No seu diário de menina, com as suas próprias palavras, inscrevem-se dia a dia os reflexos da vida que a cerca. De repente, a guerra rebenta às portas de sua casa. os temas mais vulgares cedem então lugar ao medo, à cólera e à incompreensão. O universo de Zlata cai em pedaços. Os bombardeamentos e os atiradores solitários semeiam a morte; falta a água, a electricidade, os alimentos… Zlata chora a sua infância destruída, mas continua a escrever e a testemunhar. Hoje, quando os conflitos trágicos da ex-Jugoslávia se enredam em negociações sem fim, a voz desta jovem de Sarajevo ajuda-nos a compreender melhor os sofrimentos e o desespero de um povo inteiro.

Apreciação

Li este livro no início da adolescência e lembro-me do choque que senti ao me deparar com as palavras de Zlata, uma criança de 11 anos que inicia o seu diário pouco antes de a guerra chegar a Dubrovnik e a Sarajevo. Inicialmente, conhecemos a sua rotina e a sua vida familiar, sendo bastante fácil apercebemo-nos da felicidade de uma menina tão simples e despretensiosa. Porém, quando as bombas chegam à sua terra natal, é impressionante ouvir um relato na primeira pessoa por parte de uma pessoa que ainda não compreende o mundo, a política e motivos bélicos.

Proibida de ir à escola, com dificuldade de acesso a água e a comida e confinada ao seu apartamento junto da família, é-lhe exigida uma maturidade e uma responsabilidade desmedidas para que saiba e consiga lidar com esta situação que se prolonga no tempo. À medida que assiste ao horror do lado de fora da sua janela, ao enfraquecimento físico dos pais e à morte de pessoas conhecidas, Zlata começa a ver o mundo com outros olhos e a interrogar os motivos de tamanha catástrofe. “A guerra não tem nada de humano”, afirma vezes em conta para tentar compreender e a tentar racionalizar a situação como se, assim, fosse possível criar Paz.

Um pouco à semelhança de “O diário” de Anne Frank, é-nos dada a conhecer um mundo belicoso, horrorizado e sem esperança, o que se torna ainda mais chocante aos olhos do leitor por estar a sentir as história contada por uma criança. O livro tem muitas fotografias que retratam a vida de Zlata antes e durante a guerra, o que contribui para que este livro seja tido em conta, de facto, como um testemunho e não apenas como uma narrativa contada na primeira pessoa. A não perder.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2002
Páginas: 160
Editor: Edições Asa
ISBN: 9789724129433
Colecção: Documentos