O carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta

Mario Jiménez, jovem pescador, decide abandonar o seu ofício para se converter em carteiro da Ilha Negra, onde a única pessoa que recebe e envia correspondência é o poeta Pablo Neruda. Mario admira Neruda e espera pacientemente que algum dia o poeta lhe dedique um livro ou aconteça mais do que uma brevíssima troca de palavras ou o gesto ritual da gorjeta. O seu desejo ver-se-á finalmente realizado e entre os dois vai estabelecer-se uma relação muito peculiar. No entanto, a conturbada atmosfera que se vive no Chile daquela época precipitará um dramático desenlace… Através de uma história tão original como sedutora, Antonio Skármeta consegue traçar um intenso retrato da convulsa década de setenta no país andino, assim como uma recriação poética da vida de Pablo Neruda.

Apreciação

Tinha expectativas muito elevadas com “O carteiro de Pablo Neruda” de António Skármeta, por ter sabido ser uma obra comovente e tocante. Na verdade, mas não tirando o devido mérito, fiquei um pouco decepcionada com a história, embora tenha uma escrita incrivelmente envolvente e rica em imagens e emoções e sons e cheiros.

Começamos por conhecer Mario Jiménez, um rapaz modesto que age de forma simples, que se relaciona de forma simples, que vive de forma simples. O seu relacionamento com Pablo Neruda, fruto da nova responsabilidade do rapaz enquanto carteiro na Ilha Negra, no Chile, começa por ser superficial, tornando-se rapidamente numa amizade forte, ingénua e deliciosa. Este relacionamento é estreitado vagarosamente ao longo da narrativa, ao mesmo tempo que a escrita se torna cada vez mais rica, poética, quase musical, tão idílica quanto a amizade destas duas personagens. Conhecemos Mario, o rapaz descomprometido; depois conhecemos Mario, o rapaz que mergulha no mundo literário de Neruda; conhecemo-lo ainda como Mario, o rapaz apaixonado que perde as palavras quando contempla Beatriz; e depois conhecemos Mario, o rapaz casado com Beatriz e com a poesia.

“O carteiro de Pablo Neruda” ele é, todo ele, um livro pequenino: a história é curta, as pessoas simples, a ilha diminuta, a política uma fonte de eventos completos, embora sem contextualização na realidade do Chile. É um romance que deve ser lido devagarinho, apreciado, saboreado, de forma a interiorizar todas as metáforas de Skármeta e toda a poesia enchente de Mario e de Pablo. É riquíssimo em termos de semântica, algo que muito aprecio, motivo pelo qual fiquei um pouco desiludida com o conteúdo e com a sua demasiada simplicidade.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 172
Editor: Editorial Teorema
ISBN: 9789726958901