Chocolate, de Joanne Harris

chocolate

Vianne é uma mãe solteira que chega à pequena aldeia, com a sua filha, e ali abre uma chocolataria. Os capítulos alternados, ora com a voz de Vianne, ora com a do padre Reynaud (ao contrário do filme, no livro é este que quer fechar esta loja das tentações), criam uma grande tensão dramática. “Todos nós somos divididos interiormente” diz Joanne. ” O Padre Reynaud é uma espécie de anoréctico. Recusa-se a comer e tortura-se a si próprio ficando horas em frente à montra do talho. É repressivo, a sua severidade para com os outros baseia-se no facto de se odiar profundamente.” (citada pela revista (livros), nº 19). É contra este pensamento que “Chocolate” se insurge, defendendo os pequenos prazeres da vida, neste caso os gastronómicos, e o direito à diferença, numa pequena aldeia, fechada ao que vem de fora, (também os ciganos, que ali aparecem, com as suas músicas e outro tipo de vida, são votados ao ostracismo), e que, de certa forma, põe em causa o poder instalado.

Apreciação

Com grande pena minha, quando se fala em determinado títulos, mais facilmente são associados a filmes e não tão imediatamente a livros. Não que um filme cujo argumento seja adaptado de uma obra literária tenha de ser obrigatoriamente mau – porque há uns que não o são, mas penso que há livros imperdíveis para apreciarmos a forma de escrita e a capacidade extraordinária de descrição de alguns autores, como é o caso de Joanne Harris com o seu famosíssimo “Chocolate”.

A leveza com que a autora espelha a chocolateria e todos os seus produtos não pode, de forma nenhuma, ser ignorada ou confundida com outras peças que tenham como fundo a doçaria gourmet. Cada página está repleta de odores, de cor e de texturas, sendo perfeitamente possível aguçar o paladar – ainda mais que no filme – com os doces confeccionados pela protagonista, Vianne Rocher, uma mulher que luta contra os fantasmas que lhe foram apresentados ao longo da sua vida pela sua mãe, enquanto se esforça incessantemente por garantir uma vida feliz e equilibrada à sua pequena filha, Anouk.

A delicadeza com que Harris retrata a vida de Vianne é sublime, expondo elegantemente os seus medos, as suas angústias, os seus sonhos e os atropelos dos mesmos. Não é difícil o leitor perder-se numa história tão simples que fala da vida de pessoas simples. O local onde a narrativa se desenrola, a vila Lansquenet-sous-Tannes, é um local pequeno com costumes não muito brandos, adquirido ela mesma uma vida própria e contribuindo para os eventos como qualquer outra personagem.

As personagens são ricas, complexas, plenas de dúvida e de temperamento. São reais. Os seus actos implicam ponderação e as suas acções têm consequências. A trama desenvolve-se lentamente por detrás de um nevoeiro intenso de cumplicidade e de intrigas, sendo cada vez mais vísivel à medida que o tempo passa e que Vianne se torna o centro de um mundo herege.

Os livros, sem dúvida, obrigam a uma maior entrega por parte das pessoas: tempo, disponibilidade e estado de espírito. Mas compensa. Somos omnipresentes e compreendemos as motivações das personagens de forma mais intensa, mais íntima, mais profunda. A adaptação cinematográfica de “Chocolate” (Lasse Hallström, 2000) também é bastante boa, embora a narrativa seja obrigatoriamente mais superficial e mais curta. Contudo, não deixa de ser interessante vermos as personagens e os locais tomar uma forma física concreta. Em suma, penso que a história, só por si, não é surpreendente, mas a forma como está escrita, narrada e estruturada compensa a leitura.

Ficha técnica

Ano de edição ou reimpressão: 2000
Editor: Edições Asa
Dimensões: 15,4 x 23,3 x 2 cm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 264
Classificação: Romance

Sugestões

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