Harry Potter, de J.K. Rowling

Há algo que J.K. Rowling tem que é díficil de encontrar: a sua imaginação e a sua forma de narrativa conseguiram com que a saga do seu herói, Harry Potter, superasse em vendas absolutas mundiais a Bíblia.

A saga de Harry Potter não pode deixar de encantar. O seu primeiro volume apresenta-nos um mundo que nos é muito pouco familiar sendo que, até esse momento, quando ouvíamos falar de magia, a primeira coisa de que nos lembrávamos eram séries televisivas de baixo orçamento e com os habituais clichés. Por seu lado, o mundo mágico de Rowling parece-nos totalmente passível de ser real.

Começamos por conhecer as personagens e os seus relacionamentos sendo que, claro está, é Harry que mais nos chama a atenção. O seu passado medonho, triste e obscuro, bem como a sua vida actual numa casa de Muggles, não nos é indiferente ao ponto de nos questionarmos se a autora não será um pouco macabra. Percebemos que os amigos da personagem principal lhe têm uma amizade intensíssima e que estarão a seu lado para o bem e para o mal.

Os primeiros volumes recriam um mundo um pouco infantil, mas esta imaturidade depressa é deixada para trás à medida que a história se desenrola, fazendo com que os últimos volumes sejam mais apropriados a adultos que a crianças. A morte, a dor, o medo constante, a desconfiança e a coragem apoderam-se da narrativa sem que nos apercebamos disso.

Com personagens simples em enredos complexos, a saga da Harry Potter consegue facilmente fidelizar o mais simples dos leitores. A criatividade de Rowling e o suspense com que a autora tece a trama são dos principais motivos que fazem com que haja milhares de leitores assíduos no mundo que se encontrem e discutam as possibilidades de desfecho. A fidelidade de Snape e a morte de Dumbledore, os objectos que se tornaram em Horcruxes ou a possibilidade de Draco Malfoy possuir um fundo bondoso são alguns dos temas mais discutidos e pensados na internet e na “vida real”.

Os quatro primeiros volumes li de uma assentada no espaço de uma semana; os restantes comprei à medida que íam sendo lançados. Tenho de defender que as versões originais são bastante melhores que as portuguesas; as traduções são realmente fracas. Em termos comparativos, por exemplo, The Deathly Hallows é periosíssimo a Os Talismãs da Morte. Quando saíu o último volume em versão inglesa, dei por mim à meia-noite numa fila interminável para ser das primeiras para o comprar, tendo sido necessário fechar-me ao mundo durante o fim-de-semana para satisfazer, finalmente, a minha curiosidade sobre o rapazinho que todos aprendemos a adorar. Lembro-me que fiquei chateadíssima quando a versão portuguesa de Harry Potter and the Half Blood Prince foi lançada e, numa reportagem da Bertrand, o cómico Nilton fez o favor de estragar o final às crianças que o foram comprar à meia-noite e, obviamente, às pessoas que o assistiam na televisão. “Sabes quem morre no fim?”.

Quero evitar referir qual o meu volume preferido, porque considero esta uma saga única. Contudo, uma das passagens de que mais gostei e que ficou marcada foi a cena que começa no capítulo A Batalha de Hogwarts no último volume. Finalmente, todas as personagens encontram-se num sítio comum, onde até personagens falecidas têm a sua quota parte de participação, como o Sirius ou os pais de Harry. A morte de Harry, em que ele dá a vida pelos amigos, torna-se um símbolo de coragem. A tristeza dos seus próximos é completamente avassaladora. Mesmo a cena em que Voldemort morre está fenomenal. O feitiço inocente que caracteriza Harry e que o ía matando no início deste volume, no capítulo Os Sete Potters acaba por ser o derradeiro na luta contra o mal. Fantástico.

Aproveito ainda para referir que adorei a evolução de Neville ao longo de toda a história: começa como uma criança nervosa, com tiques e muito corado a um adolescente corajoso, fiel aos seus amigos e pleno de força para lutar com os seus contra o mal.

Ao fim e ao cabo, esta saga maravilhou-me. Embora, por norma, as adaptações cinematográficas fiquem sempre aquém dos originais literários, pretendo continuar a ver os filmes e juntá-los à minha colecção, quanto mais não seja porque há filmes em que os cenários estão exactamente iguais aos descritos por Rowling. É sempre agradável vermos aquilo que imaginamos.