Escrever

Ao longo dos anos, tenho aperfeiçoado a minha escrita para ser um canal aberto para libertar ideias, histórias e emoções. Ao fim e ao cabo, escrever é isso mesmo. No curso de escrita, um dos momentos de que mais gostei foi a libertação: criámos personagens, demos-lhes nomes, idades e características físicas; dotámo-las de emoções e sentimentos e conferimos-lhes uma história de vida. Mais que estudar a forma como iriam interagir na história e quais os seus destinos, aquilo que mais me fascinou foram as possibilidades infinitas. As personagens estão abertas, vazias, sem fado nem passado e nós, de repente, não só lhes damos vida como podemos seleccionar um de entre milhões de caminhos: porque está uma pessoa sentada no café? Está à espera de alguém? De quem e porquê? Ou estará a descansar os pés? Ou sentiu-se mal e precisou de se sentar? Será que almoçou ou lanchou? E quais os seus hábitos à mesa? Está só ou acompanhado, chegou agora ou está prestes a sair?

É a libertação total da imaginação.

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego.