Entrevista a Romana Petri

Zangada com a chuva, com a má educação dos taxistas, com a falta de solidariedade das pessoas em geral, Romana Petri sentou-se num dos raros locais abrigados da Feira do Livro de Lisboa. Tirou a boina e o cachecol e começou a falar. Dos dias em que “escrever era apenas uma urgência sem nenhum futuro visível”, dos primeiros livros publicados já depois dos 30 anos, do encontro com as ilhas dos Açores, do Fabuloso Destino de Dagoberto Babilónio, o seu último livro. O agastamento já dera lugar ao sorriso franco, gestos amplos, expressivos, e o contentor cinzento que a abrigava da chuva e do vento ganhava as cores impressivas e enchia-se com as imagens fortes das histórias que conta.

Quem é Romana Petri?

Sou uma escritora que durante anos praticou pugilismo, que gosta dos combates por tudo o que estes evocam de arcaico, de mítico. Considero que os combates, as guerras têm uma acção transformadora dos homens e das sociedades. Formei-me como escritora a ler muitos livros, especialmente romances de cavalaria, como Chanson de Roland ou Dom Quixote, figura que homenageio com a personagem de Dagoberto Babilónio, que é uma espécie de vagabundo que deambula entre a Améri-ca do Sul, Portugal, Espanha e Itália, fugindo da loucura e em busca de histórias.

Onde encontrou este Dagoberto Babilónio?

Encontrei primeiro o nome, nu-ma notícia breve num jornal que dava conta da sua morte. Fiquei fascinada pelo nome. Depois imaginei este homem com um rosto idêntico ao de Peter O’Toole quando jovem. Já tinha a história na cabeça, mas como o livro tem um pano de fundo histórico que é a Guerra Civil de Espanha isso exigiu-me muito tempo de pesquisa. Demorei anos a completá-lo.

Onde encontra, normalmente, as ideias para escrever?

Nas minhas fantasias, nas pessoas que encontro e nas fantasias que construo depois em torno delas. Gosto muito das vidas dos outros. Este é o meu livro mais autobiográfico porque aqui abro escandalosamente a minha poética de vida, a minha forma de viver e olhar o mundo.

Nesta obra recria a figura de Dom Quixote, de Cervantes. O que a fascina neste personagem?

Dom Quixote é o livro mais belo alguma vez escrito. O cavaleiro da triste figura é um herói trágico e comovente. Tal como Dagoberto. A diferença é que o meu personagem enlouquece porque não saber ler e torna-se sábio quando começa a ler. Ele é um homem que se sabe surpreender, por isso pode tornar-se sábio. Quem não se sabe surpreender terá sempre uma existência muito pobre.

Há, nos seus livros, temas recorrentes, como a guerra, a viagem, a fidelidade amorosa. Porquê?

Há uma ideia fundamental na minha escrita que é a ideia de que nós mudamos, que nós somos o tempo. Eu gosto muito de um filósofo que é o Heidegger e sou influenciada pela sua ideia de tempo. A guerra tem que ver com os ciclos de renascimento e morte. Os homens matam-se uns aos outros. Somos violentos. A guerra e a violência marcam toda a condição humana. Não sou uma escritora politicamente correcta.Interessam-me as experiências extremas. Quem, ao ler a Odisseia , de Homero, não goza com o instante em que Ulisses mata os pretendentes de Pené-lope. Aquilo é uma carnificina, mas nós temos um imenso prazer em ler e em imaginar porque somos seres violentos, vingativos.

Mas há também o amor…

Sim, há o amor como a busca da perfeição. Dagoberto abandona a amada para não destruir esse amor. A grande ideia desta história é esta. Gosto dos romances de cavalaria, da ideia de um ho-mem que esculpe o rosto da amada num bago de arroz. Que as guerras se travam pela honra, por valores, por amor. Mas neste livro eu falo também da amizadade entre os homens. Uma amizade mais forte, duradoura, fiel que aquela que há entre as mulheres.

O Fabuloso Destino de Dago-berto Babilónio é um livro em que se aproxima do realismo mágico e não se procuram explicações racionais para os acontecimentos…

Neste livro sim, noutros que escrevi há mais realismo. Mas nesta história conta-se uma viagem interior. Uma viagem lendária. Que pode nunca ter, de facto, acontecido. Eu queria explorar aqui a ideia do sonho. Mas a realidade é o quê? É o que cada um vê e que cada um vive, dependendo da sua alma.

Publicado no Diário Notícias online a 12 Maio 2010. Entrevista feita por Joana Emídio Marques.