Emprestar livros ou não emprestar?

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Eis a questão! Este é um tópico muito sensível para quem, como eu, se sente reticente sempre que é deparado com a pergunta “Emprestas-me esse livro?”.

Se lidamos com os tradicionais livros em papel, pode não ser uma situação fácil para quem os empresta: na verdade, por vezes acontecem ‘esquecimentos’ por parte de quem leva os nossos livros para casa, guardando-os indefinidamente antes e depois da leitura, perpetuando a sua estadia ‘fora de portas’. Por outro lado, pequenos hábitos de leitura dessas pessoas podem, de certa forma, iri contra os nossos hábitos (a.k.a. manias) e estragar aquilo que consideramos importante ao guardarmos um livro: capas dobradas, folhas amachucadas, páginas marcadas, descoloração das imagens… Posto isto, é caso para dizer que podemos responder a uma pergunta com outra pergunta: “Será que devo emprestar?”.

Ademir Luiz, num artigo chamado “Ética do livro: os 13 mandamentos“, afirma que “emprestar um livro é, antes de tudo, um ato de desprendimento. Quem empresta uma obra literária, um volume de filosofia ou técnico, uma peça ou um ensaio de divulgação científica está ajudando a difundir o conhecimento ou ao menos divertindo alguém. Existe algo de nobre até mesmo em emprestar o mais lamentável dos best-sellers de fórmula”. Contudo, este acto de boa vontade é imediatamente contraposto quando surge a possibilidade, por mais ínfima que seja, de o nosso livro não nos ser devolvido ou ser tratado “desrespeitosamente”.

A informação é estanque. Hoje em dia, na era da informação, é praticamente impossível não partilharmos informação com o que nos rodeia, seja qual for o seu teor ou canais em que a partilhamos. No caso de um livro, se o seu tema é suficientemente relevante e cativante para ser discutido com um dos nossos grupos sociais, é provável que surja a questão do empréstimo. Se essa é uma situação incontornável, pessoalmente guio-me por um conjunto de critérios que me ajudará a decidir se emprestarei ou não (correndo o risco de ser um pouco picuinhas sobre o assunto, mas isso talvez seja transversal a qualquer apreciador de livros eheh):

  • Trata-se de uma pessoa próxima com quem tenha um contacto regular? Preferencialmente, prefiro emprestar a estas pessoas porque a nossa proximidade permitir-me-á saber por onde anda o meu livro e que qualquer esquecimento pode ser resolvido tranquilamente;
  • Trata-se de um leitor ávido? Quanto mais a pessoa lê, mais respeita os livros (seus e alheios), pelo que será mais tranquilizador colocar um livro nosso nas mãos de quem os aprecia tantos como nós;
  • É alguém com receptividade para troca de livros – mesmo que temporariamente? Se emprestarmos livros um ao outro, a probabilidade de virmos a devolver mais depressa é maior porque, na verdade, estamos na mesma situação de partilha.

Em todo o caso, também é interessante falarmos da partilha de livros em formato digital. Com a tecnologia que protege a pirataria e cópia ilegal de e-livros, começam a surgir algumas soluções que permitem o empréstimo de obras literárias. O Nook, por exemplo, é um e-reader concorrente ao Kindle que permite emprestar livros.

E vocês? Emprestam ou não emprestam?

Sugestão de fim-de-semana * Weekend suggestion

Visitar o Museu Colecção Berardo.
Visit a Museum.

Festejar o início da Primavera.
Celebrate the beginning of Spring.

E ler um livro.
And read a book.

1089

1089 (2015), de Emílio Miranda

O nascimento de uma nação
As lutas dos homens

Ano de 1089. Uma nação em formação ergue-se na bruma do tempo, movida pelo forte e leal braço do povo, pelo arrojo de senhores feudais e pela fé nos ditames da Igreja e dos seus ministros. Num velho mosteiro, são muitas e sinceras as preces, mas também as manobras pela conquista do poder nesse novo território.

O destino de um povo

1089 relata, de forma precisa, viva e cativante, os dias da fundação de Portugal tendo como palco central as terras de um mosteiro beneditino. E não deixa de fora relatos da ambição dos homens e, em particular, dos da Igreja, com os seus segredos e jogos de luz e sombra.

A escrever um livro

Libertação pela escrita

Ou a tentar. Este tema já não é novidade no blog, mas desta vez é que é: uma das minhas resoluções para este ano é terminar de escrever o livro e propô-lo a uma editora.

Neste percurso interessante que tem sido descobrir a minha forma de escrita, apercebi-me que passei por várias fases. Sempre escrevi muito, o que não significa que esses textos tivessem qualidade para ser editados ou, no mínimo, publicados. Ao longo do tempo, comecei a querer escrever com um propósito que não o da expressão íntima, pelo que criei um blog generalista que rapidamente se tornou alvo de centenas de visitas diárias. Anos passados, optei por o apagar – com receio de vir a expor a minha vida privada, e criei este espaço literário que, a brincar a brincar, fará sete anos em breve!

