Christiane F.

Era uma vez uma rapariga chamada Christiane, que vivia em Berlim há muitos anos. O seu bairro era considerado industrial, visto que os prédios de betão tinham dezenas de andares, quais gavetinhas encaixadas numa parede áspera cor de cinza. Os passeios das ruas também eram de betão e, infelizmente, não existiam recreios infantis onde Christiane e os amigos pudessem brincar e usufruir da sua infância.

Os tempos eram outros. Os pais deram-lhe uma educação muito rígida e eram muito rigorosos. Depois de os seus pais se separarem, a menina teve de crescer muito depressa para aprender a tomar conta da irmã mais nova, o que lhe atribuiu uma maturidade rara em crianças dessa idade.

Entrou na escola, fez amigos e era feliz à sua maneira, mas era uma rapariga muito solitária. A certa altura, no grupo da igreja, surgiram drogas leves com as quais os jovens se aliciavam para escapar da realidade dura desses dias. Tentando compensar o buraco vazio que tinha dentro de si, Christiane deu o primeiro passo no mundo da droga, acabando por mergulhar a fundo neste oceano de humilhação, de dor, de falta de compaixão e de luta solitária.

Esta é a história real do livro Os Filhos da Droga, o livro que mais vezes li e o qual não me canso de reler. Normalmente leio muito e tenho preferência pelas biografias e romances que acompanham a vida da personagem principal. Quando comento que este é, de longe, o livro pelo qual me apaixonei mais intensamente desde há muitos anos para cá, é normal que me respondam que este é um livro duro, macabro, quase negro. Eu não o vejo só assim.

Christiane tem 14 anos quando atinge o auge da sua dependência, a qual partilha com o namorado e com os amigos mais próximos. Fala-nos do efeito turkey (a desintoxicação do corpo que provoca dores, espasmos, vómitos, alucinações, etc.); das amizades que faz que, sem que ninguém se aperceba, nasce da necessidade de trabalho de equipa para sobreviver; das noites em discotecas underground; das tardes de prostituição na estação do Zoo, das fugas de Berlim para se tentar desintoxicar; das promessas que faz à família.

Sim, este livro fala de dor. Mas também fala de luta. Conta-nos a história de uma criança de 14 anos solitária que luta, a quem não dão mais de 2 anos de vida. E hoje? Hoje tem mais de 40 anos. Sobreviveu.