“Os Filhos da Droga”, de Christiane F.

aqui escrevi acerca desta rapariga mas, na minha opinião, nunca é demais.

“Os Filhos da Droga” foi o livro que mais vezes li. Quantas vezes não sei, mas se disser que ronda as 10 leituras não estou muito longe da verdade. É engraçada a reacção de algumas pessoas a que confidencio esta paixão por um livro aparentemente tão negro, sujo e degradante, mas que se enganem quem pensa que este é um livro apenas de sofrimento.

De início, não pensei que este fosse um livro que me viesse a marcar durante tanto tempo, mas à medida que virava as páginas ficava cada vez mais presa à história de uma criança que se vê envolvida num ciclo vicioso entre as drogas, a vontade de se libertar delas, do medo do mundo que elas implicam e do jogo entre a fraqueza e a força humana. Se se tratasse de um romance fictício, provavelmente não me teria fascinado tanto mas, por se tratar de uma história verídica, fiquei presa ao enredo de forma surpreendente.

Christiane F. é uma criança como qualquer outra que pertencia aos bairros industriais de Berlim. A difícil vida familiar envolveu-a com solidão e com a necessidade permanente de afirmação no seu círculo social. Aquilo que começou por uma brincadeira “ao braço de ferro” entre si e os amiguinhos depressa se tornou numa luta quase irreal consigo mesma, onde “duas Christianes” se deparavam violenta e diariamente: uma era a filha bem comportada que se queria aproximar dos pais e ser feliz como “as crianças normais”; a outra era a filha rebelde e invisível que se queria afirmar e que lutava desesperadamente por sobreviver num mundo que não era o seu.

Entre discotecas imundas, viagens de metro psicadélicas, morte de amigos, prostituição infantil na tão conhecida estação do zoo, injecções em casas de banho públicas e tráfico nas ruas de Berlim, Christiane inicia a adolescência com uma maturidade fora do vulgar, uma frieza indescritível e, mesmo assim, com um coração puro, sensato e com noção do perigo.

No seu todo, este livro relata a história dura de uma criança que luta por si, embora não o saiba. Sim, trata-se de um percurso duro, sofredor, perverso, sujo… mas Christiane F. é vencedora e ainda hoje é viva.

Podem ler uma entrevista com Christiane F. aos 45 anos aqui.

 

A verdadeira Christiane F.

 

Christiane depois de entrar nas drogas

 

Christiane adulta

 

Detlef, o grande amor de Christiane.

 

Babsi, a mais nova vítima da droga na Alemanha. Era uma das grandes amigas de Christiane. Morreu aos 14 anos com uma overdose.

 

Stella, outra grande amiga de Christiane, mostra aos jornalistas o seu vício. Tinha 13 anos nesta imagem.

 

Discoteca Sound, onde Christiane conheceu alguns dos seus grandes amigos. Foi onde mergulharam nas chamadas “drogas duras”. Ainda hoje existe, mas num local diferente.

 

Cartaz da discoteca Sound, a “discoteca mais moderna da Europa” que, afinal, era apenas um espaço aproveitado pela gerência, qual garagem.