Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton

Johnny Depp é o Chapeleiro Louco e Mia Wasikowska a Alice de 19 anos de idade, que regressa ao excêntrico mundo que encontrou pela primeira vez quando era criança reunindo-se assim com os seus amigos de infância: o Coelho Branco, Tweedledee e Tweedledum, a Ratazana, a Lagarta, o Gato Cheshire, e claro, o Chapeleiro Louco. Alice embarca numa fantástica viagem para encontrar o seu verdadeiro destino e acabar com o reino de terror da Rainha Vermelha.

Apreciação

“Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton dificilmente é considerado uma adaptação cinematográfica da obra de Lewis Caroll. Não é um adaptação, mas uma continuação. Porque é a melhor versão do livro que, até ao momento, passou pelo cinema em termos de efeitos visuais, optei por tomar algumas notas sobre este filme e sobre a recriação de cenários e de personagens de Caroll para o grande ecrã.

A passagem de uma obra literária para uma peça cinematográfica não é fácil. De todo. São milhares os leitores que se desapontam quando vêem as adaptações cinematográficas dos seus livros preferidos mas, mesmo assim, não deixam de experimentar. A magia destas transições é o facto de vermos na tela aquilo que imaginámos: queremos conhecer as personagens, observar os cenários, confirmar localizações, sentir as cores, os cheiros e as temperaturas. Na verdade, queremos que as imagens mentais que criámos se materializem à nossa frente.

Tim Burton conseguiu essa proeza com este filme. De acordo com o que imaginei quando li a obra bizarra de Lewis Caroll (que, segundo se diz, foi escrita sob os efeitos de ópio) e com o mundo criado pela Walt Disney na longa metragem de 1951, este filme deixou-me satisfeita e ajudou-me a fechar algumas interrogações. No “Alice no País das Maravilhas” de Burton, o espectador reconhece imediatamente a história original quando Alice (adulta) cai pelo buraco e aterra numa sala com várias portas, onde experimenta bebidas e bolos para adaptar o tamanho do seu corpo às necessidades do momento. Aqui, o espectador interroga-se sobre o facto de Alice estar a cair ou não pela primeira vez no buraco, visto que tudo é uma reprodução do que Alice passou em criança. Depressa, percebemos que Alice é procurada pelos amigos que fez no País das Maravilhas para ajudar a destituir a malvada rainha vermelha, que criou um regime autoritário e que evaporou a felicidade naquele que fora outrora uma terra viva, plena de cores, de non-sense e de sorrisos.

Na sua missão, Alice reencontra todos os amigos que conhecera há mais de uma década. Quando a rapariga se depara com a Lagarta no início do seu percurso, é impossível os espectadores adultos não sentirem uma leve pontada de nostalgia com o absurdo das conversas. Para perguntas concretas, mantêm-se as respostas vagas e descabidas, embora com ligeiras dicas acerca do papel que Alice deve e vai desempenhar no destino que lhe está traçado. O contacto com o Gato de Cheshire mantém-se inalterado. Esta personagem mantém-se inalterada, com o seu sorriso rasgado, o hábito irritante de desaparecer e reaparecer nos locais mais inusitados mas, como sempre, com uma amizade profunda e com um grande papel a desempenhar, crucial para o desenrolar da história. Quando entramos no cenário do Chá dos Loucos, um dos meus preferidos, a imagem mental que tínhamos do livro de Caroll materializa-se instantaneamente. A mesa desarrumada, as chávenas partidas e o som do chá a verter para a mesa continuam iguais ao que sempre foram. Aliás, o facto de as três personagens desta passagem estarem ensandecidas e perpetuadas a tomar chá só poderá permitir que apenas o cenário se degrade, nada mais. É sempre um prazer rever o Chapeleiro Louco, sobretudo quando interpretado por um actor de tão alto calibre como Johnny Depp. Os diálogos surrealistas mantêm-se mas, desta vez, o Chapeleiro consegue libertar-se do seu ciclo enigmático e surrealista para acompanhar Alice na mais importante missão que o País das Maravilhas já viu. Chegando ao palácio da rainha vermelha, ou rainha de copas, gostei sobretudo do jogo de críquete com flamingos e ouriços, algo de que não me lembrava. A rainha, interpretada pela fabulosa Helena Bonham Carter, permanece furiosa, grandiosa e graciosa, impondo medo e respeito em seu redor e optando por uma postura arrogante e intocável a ter de sofrer por amor. No decorrer do filme, deparamo-nos com outras personagens da obra original, mas com papéis não tão determinantes para o cumprimento do objectivo da rapariga inglesa. Mesmo assim, todas elas são notáveis.

Os efeitos visuais do filme são dos seus grandes pontos-fortes. Na história do cinema, apenas recentemente se começaram a utilizar técnicas que permitem que se “brinque” com o tamanho real das coisas e das pessoas. “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson, é um deles. Contudo, entre magos, humanos, hobbits e anões, por vezes é fácil detectarmos incoerências no tamanho das personagens que, comparando umas com as outras em várias partes da trilogia, ora são grandes demais, ora demasiado pequenas. No “Alice do País das Maravilhas” de Tim Burton, isso não acontece: é fácil, mais uma vez, rever a obra surrealista de Caroll, parecendo até que, a certo nível, ela faz sentido! De facto, o crescimento repentino de Alice, ou o seu seu decrescimento, ou cenas de interacção entre personagens e objectos de tamanhos desproporcionais (como Alice grande com a rainha vermelha, ou Alice dentro do bule de chá) e a dimensão dos olhos do Chapeleiro e da cabeça da rainha demonstram o empenho da equipa de produção em tornar este filme numa experiência real. O facto de muitos cenários serem feitos com recurso a CGI (efeitos especiais informáticos) não influenciou, de modo algum, a veracidade das imagens. O acompanhamento de Danny Elfman, músico que trabalha recorrentemente com Burton nos seus filmes, foi também um dos grandes segredos para aumentar o nível de intensidade e de interacção com os espectadores. A não perder!

Ficha técnica

Alice in Wonderland
Género: Aventura, familiar, fantasia
País: EUA
Ano: 2010
Duração: 108m
Classificação PT: M/12
Interpretes: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Matt Lucas