderiam tê-lo feito, já que Brown se limita a repetir os lugares comuns da literatura esotérico-conspirativa, que Eco tinha parodiado exaustivamente em O Pêndulo de Foucault.

Assim que se percebeu que os thrillers esotérico-conspirativos eram, agora, apetecíveis também para o grande público, logo uma horda de garimpeiros acorreu a explorar o filão e o émulo Dan Brown tornou-se ele mesmo em objecto de emulação. Em Portugal, quem tem tido mais sucesso nesse empreendimento tem sido José Rodrigues dos Santos (“Escritor de confiança 2014 votado pelos leitores das Selecções do Reader’s Digest” proclama um selo sobre a foto do autor no seu website), com a série iniciada com O Codex 632 (2005), que tem por personagem central o criptanalista Tomás de Noronha, a resposta lusa ao simbologista Robert Langdon (é tão arguto e erudito como o americano e deixa-o a milhas em desempenho sexual), e que já vai em sete títulos, até à data.

Brown e Rodrigues dos Santos têm muito em comum para lá da temática, do herói criptógrafo, das fórmulas narrativas primárias e dos clichés estafadíssimos: julgam-se investidos de uma missão pedagógica e usam constantemente o artifício de colocar as personagens a ministrar umas às outras maçudas palestras sobre o Priorado de Sião, fundamentalismo islâmico, exegese bíblica, física nuclear ou a dinastia merovíngia. Se Brown ainda tem, apesar da natureza rudimentar da prosa e da pobreza das ideias, alguma preocupação em manter a acção sob tensão, José Rodrigues dos Santos deixa-se levar pelo fervor pedagógico, pelo que há prelecções que se estendem, sem interrupção, por dezenas de páginas – thrill é o que mais falta nos seus thrillers.

Há quem aprecie estas sessões de história-para-totós, mas também há gente que achará as obras de Brown e Rodrigues dos Santos sobrecarregadas de erudição, obcecadas com a descrição minuciosa de monumentos e artefactos vetustos e convocando um desnorteante rol de nomes de figuras e códices, e é a eles que A.M. Dean vem acudir com a série de que O Escriba é o segundo volume – o primeiro, O Bibliotecário, foi publicado em 16 países, onde, diz-se, “foi muito bem recebido pela crítica e pelo público”.

O website do autor apresenta-o como “uma sumidade em culturas antigas e história das religiões, cujos conhecimentos sobre a Antiguidade lhe têm valido cargos nas mais prestigiadas universidades do mundo” (mas não lhe granjearam o selo “Escritor de confiança”), embora nada disso transpareça no livro, que não revela mais conhecimentos de “culturas antigas e história das religiões” do que os que qualquer curioso pode obter numa consulta rápida da Wikipédia.

As prelecções estão reduzidas ao mínimo e, embora as personagens andem num corrupio a procurar mapas e mensagens secretas em pergaminhos provectos, visitar museus emblemáticos e decifrar charadas e o autor faça questão de assegurar (como fazem Brown e Rodrigues dos Santos) que o livro se baseia “em descobertas e factos históricos genuínos”, a componente histórica é minimal. Um dos poucos momentos pedagógicos ocorre quando a heroína, Emily Wess, especialista em documentos antigos, explica ao marido, também especialista em documentos antigos, o que é um palimpsesto – é como se um ginecologista sentisse necessidade de explicar a um colega de profissão o que é a menstruação.

Pueril é também a intriga, com uma seita gnóstica que busca umas revelações místicas nos papiros de Nag Hammadi (não há thriller esotérico-conspiracionista sem mensagens escritas a sumo de limão em papéis velhos) e planeia um atentado supostamente terrível, mas que a inépcia do autor converte numa palhaçada inverosímil e anti-climáctica. A narrativa, que se pretende “trepidante”, é aviada em capítulos curtíssimos (raramente ultrapassam as duas páginas), para não exigir demasiado dos neurónios do leitor, e, de qualquer modo, o autor recapitula amiúde elementos básicos da acção, não vá o leitor ter perdido o fio ao enredo.

