Nobel da literatura 2009

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Amalie está parada à entrada do quarto. Os estilhaços têm manchas vermelhas. O sangue de Windisch é mais vermelho do que o vestido de Amalie.
Um último sopro de ‘primavera irlandesa’ paira nas barrigas das pernas de Amalie. O chupão no pescoço de Amalie é mais vermelho do que o vestido. Amalie descalça as sandálias brancas. “Venham comer”, diz a mulher de Windisch.
A sopa fumega. Amalie está sentada no nevoeiro. Segura a colher com as pontas dos dedos vermelhas. Olha para a sopa. O vapor move os lábios. Ela sopra. A mulher de Windisch senta-se com um suspiro no meio da nuvem cinzenta diante do talher.
Pela janela ouve-se o rumorejar das folhas das árvores. “Lá voam elas para o pátio”, pensa Windisch. “Folhas que davam para dez árvores voam pelo pátio.”
Windisch passa distraidamente os olhos pela concha do ouvido de Amalie. Ela faz parte do seu campo de visão. É avermelhada e dobrada como uma pálpebra.
Windisch engole uma massa branca e mole. Fica-lhe presa na garganta. Windisch poisa a colher em cima da mesa e tosse. Os olhos enchem-se de água.
Windisch vomita a sopa na sopa. Tem a boca azeda. Ela avança-lhe pela testa. A sopa dentro do prato fica turva com a sopa vomitada.
Na sopa que tem no prato Windisch vê um pátio longínquo. No pátio, uma noite de verão.

O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra, de Herta Müller.