A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

Alice é obrigada pelo pai a frequentar um curso de esqui para ser forte e competitiva, mas um acidente terrível deixará marcas no seu corpo para sempre. Mattia é um menino muito inteligente cuja irmã gémea é deficiente. Quando são convidados para uma festa de anos, ele deixa-a sozinha num banco de jardim e nunca mais torna a vê-la. Estes dois episódios irreversíveis marcarão a vida de ambos para sempre. Quando estes “números primos” se encontram são como gémeos, que partilham uma dor muda que mais ninguém pode compreender. Ganhou o prémio Stregga e a menção honrosa do Campiello, os dois prémios literários mais importantes de Itália, e está a ser traduzido em mais de 20 países.

Apreciação

Aqui está um livro a não perder. “A solidão dos números primos” é seco, breve, sóbrio. Não se perde em descrições, não invade as personagens, não cai em clichés. É rápido e cinje-se ao estrictamente necessário para que o leitor mergulhe de cabeça numa relação crua e melancólica com as personagens principais. Paolo Giordano escreveu uma obra-prima.

O autor fala-nos de Alice e de Mattia, duas crianças que passam por situações impensáveis e inolvidáveis que os marcarão durante toda a sua vida. Sem afloreamentos, em poucas páginas Giordano descreve-nos estes acontecimentos nos quais facilmente acreditamos; são cheios de realismo, como se olhássemos a partir de uma lente de uma máquina fotográfica: sem filtro, sem intervenção e sem solução, começando pela sinopse, que é deprimente. O título promete-nos uma leitura com poucas aventuras mas com muitas emoções, como se se tratasse de um “lado B”. Por momentos, dei por mim a imaginar como seria o livro depois dos primeiros capítulos. Depressa me apercebi que “A solidão dos números primos” seria uma montanha russa.

Mattia é só, incompreendido, ciente das consequências dos seus actos. Agarra-se à matemática, uma ciência exacta que não dá margem para erros, fugindo das relações sociais e emocionais como fonte de emoções demasiado fortes que não tem capacidade para assimilar. Alice é uma areia apanhada num remoinho, sem forma de fugir à realidade e permanentemente presa a acontecimentos e pessoas que a afundam cada vez mais nos seus dias. Eles são como dois números primos gémeos: solitários e muito próximos um do outro, mas com a eterna impossibilidade de estarem juntos. Acompanhamos o momento em que se conhecem e quando se tornam amigos; seguimos o seu percurso até à idade adulta com a esperança de que se conseguirão envolver; sentimos que estão sempre em sintonia até não conseguirem lidar com as cicatrizes que têm.

O ritmo do livro não é rápido nem lento. Tem o ritmo que o leitor determinar. Com a intensidade que se permitir a si próprio sentir. Parece-me que a excepção a esta partilha com o leitor é o final do livro, altura em que dei por mim a saltar parágrafos para saber como terminaria, com a pressa de perceber como Alice e Mattia fechariam os seus capítulos.

Leiam. É fabuloso.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 272
Editor: Bertrand Editora
ISBN: 9789722518345
Colecção: Grandes Romances