Caim, de José Saramago (II)

O tema do novo livro de José Saramago não é inédito na sua obra e até lhe valeu o empurrão para o exílio em Lanzarote mas, desta vez, “deus” surge cru e sem a beleza narrativa de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Nunca o Prémio Nobel da Literatura foi tão a fundo em tão pouca narrativa e nem surpreendera os seus leitores com passagens em que domina um erotismo com uma componente inédita na sua obra

Após a surpresa que a ironia e o humor de A Viagem do Elefante provocaram nos leitores de José Saramago, surge o tempo para a estupefacção perante a sua continuada irreverência religiosa e um sorriso – que pode ser amargo ou trocista – para com a revisão bíblica proposta pelo Nobel em Caim. Livro de uma só palavra no título, José Saramago faz neste breve romance (181 p.) a reconversão de algumas das parábolas que têm estruturado a religião católica e devolve-as aos crentes da Terra como um cometa esponjoso e desinflamado.

Com Caim, o autor continua um novo ciclo de escrita iniciado com a obra anterior e no qual, despretensiosamente, conta uma história distante daqueles monumentos que ergueu ao criar Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira e A Caverna. Não o faz para exercitar a pena, nem abandona o “truque” de partir de uma importante premissa a dominar a narrativa, como lhe foi sempre habitual. A deste livro que, contrariamente à genial quebra de laços com a Europa que abria e – disse-o o escritor – esvaziava um pouco A Jangada de Pedra, o remate literário rivaliza com a tese da reinterpretação da personagem irmão de Abel que percorre o texto.

Não se vai aqui desvendar o final surpreendente mas pode dizer–se que advém de Noé e da sua Arca, uma passagem da Bíblia que permite a José Saramago fechar a sua viagem por aqueles tempos com o apego que tem à ficção científica, facto patenteado em muitas das suas crónicas das décadas dos anos 60 e 70. Quando se refere este conceito de viagem no tempo não é uma metáfora para falar de Caim, mas a forma que Saramago encontrou para reunir nesta pilha de páginas alguns dos mitos que pretende explicar ao seu modo. Já se o esperava após as primeiras palavras que anunciavam este “dilúvio” que hoje começa a “chover” em vários países – América Latina e Espanha – e que em Portugal contabiliza 50 mil exemplares à primeira edição depois de ter sido apresentado ao mundo na Feira do Livro de Frankfurt, na semana passada.

Este dilúvio reformista que Caim sugere veio acompanhado de declarações contra o próprio Papa, nas quais o escritor já amaldiçoado pela hierarquia católica desde que O Evangelho Segundo Jesus Cristo viu a luz do dia, proclamou em Roma aquando do lançamento da tradução proibida por Silvio Berlusconi de O Caderno. O português definira Bento XVI como “cínico” e referira que a “insolência reaccionária” da Igreja necessitava ser combatida com a “insolência da inteligência viva”. O cinismo advinha de Ratzinger ter “a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o absoluto cinismo intelectual”, enquanto a insolência reaccionária resulta de não ser permitido que “a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só têm interesse no poder”.

Caim trata essas razões de queixa de José Saramago em relação à Igreja através de bastantes exemplos. Utiliza o protagonista – “deus” aparece como uma das personagens – que matou o seu irmão numa deambulação pela Terra dos tempos iniciais a partir de Adão e Eva e prossegue até Noé atracar no monte Ararat.

Pelo meio, recorrendo ao já referido artifício de viagens no tempo, Caim vai palmilhando paisagens inóspitas – como as de Lanzarote – e verdejantes – como as da sua Azinhaga de infância -, assistindo a “factos históricos” que preenchem as recordações dos católicos quanto aos seus antepassados. Caim assiste ao desregulado confronto linguístico de Babel, assombra-se com a destruição de Sodoma e Gomorra, evita a punhalada de Abraão no filho porque o anjo chega atrasado, testemunha as desgraças que afligem o crente Job, pasma-se com a queda de Jericó e observa as disputas entre “deus” e satã. É, aliás, esta última temática a única que faz lembrar o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo durante toda a leitura de Caim.

Uma faceta inesperada do escritor José Saramago, que surpreenderá o leitor habituado ao insosso erotismo na literatura de língua portuguesa, encontra-se a partir da página 52. Não é a primeira vez que coloca pouca distância entre o corpo das personagens e que descreve paixões e a sua consumação mas, desta vez, a narrativa acaba por oferecer ao leitor algumas das mais bem descritas insinuações eróticas e actividades sexuais em português. No capítulo em que Caim e Lilith se encontram, há um desvendar da sexualidade do protagonista através de uma primeira esfrega que o liberta do pó da estrada realizada por duas escravas e de uma segunda esfrega de amor físico que parece antecipar o guião para todos os casais do futuro.

Este erotismo literário não se fica por aqui e, após Lilith – que marca a presença da mulher forte neste livro -, outras mulheres e “comércio carnal” reaparecerão, umas vezes sob o trato normal e noutras sob a necessidade de uma procriação encomendada e não assexuada que satisfaz mulheres para além de uma idade pouco habitual. Não faltam ainda neste capítulo os desmandos homossexuais em Sodoma que quase vitimam dois anjos!

Caim não fugiu ao habitual secretismo com que José Saramago protege os seus livros. Dele só se sabia que o título seria feito de uma palavra apenas e nunca o autor se descoseu sobre o assunto que abordaria. Comentou apenas que se A Viagem do Elefante era um livro optimista, este seria pessimista. A primeira revelação surgiu no blogue do escritor (www.josesaramago.org) feita por Pilar del Río ao anunciar: “Saramago escreveu outro livro.” Logo aí explicava: “Não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra.” E, acrescentava, que Caim é um livro “para pessoas que usam a razão na altura de abordar a vida” e que “a grande literatura é sempre provocatória”. Por isso, garantia: “Haverá pessoas que se poderão dar por ofendidas”, mas também explicava que tinha sido escrito em apenas quatro meses porque o autor tinha “urgência em dizê-lo”.

Será impossível ignorar a polémica provocada por O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas o Nobel, segundo declarações que fez à EFE, não teme que o voltem a crucificar: “Alguns talvez o façam mas o espectáculo será menos interessante.” Considera que “O Deus dos cristãos não é esse Jeová”, que “Os católicos não lêem o Antigo Tes- tamento” e se “Os judeus reagirem, não me surpreenderei. Já estou habituado”.

Para José Saramago, segundo referiu ao Estado de S. Paulo, “Caim é um livro escrito contra toda e qualquer religião. Ao longo da história, todas as religiões, sem excepção, fizeram à humanidade mais mal que bem. Todos o sabemos, mas não extraímos daí a conclusão óbvia: acabar com elas. Não será possível, mas ao menos tentê–mo-lo.” Sugere que tal se verifique pela análise e crítica implacável porque “A liberdade do ser humano assim o exige.” E não evita deixar bem esclarecido que “o cérebro humano é um grande criador de absurdos e Deus é o maior deles”.

O lançamento de Caim decorreu ontem à noite em Penafiel, cidade onde José Saramago foi o homenageado da 2.ª edição do festival literário Escritaria. Terá no dia 30 o lançamento oficial na Culturgest, em Lisboa, que contará com a apresentação do pensador Eduardo Lourenço.

In Diário de Notícias a 19 de Outubro de 2009.