Trainspotting, de Irvine Welsh

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«Trainspotting» fala-nos de um grupo de jovens da Edimburgo dos anos noventa, tão desesperadamente realistas que para eles o futuro é inconcebível. Ao contrário dos que procuram o dinheiro ou o êxito, eles frequentam o lado obscuro da vida, buscam as sensações intensas e o prazer imediato na heroína, no sexo e no “rock-and-roll”. Irvine Welsh conseguiu fazer literatura da áspera linguagem dos seus personagens, semelhante à que podemos encontrar em ruas de qualquer cidade europeia. «Trainspotting» tornou-se um dos acontecimentos culturais da última década na Grã-Bretanha, foi adaptado ao teatro e depois ao cinema por Danny Boyle. «Merece vender mais exemplares que a Bíblia», afirmou em jeito provocador a revista Rebel Inc. «O Celine escocês dos noventa», entusiasmou-se o ‘The Guardian’. Nascido em 1958 em Leith, Irvine Welsh frequentou a escola nos arredores de Edimburgo, deixando-a aos 16 anos para ser reparador de televisores, punk, drogado e músico falhado, antes de voltar a estudar na Universidade de Herriot-Watt e se tornar romancista. Em entrevista recente definiu assim as suas influências: «Não tenho heróis literários. Não vou buscar as minhas referências aos outros escritores, mas às letras das canções, aos vídeos e sitcoms… cheguei a Burroughs via Lou Reed ou Iggy Pop; a Brendan Behan e Dermot Bolger através das palavras de Shane McGowan dos Pogues.»

Apreciação

Penso que vi o filme “Trainspotting” antes do livro que, de alguma forma, acabou por me ir parar às mãos há muitos anos. Considerando que há sempre muito a dizer sobre a adaptação de um livro para cinema e tendo em conta que a obra literária é sempre melhor que a cinematográfica, gostaria, antes de mais, de dizer que o livro é muito gráfico ou, melhor dizendo, muito visual. Não será apenas a forma crua como Irvine Welsh narra as cenas de droga e de sexo, mas pela grande capacidade de nos ajudar a criar imagens mentais à medida que lemos as descrições, algumas delas quase oníricas, de alguns dos momentos e pensamentos das personagens.

Neste aspecto, não tenho dúvidas que Trainspotting é um livro que merece ser lido pela sua riqueza gramatical e linguística, sobretudo por se tratar de uma obra britânica, caracterizando-a com a profundidade de escrita e de emoções que descreve as obras europeias. A crueza e a aspereza nas palavras equilibra na perfeição com o dia-a-dia de “sex, drugs and rock & roll” das personagens que vivem com base num realismo criado de acordo com aquilo que acreditam, resultando numa busca incessante de sensações extremas que colocam em causa a sua forma de vida, encarando cada momento com indiferença na cidade de Edimburgo.

Esta dose de realidade adolescente com uma pitada de distorção acaba por se tornar viciante ao fim de algumas páginas, sobretudo quando o leitor se depara com passagens com as que relatam ressacas de droga (a da casa de banho, por mais degradante que seja, trata-se de umas das referências deste livro), bem como as cenas de violência que envolvem Begbie, um dos mais doentios membros deste grupo de amigos. A não perder!

Ficha técnica

ISBN: 9727083218
Número de Páginas: 370
Idioma: português
Encadernação: capa mole
Data da primeira Edição: 1998