Por me ter dedicado sempre à leitura, sempre me questionei qual seria a minha forma preferencial de escrita e os temas que gostaria de abordar. Hoje, mesmo tenho optado por um género em particular, mantenho precisamente essa dúvida. Em todo o caso, e porque é importante ser-se pragmático, acabei por restringir as minhas preferências a duas: o meu formato de leitura preferido é o que possui a estrutura de romance literário e a minha forma de escrita preferida é o conto. Sendo assim, não escreverei aquilo que mais gosto de ler.

O resultado? Não sei. Tenho tido algumas opiniões favoráveis e muito entusiasmantes ao que já li, pelo que agora o objectivo é manter-me focada neste objectivo e conseguir fechar este capítulo.

Gostariam de ler algo escrito por mim? ;)

Livros para venda

Altura de limpeza de estantes! Vendo estes livros:

espuma_dos_dias

Espuma dos Dias, de Boris Vian.  Edição portuguesa. Em bom estado. 7€

walking_dead_vol01

Primeiro volume do The Walking Dead em português. Está novo. 9€.

dali_obrapintada

Dali, obra pintada. Dois volumes. Em português. 29€.

O preço inclui envio por CTT com taxa de livro para Portugal. Se estiverem interessados, podem comentar ou enviar email para folhasdepapel.d [at] gmail [dot] com. Boas leituras!

Sobre o acordo ortográfico

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Muita tinta tem corrido sobre o acordo ortográfico em Portugal. Esta mudança linguística entra, afinal, em acordo ou desacordo com a população? A que se deve esta mudança? Será que todas as revisões feitas pelo novo acordo estão correctas?

A nível pessoal, os meus leitores sabem que eu não escrevo sobre as regras ao AO90. No blog, em textos pessoais, em cartas, em agendas… Seja o que for. Escrevendo a nível particular, escrevo como sempre escrevi. A nível profissional, no meu dia-a-dia também não utilizo o novo acordo, com uma excepção: uma empresa para que trabalho precisa da sua informação revista de acordo com o AO90 e eu, como responsável pela sua comunicação, tenho de discretamente aceitar esta situação e adequar-me ao que o mercado me pede.

Como surgiram os acordos ortográficos?

O portal da língua portuguesa diz-nos que

A existência de duas ortografias oficiais da língua portuguesa, a lusitana e a brasileira, tem sido considerada como largamente prejudicial para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no Mundo. (…) Por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, em consonância com a Academia das Ciências de Lisboa, com o objectivo de se minimizarem os inconvenientes desta situação, foi aprovado em 1931 o primeiro acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil. Todavia, por razões que não importa agora mencionar, este acordo não produziu, afinal, a tão desejada unificação dos dois sistemas ortográficos, facto que levou mais tarde à Convenção Ortográfica de 1943. Perante as divergências persistentes nos Vocabulários entretanto publicados pelas duas Academias, que punham em evidência os parcos resultados práticos do Acordo de 1943, realizou-se, em 1945, em Lisboa, novo encontro entre representantes daquelas duas agremiações, o qual conduziu à chamada Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945. Mais uma vez, porém, este Acordo não produziu os almejados efeitos, já que ele foi adoptado em Portugal, mas não no Brasil.

Como o passar dos anos, em ambos os países foram promulgadas leis para reduzir as divergências ortográficas entre ambos e, actualmente, vigora o AO90 que tenha uniformizar a ortografia portuguesa.

O desacordo

Os principais motivos que levam à contestação por parte dos portugueses relacionam-se não só com a desacertada uniformização encontrada da nova gramática, mas prendem-se em muito com constrangimentos legais e constitucionais que a petição pública pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990′ refere no ponto 3.5:

Dos primeiros, cite-se a síntese feita por António Emiliano (Professor Associado Agregado de Linguística da Universidade Nova de Lisboa), em Síntese de Problemas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 — documento apresentado à Comissão de Ética, Cultura e Sociedade na Audição da Petição N. 495 (Petição em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico), 25/9/2008:

  • Nunca foi discutido pela comunidade científica portuguesa nem pelos sectores da sociedade portuguesa mais afectados,
  • Apresenta fundamentação deficiente e falaciosa das mudanças propostas,
  • Contém erros técnicos grosseiros e propõe soluções ortográficas estapafúrdias e injustificáveis,
  • Revela insensibilidade à preservação da estabilidade ortográfica e ao valor patrimonial da ortografia,
  • Revela incompetência na análise da estrutura, função e inscrição social de uma ortografia,
  • Destrói de facto o conceito de norma ortográfica, instaurando o caos ortográfico nas escolas e na sociedade,
  • Terá consequências educacionais, culturais, sociais e económicas nefastas, afectando negativamente profissionais portugueses de diversos sectores,
  • Afectará de forma muito negativa a normalização e estabilização da terminologia técnico-científica em Portugal e nos países que usam a ortografia euro-afro-asiático-oceânica,
  • Afectará negativamente o prestígio de Portugal: é um atentado ao desenvolvimento, à educação, ao progresso e à competitividade dos Portugueses.

