O Muro, de Jean-Paul Sartre

Depois de vos falar brevemente de Jean-Paul Sartre, entrei na sua sua linguagem de forma mais intensa com A Engrenagem e O Muro, sendo este último que quero partilhar convosco. O Muro é uma colecção de narrativas responsável pela atribuição do Nobel da Literatura a Jean-Paul Sartre, em 1964. Tendo como fundo omnipresente e ditador do ambiente das histórias o existencialismo, a consciência do Eu e do mundo em redor, Sartre narra breves histórias sobre personagens que lutam por se encontrar e por enfrentar o seu destino.

Desta colecção, quero destacar a narrativa com o mesmo nome: O Muro. Tendo como cenário uma cela escura e húmida numa noite gelada, o autor conta-nos a história de três homens feitos prisioneiros que aguardam o seu fuzilamento na manhã seguinte. Contada pela primeira pessoa, esta narrativa reflecte o pânico do protagonista, Pablo Ibietta, face ao destino ditado pelos seus inimigos o que, só por si, acaba por resultar num capítulo pesado, negro, macabro, pleno de emoções realmente humanas.

As descrições são emotivas, as passagens longas, as reflexões dolorosas. A forma como nos apercebemos do terror vivido pelo protagonista à medida que o tempo passa, qual conta-gotas, torna esta leitura num momento escabroso. Suspende-se a respiração, acelera o ritmo cardíaco, compreende-se o pânico que corre nas veias deste homem que conta os minutos para a sua morte dolorosa enquanto reflecte sobre o que fez durante a sua vida e sobre aquela noite que passa tão devagar e, ao mesmo tempo, tão depressa.

É de referir e reforçar que as suas descrições são fabulosas. Em poucas palavras descreve aquilo que nem uma imagem consegue conter. Aquele de que mais gostei é a de quando Pablo recorda a sua amada e decide que não a quer ver, visto que ela não poderá nunca sentir o que ele sente naquela noite terrífica e que o seu olhar nunca chegará ao dele, fazendo-o sentir mais só e afastado de alguém do que alguma vez na sua vida.

Para quem gosta de filosofia, existencialismo, de reflexão e de literatura de qualidade, aconselho vivamente.

O homem começa por existir, isto é, o homem é de início o que se lança para um futuro e o que é consciente de se projectar no futuro. O homem é primeiro um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser musgo, podridão ou couve-flor; nada existe previamente a esse projecto; nada existe no céu ininteligível, e o homem será em primeiro lugar o que tiver projectado ser. Não o que tiver querido ser. Porque o que nós entendemos ordinariamente por querer é uma decisão consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto é manifestação de uma escolha mais original mais espontânea do que se denomina por vontade.  Jean-Paul Sartre, in ‘O Existencialismo é um Humanismo’