A Estrada, de Cormac McCarthy

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A estrada encontrava-se deserta. Mais abaixo, no pequeno vale, a linha sinuosa de um rio, estagnado e cinzento. Imóvel e de contornos bem precisos. Ao longo da margem, uma amálgama de juncos mortos. Está tudo bem contigo?, perguntou. O rapaz fez que sim com a cabeça. E então puseram-se os dois a caminhar no asfalto sob a luz metálica, cinzento-azulada, a arrastar os pés na cinza, e cada qual era o mundo inteiro do outro.

Apreciação

Não se pode dizer que esteve é um livro fácil de ler. Tratando-se da história da viagem de um pai e do seu filho num cenário pós-apocalíptico, “A Estrada” é um livro que exige um estado de espírito muito próprio para se conseguir ler de uma só vez. O pai e o seu filho, personagens sem nome próprio num livro sem capítulos, lutam diariamente pela sobrevivência num mundo onde tudo é morte: procuram desesperadamente por comida, lutam incessantemente contra o clima, enfrentam os seus medos mais terríveis face a grupos de pessoas que, por desespero, recorrem ao canibalismo. Durante muitos anos – nem as personagens sabem quantos, o objectivo do pai é seguir a estrada para sul, sonhando que a sua salvação se encontre no final da viagem.

Cormac McCarthy apresenta-nos a uma América destruída por qualquer motivo indecifrável, mas a qual começamos a conhecer de forma muito real. A narrativa é assombrosa, escura, fria, quase poética, e as descrições dos cenários e da devastação total da humanidade tocam-nos dolorosamente, sendo a aproximação do amor entre o pai e o filho a única forma de os leitores sentirem alguma esperança neste cenário de morte. Aliás, mesmo os flashbacks em que conhecemos memórias de um mundo feliz, normal e com luz do sol, não são capazes de nos aliviar este peso com que o autor nos carrega porque, tal como o pai se apercebe a dado momento, ao reviver essas recordações, está novamente a encarar a perda e a iludir o filho com histórias de encantar.

“A Estrada” é um livro para se ler e pensar; é demasiado cru para que se possa fazer uma análise objectiva. Deve ser sentido. Aliás, penso que não há outra forma de o ler.

No final de Novembro, não percam ainda a adaptação cinematográfica de John Hillcoat, cujo trailer podem ver aqui.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 192
Editor: Relógio D` Água
ISBN: 9789727089345