A Viagem ao Tecto do Mundo

Eu sempre tive um sonho: conseguir chegar ao tecto do mundo!

Várias vezes perguntei onde ficava esse lugar mas, como nunca ninguém me soube responder, um dia decidi ir à procura.

No quintal da minha avó há uma árvore muito, muito alta. Tão alta que, no princípio, eu pensava que o sítio mais alto do mundo ficava lá em cima, no topo dessa árvore. Demorei muito tempo até conseguir chegar ao ramo mais alto. E, um dia, depois de ter esfolado os joelhos e os cotovelos mais de cem vezes, finalmente cheguei lá. “Cá estou eu, no tecto do mundo!” gritei muito alto. Mas, quando olhei à volta, descobri que, ali mesmo ao lado, se erguia um prédio muito mais alto do que eu… Enchi-me de coragem. Calcei as minhas sapatilhas especiais e lá fui… Subi 125 degraus! Sentia-me tão cansado que mal conseguia respirar.

“Hoje é um dia muito importante” disse com ar solene. “Finalmente cheguei ao tecto do mundo!”. Mas, nesse momento, um sino tocou bem, perto dos meus ouvidos e descobri que, ali mesmo ao lado, se erguia uma catedral muito mais alta do que eu…

Vesti-me todo catita para ir visitar a torre da catedral. Estava tão ansioso que até saltei os degraus, quatro a quatro, para chegar mais depressa! Ainda me lembro perfeitamente… foram 274 degraus! Quando subi ao último lance de escadas, anunciei “Senhoras e senhores, cá estou eu, no tecto do mundo! Obrigado, obrigado…” Mas depois, lentamente, olhei à volta… Então não é que, ali mesmo ao lado, um rei mandara construir, há muitos séculos atrás, um castelo muito mais alto do que eu?

O castelo ainda ficava um pouco longe. Seria possível ir até lá? Montei na minha bicicleta e pus-me a pedalar. Tive que parar várias vezes para beber água porque a subida era mesmo muito inclinada. Quando cheguei lá a cima, pensei só para mim: “Como é lindo, o tecto do mundo!”. E a vista era, de facto, bonita… Só que, mesmo ali ao lado, eu vi, pela primeira vez, uma montanha muito mais alta do que qualquer castelo no mundo.

Apanhei uma camioneta. Estava cheia de turistas que riam e falavam muito alto. “Estas pessoas já devem saber que vão visitar o tecto do mundo…” pensei “por isso é que estão tão felizes!”. Mas, quando a carrinha nos deixou no miradouro que ficava no ponto mais alto da montanha, eu vi que lá longe, do outro lado do mar… existia uma montanha muito mais alta do que a minha.

“E agora, como é que vou chegar ao cimo daquela montanha?” pensei “Só se for de boleia com um alpinista…”. Foi uma viagem longa e difícil. Caminhámos durante muitos dias sobre neve e gelo e, um dia, atingimos o topo. Fixámos uma bandeira no chão, até tirámos uma fotografica! E eu anunciei aos quatro ventos “Finalmente, o tecto do mundo é meu!”.

Desta vez, não existia dúvidas. Até existia, no local, uma placa onde se podia ler: BEM-VINDO AO TECTO DO MUNDO! Olhei à volta: nem prédios, nem torres, nem catedrais, nem castelos. Desta vez, todas as montanhas do mundo eram mais baixas do que a minha!

Veio a noite. Montámos uma tenda para dormir. No céu não havia nuvéns, só estrelas… “Tantas estrelas que há no tecto do mundo!” pensei eu. Mas depois pensei melhor… “As estrelas é que são o tecto do mundo!”. E nesse momento percebi que estava redondamente enganado. Mas não julguem que fiquei triste ou desiludido: o tecto do mundo existia e mais uma vez eu conseguia vê-lo. Ao longe, é certo. Muito, muito ao longe… MAS UM DIA EU HAVIA DE LÁ CHEGAR!

Concepção da história pela Zero a Oito, em parceria com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.