A ingenuidade de toda a empresa fica bem patente quando a heroína, confrontando-se com um arquivilão lunático e implacável que ela sabe que já matou ou tentou matar ou mandou matar várias pessoas (incluindo ela própria) e está apostado em aniquilar o mundo, lhe pergunta “Não tem o menor sentido de responsabilidade, daquilo que é certo ou errado?” – o tipo de repreensão que se dispensa a um rapazinho apanhado a roubar a merenda do colega no recreio. Quem leia este trecho desinserido de contexto até poderia pensar que se trataria de uma paródia, mas sentido de humor é algo alheio a este livro – A.M. Dean está mesmo convencido de que está a urdir um thriller palpitante.

Apesar de O Escriba recorrer maciçamente aos clichés do género esotérico-conspirativo, é improvável que venha a ser acusado de plágio pelos autores da abundante literatura especulativa sobre evangelhos gnósticos e os “ensinamentos secretos de Cristo” – é que O Escriba está mais longe deles do que da série O Clube das Chaves.

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Crítica publicada por José Carlos Fernandes no Observador a 28.05.2015

Feira do livro de Lisboa 2015

Finalmente! A partir de hoje e até 14 de Junho, o Parque Eduardo VII em Lisboa recebe a maior feira do livro da cidade. São inúmeras as iniciativas previstas para estas duas semanas: entre sessões de autógrafos, workshops, encontros, actividades infantis e música, é possível encontrar de tudo um pouco.

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O que esperar nesta edição?

  • Livros do dia: Descontos especiais diariamente numa selecção limitada de livros
  • Sessões de autógrafos: São dezenas, ou centenas talvez, de acções com autores que estarão disponíveis para apresentar os seus livros e falar um pouco com os seus leitores
  • Sessões infantis: Acções preparadas especialmente para crianças. É de pequenino que torce o pepino, certo? ;)
  • Workshops variados não necessariamente relacionados com literatura: Jogos tradicionais ou um show cooking com a Bimby são alguns deles
  • Cinema: Sessões com formato a definir
  • Clubes de leitura: Encontros para leituras conjuntas
  • E, para além de muitas outras acções, possivelmente a presença de muitas outras marcas para animar o passeio entre stands.

O que procurar?

Bem, isso fica ao critério de cada um. Há quem procure os livros que constam na sua wish-list, há pessoas que vão à aventura e que optem por aqueles que acharem mais apelativos no momento e há também aqueles que não decidem no momento. Em todo o caso, é bom ter presente algumas dicas:

  • Se há livros que estão na sua lista, tente descobrir se há promoções especiais
  • Há espaços com livros em segunda-mão, o que é interessante para encontrar não só autênticas pechinchas, como livros raros
  • Espreite a agenda da Feira e confirme se algum dos seus autores preferidos vai dar uma sessão de autógrafos

Bons devaneios!

Livros interactivos

A experiência de ler e viver um livro nunca mais vai ser a mesma. O Trip Book é um “ebook” que muda o local da ação consoante a cidade onde o leitor estiver

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Quando alguém lê um livro tende a criar mentalmente a imagem da rua ou da cidade que é descrita. Isso explica que os filmes feitos a partir desses livros acabem por ser, não raras vezes, uma desilusão. Agora, há uma forma de não deixar a imaginação por mãos alheias: com um livro que pode ler enquanto está na rua que é descrita.

A ideia inovadora foi criada pela FCB Brasil para o Smiles, o programa de milhas da Gol Linhas Aéreas, e chama-se Trip Book. Graças a um equipamento exclusivo com tecnologia e-paper, o ebook identifica onde está o leitor através da localização geográfica. Desta forma, a história do livro vai sempre passar-se na cidade onde o leitor estiver — ao mudar de cidade, o enredo muda acompanhando as experiências das personagens nesses lugares. De momento só estão disponíveis seis cidades: Lisboa, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Roma, Paris e Buenos Aires. Ou seja, se viajar para Londres, não há como as personagens se reencontrarem em frente ao Big Ben.

 A história é da autoria do escritor brasileiro Marcelo Rubens Paiva, e conta as aventuras da viagem de um casal, Theo e Maria Manoela, na faixa dos 40 anos e a viver em São Paulo, que decide fazer uma pausa na rotina do quotidiano e viajar para a cidade onde passou a primeira lua-de-mel, numa tentativa de reavivar a paixão. A partir deste mote, o destino das personagens vai mudar de acordo com a cidade onde o leitor estiver. A história e as personagens não mudam, o que muda são as referências aos lugares onde o enredo se passa, como ruas, museus, pontos turísticos, comida, restaurantes, lojas, parques, costumes, hotéis e até a língua.

