Queimada Vida, de Souad

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Quando o amor antes do casamento é sinónimo de morte. Souad tinha dezassete anos e estava apaixonada. Na sua aldeia da Cisjordânia, como em tantas outras, o amor antes do casamento era sinónimo de morte. Tendo ficado grávida, um cunhado é encarregado de executar a sentença: regá- -la com gasolina e chegar-lhe fogo. Terrivelmente queimada, Souad sobrevive por milagre. No hospital, para onde a levam e onde se recusam a tratá-la, a própria mãe tenta assassiná-la. Hoje, muitos anos depois, Souad decide falar em nome das mulheres que, por motivos idênticos aos seus, ainda arriscam a vida. Para o fazer, para contar ao mundo a barbaridade desta prática, ela corre diariamente sérios perigos, uma vez que o “atentado” à honra da sua família é um “crime” que ainda não prescreveu. Um testemunho comovente e aterrador, mas também um apelo contra o silêncio que cobre o sofrimento e a morte de milhares de mulheres.

Apreciação

Mais que um livro, “Queimada Viva” é um relato impressionante sobre uma rapariga cuja forma de vida nos é completamente impensável e irreal. Passada na Cisjordânia, esta história contada na primeira pessoa dá-nos a conhecer a cultura de uma aldeia perdida algures neste país, onde descobrimos formas de vida e mentalidades quase primitivas, no sentido em que reina um tipo de pensamento obtuso, limitado e, na nossa perspectiva, irracional.

O objectivo da vida dos habitantes desta aldeia é casar, ter filhos homens, ostentar a riqueza e, sobretudo – e é isto que determina a forma de vida nestes locais – a óptima reputação entre a vizinhança. Isto determina a “honra” da família e, se esta é violada, não há meias medidas para anular a vergonha.

Na aldeia onde se passa esta história, não só as mulheres não podem andar sozinhas na rua, como não podem ter qualquer tipo de contacto com homens antes do casamento – mesmo visual, nem sequer andar calçadas, excepto em ocasiões especiais, como o seu casamento. A pena para a infracção destas “regras” é a morte. A forma de castigo de Souad – grávida de sete meses – é determinada pelos pais e executada pelo cunhado: é-lhe ateado fogo.

A história é contada na primeira pessoa, resultando numa narrativa toldada pelo ódio, pela revolta e pelo desejo de vingança, tornando a leitura carregada de um negativismo imenso, presente ao virar de cada página. Visto que Souad é praticamente iletrada, fica-se com a nítida noção que este livro é uma transcrição da história contada em voz alta, visto que há viagens repentinas no tempo e viragens repentinas na narração dos factos. Consegui imaginar na perfeição, durante quase todo o livro, Souad sentada numa cadeira, escondida por baixo de roupas largas, a narrar a sua infância e adolescência com uns olhos vítreos focados no passado, com o rancor a pulsar-lhe nas veias e o ódio à flor da pele. Parece que o seu objectivo é mesmo esse: transmitir a sua dor da forma mais crua possível. Desta forma sente que faz qualquer tipo de justiça.

“Queimada Viva” não pode deixar de ser lido. Embora seja um livro de nada fácil leitura, devido aos terrores pelos quais as mulheres desta aldeia passam, torna-se uma fonte de informação sobre formas de vida que o mundo ocidental não crê – ou não quer crer – que ainda existam.

Ficha técnica

Ano de edição ou reimpressão: 2004
Editor: Edições Asa
ISBN: 9789724136868
Dimensões: 23,6 x 15,7 x 1,5 cm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 192
Classificação: Biografias