Crise económica diminui lançamentos literários

2009 não foi tão crítico como se esperava para as editoras nacionais, mas a crise económica que vai pairar por 2010 não permitirá que a edição recupere a vitalidade que tem estado a viver nesta primeira década. Prevê-se a continuação da concentração de editoras em grandes grupos e Paulo Teixeira Pinto demonstra-o já no dia 6 de Fevereiro com a apresentação pública da Babel. A Bertelsmann será a próxima, após ter posto à venda a Bertrand, com várias editoras e 50 livrarias

A crise financeira e o mau estado da economia mundial não afectaram assim tanto o mercado editorial português no ano que acabou. Dezenas de títulos postos no mercado a cada dia de 2009 somaram mais de 12 mil livros diferentes publicados num ano de muitas fusões, falências e desemprego. A compra e venda de editoras deu continuação ao processo de concentração que se verifica em Portugal desde que o Grupo Leya alterou a pacatez do negócio dos livros e o ano que agora começa irá, provavelmente, definir o perfil editorial no País.

Aliás, a expansão da Leya para o mercado lusófono vai continuar, bem como a reorganização de chancelas e aposta em autores nacionais; está em aberto a aquisição de pequenas/médias editoras pelas de maior porte, como foi o caso da Sextante pela Porto Editora; Paulo Teixeira Pinto vai iniciar uma nova plataforma editorial com a aquisição da Verbo e da Ulisseia – não rejeita a compra de mais editoras, nem a associação com outras em moldes diferentes – e a criação de uma empresa distribuidora, e a Bertelsmann pôs à venda a Bertrand – a editora e mais de 50 livrarias em todo o País -, a Temas & Debates, a Quetzal e o Círculo de Leitores.

Segundo o editor Manuel Valente, da Porto editora, a tendência para este ano será “evitar entrar em altas cavalarias” e “tentar perceber o que se alterou no mercado em 2009 de modo a manter 2010 no mesmo nível”. Segundo o editor do maior grupo editorial português, o “mercado do livro não sofreu mais porque é um produto que não é tão afectado pela crise como os outros” e que se destina a uma classe média que manteve os seus hábitos de leitura e de consumo como em anos anteriores. Mas, alerta Manuel Valente, o ano de 2010 será de “crise controlada e marcado por ela” e essa situação reflectir-se-á nas tiragens das edições deste ano, como já se verificou no anterior.

A crise fez com que acontecesse uma distorção do mercado livreiro em 2009 ao extremar-se o número de livros impressos por título. Os bestsellers aumentaram muito a tiragem, enquanto os outros títulos baixaram de uma impressão média de 3000 para 2000 e, na maioria dos casos, para 1500 ou até 1000.

O combate à crise editorial irá até conhecer uma novidade tecnológica, para além da vulgarização do e–book. Zita Seabra, da Alêtheia, vai anunciar esta semana a criação de uma empresa de apoio à edição “com um novo conceito de produção/impressão digital”. Com esta tecnologia, qualquer editor ou autor pode imprimir os exemplares que desejar, sem necessitar de conceber, rever ou paginar os livros.

Apesar da crise, as editoras portuguesas já têm a sua programação literária definida. É diversa e segue os rumos das modas internacionais – no caso das traduções – e dos gostos dos portugueses – no que respeita à produção nacional – nas dezenas de títulos que vão chegar às livrarias já esta semana e nas seguintes . A Gradiva abre a saga das comemorações do centenário da República com 5 de Outubro de Ernesto Rodrigues e vai editar, em simultâneo com o original, o novo Ian McEwan, Solar. A Quetzal aposta no novo romance de José Luís Peixoto, Livro, e em Lourenço Mutarelli, A Arte de Produzir Efeito sem Causa, 3.º lugar no Prémio PT. A Porto Editora continua a publicar Ricardo Menéndez Sal- món, agora com Derrocada. A Presença revela o novo Aravind Adiga, Entre os Assassinatos, e o esperado O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk. A Dom Quixote lança O Mundo Alucinante, de Reinaldo Arenas, e anuncia-se o novo romance de Lídia Jorge. A Esfera dos Livros edita Maníacos de Qualidade, um livro de história de Joana Amaral Dias, e o próximo romance de Isabel Stilwell. A Guerra&Paz publica Fama e Segredo na História de Portugal, de Agustina Bessa-Luís. A Caminho tem Caderno II de José Saramago e os novos de Alice Vieira, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada.

In Diário de Notícias a 11 de Janeiro de 2009.