O Domador de Almas, de Ione França

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Caso queiram ignorar, ignorem, mas: Gerar este filho foi surpresa. Gerá-lo com o saxofone entre os dedos foi espanto. Ver e rever a barriga a crescer, a acompanhar o corpo dele, que se apronta em altura e peso, é desgraça. Raras vezes ela rasga a alma para espiá-lo e o sorriso que escapa do seu corpo vem daquele lábio de filho. “Todo o corpo de mãe ri no seu segredo!”

Apreciação

Li este livro há muitos anos, na altura em que foi publicado e lembro-te de ter adorado a forma como Ione França relata este conto meio onírico, todo ele non-sense, com uma pitada de fantasia e surrealismo.

Esta contista e poetisa narra-nos a história de um ser que se recusa a nascer e que toca saxofone na barriga da mãe, não obstante o seu sofrimento e estupefacção. Depois de nascer, torna-se adulto e pretende realizar o seu sonho: domar a dor das almas de terceiros.

Torna-se uma leitura muito suave e altamente viciante, visto que queremos perceber até onde vai a imaginação da autora, ao mesmo tempo que nos deliciamos com textos absolutamente hipnotizantes, graças ao seu esforço por tornar este num texto que parece possuir cor própria, com um ritmo melodioso.

… Sinto muito, mas os teus olhos não são mar, são apenas um aquário com a água do mar, perdidos dentro do teu rosto, e o teu rosto é um deserto, é um sertão de dor. Ouves-me?

Ficha técnica

Autor: Ione França
Edição: 1997
Páginas: 120
Editor: Pergaminho