As confusões

Na minha opinião, o acordo ortográfico não é esclarecedor e revela algumas lacunas gramaticais e ortográficas, o que tem contribuído para uma certa iliteracia revelada em variados canais de comunicação. A título exemplificativo, ao se suprimirem os C e P mudos mas ao se deixarem algumas excepções (como só a língua portuguesa nos sabe presentear), surgem incoerências nas várias grafias. Será que falamos dos egípcios do Egito? E que influência tem esta revisão nas homografias e homonímias? Parte-se do seguinte princípio: ‘recepção’ tem um P mudo? Tira. Errado. O P pode ser mudo (porque não se lê, de facto), mas tem uma função que interfere com a fonética da palavra. Sendo eliminado, passar-se-ia a ler ‘resseção’. Portugal não é um dos país mais bem colocados nos rankings de alfabetização (devendo aqui ser considerada a iliteracia e analfabetismo total ou funcional), pelo que já começa a ser hábito encontrarmos palavras erradamente revistas ortograficamente: ‘facto’ não é, em situação alguma, ‘fato’.

Mais desacordo… desta vez não ortográfico

Os estudantes vão ser obrigados a usar a nova grafia nos exames nacionais, marcados para daqui a poucos meses. Serão penalizados se o não fizerem. Para além de ser inconstitucional (e nem me vou alargar sobre este assunto), lanço apenas uma questão: também se descontam tantos valores em testes de alunos que não sabem, sem sombra de dúvida, escrever Português?

Diziam-me aqui há um tempo que a adopção “facilitava” a língua portuguesa, pelo que simplesmente devíamos deixar-nos levar e aceitar a mudança. Não. Todos os países têm expressões, características, formas distintas. Todos os países são influenciados pela sua cultura, história e tradições. Porque deve acontecer a evolução linguística por decreto-lei e com espaço para tanta discordância? Em todos os países, a língua muda, a língua evolui, as palavras sofrem mutações.  E, quando isso acontece – se olharmos para uma janela temporal bastante alargada – conseguimos perceber porquê:

Ao nível interno:

  • Economia – As línguas procuram constantemente um ponto de perfeição: a possibilidade máxima de utilização (comunicativa) com uma quantidade mínima de elementos.
  • Ritmos – As línguas evoluem por ciclos: complicam, simplificam, complicam… A Simplificação suprime e generaliza ou reestrutura as regras gramaticais; enquanto a Complexificação adiciona e especializa regras gramaticais.
  • Equilíbrio – As línguas existem num equilíbrio precário entre elementos distintivos e redundantes, sendo forçadas a uma constante re-adaptação de modo a manter o seu equilíbrio à medida que vai evoluindo.
  • Tendências – Ao longo de vários anos (séculos) algumas línguas dentro de um certo grupo apresentam, por vezes, tendências análogas em termos de evolução, ao que se dá o nome de Deriva.

Ao nível externo:

  • Sociocultura – Uma palavra ou até estrutura linguística pode ser adoptada, quer consciente quer inconscientemente, devido ao seu prestígio. Por exemplo, quando um famoso diz algo que as pessoas começam a imitar, ou expressões inglesas que são preferidas às portuguesas.
  • Política – As condições políticas são, muitas vezes, fundamentais para a evolução de uma língua: na China, onde existem várias línguas, a língua oficial (a ser usada na burocracia) era a de quem estava no poder, podendo mudar de um momento para o outro graças a uma derrota por um nobre rival.
  • Geografia – As vias de comunicação ajudam a espalhar as mudanças linguísticas num território, mas se este estiver dividido por grandes obstáculos como rios, mares ou cadeias montanhosas, as mudanças tendem a não ser tão homogéneas.
  • Contactos Linguísticos – A influência de outras línguas é fundamental para definir a evolução de uma língua. Normalmente, o grau de influência que as línguas estrangeiras têem é definido de acordo com superstrato, estrato, substrato ou adstrato. De qualquer modo, esta condição está intimamente ligada às anteriores (refiro-me quer às condições externas, quer às internas).

De forma geral, sabemos que as pessoas são desconfiadas e que rejeitam a mudança. Neste caso, considerando que se tratou de uma mudança forçada e sustentada em frágeis e duvidosos princípios, acredito que ainda possa acontecer o retrocesso: eliminarmos este acordo e mantermos a língua Portuguesa – de Portugal e em Portugal – tal e qual estava antes de este processo ter início. No fundo, o problema não é o da uniformização, mas da má condução de todo o processo e de decisões que continuam a perpetuar a problemática.

A páginas tantas…!

Todos temos dias atribulados e semanas caóticas que nos deixam com a cabeça a andar à roda. O início do mês de Março foi assim e, às páginas tantas, não escrevi no blog tanto quanto gostaria nem li tanto quanto precisava ;)

Em todo o caso, cá estou e na próxima semana conto ter posts diários novamente.

Até lá, vou entreter-me com este título que promete ser muito divertido.

excentrico_mordecai

Bom fim-de-semana!