Se está a pensar viajar para uma destas cidades em breve ou se quiser saber o que é realçado sobre a cidade de Lisboa no enredo, caso esteja na capital, só tem de descarregar o Trip Book Smiles de forma gratuita, tanto para Android como iOS.

Informação publicada no Observador a 08.05.2015

Sugestão de fim-de-semana * Weekend suggestion

Visitar a exposição do momento.
Visit World Press Photo 2015 exhibit in Lisbon.

Preparar os óculos de sol e ir à praia.
Hold on to your sunglasses and go to the beach.

E ler um livro.
And read a book.

A queda dos gigantes (a.k.a. Fall of giants, 2010), Ken Follett

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Em A Queda dos Gigantes, o primeiro volume da trilogia “O Século”, as vidas de 5 famílias – americana, alemã, russa, inglesa e escocesa – cruzam-se durante o período tumultuoso da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do Movimento Sufragista. Neste primeiro volume, que começa em 1911 e termina em 1925, travamos conhecimento com as cinco famílias que nas suas sucessivas gerações virão a ser as grandes protagonistas desta trilogia. Os membros destas famílias não esgotam porém a vasta galeria de personagens, incluindo mesmo figuras reais como Winston Churchill, Lenine e Trotsky, o general Joffreou ou Artur Zimmermann, e irão entretecer uma complexidade de relações entre paixões contrariadas, rivalidades e intrigas, jogos de poder, traições, no agitado quadro da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do movimento sufragista feminino. Um extraordinário fresco, excepcional no rigor da investigação e brilhante na reconstrução dos tempos e das mentalidades da época.

It is 1911. The Coronation Day of King George V. The Williams, a Welsh coal-mining family, is linked by romance and enmity to the Fitzherberts, aristocratic coal-mine owners. Lady Maud Fitzherbert falls in love with Walter von Ulrich, a spy at the German Embassy in London. Their destiny is entangled with that of an ambitious young aide to U.S. President Woodrow Wilson and to two orphaned Russian brothers, whose plans to emigrate to America fall foul of war, conscription and revolution. In a plot of unfolding drama and intriguing complexity, “Fall Of Gaints” moves seamlessly from Washington to St Petersburg, from the dirt and danger of a coal mine to the glittering chandeliers of a palace, from the corridors of power to the bedrooms of the mighty.

Contos de fadas

Contos de fadas? De que forma é que os contos de fadas se enquadram no alinhamento deste blog? Pois é, caros leitores, acabei de descobrir todo um novo mundo nos contos de fadas! Andava eu pelas minhas incursões na livraria do costume quando me deparei com um título muito interessante: A psicanálise dos contos de fadas. Não esperei dois segundos para o folhear e o colocar debaixo do braço: Bruno Bettelheim seria a minha companhia nas semanas seguintes.

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Estou a terminar este livro interessantíssimo sobre a importância dos contos de fadas para as crianças: começamos pela definição do conto de fadas e pela distinção face ao mito, passamos pelo papel destas histórias na infância das pessoas e terminamos com uma análise detalhada aos contos de fadas mais conhecidos (e associados em grande parte à Disney).

Acontece que, no conto de fadas, nada acontece por acaso: os problemas relacionais, as ausências de familiares, a quantidade de acontecimentos, os símbolos com que os protagonistas se cruzam as florestas negras, as cores destacadas… Tudo é fruto de uma cuidadosa análise e montagem para que o conto de fadas cumpra o seu objectivo: ajudar o desenvolvimento das crianças. Quer seja a nível consciente, quer (e sobretudo) inconsciente, o conto de fadas ajuda a criança a resolver os seus pequenos conflitos e aflições a vários níveis, através da identificação do problema e da sua resolução.

A psicologia é uma disciplina muito curiosa e para quem teve oportunidade de a estudar, como eu tive – embora não numa perspectiva clínica ou visada nas crianças -, de certeza que gostará do que consta neste livro, como os variados conceitos psicanalíticos ou os inúmeros segredos que estas pequenas histórias escondem.

Se estão curiosos em ler os contos de fadas que a psicologia tem como referência, não se esqueçam de dar aqui um salto e de escolher aqueles cujo tema tem mais a ver convosco. Enjoy!