Christiane F., de Uli Edel

Apreciação

A adaptação cinematográfica do livro “Os filhos da droga”, conhecida em Portugal como “Christiane F.”, foi descrita por Roger Ebert como um dos filmes mais horripilantes que viu na sua carreira, referindo-se à violência com que somos deparados do início ao fim do filme. Não é para menos. Para quem conhece a obra original e segue o percurso de Christiane F., o filme não surpreende. Porquê?

Christiane foi descoberta por dois jornalistas em meados dos anos ’70, aquando do seu aprisionamento e julgamento por consumo de drogas pesadas e de prostituição. O que deveria ser uma pequena entrevista tornou-se num documento imperdível para a compreensão da mente dos jovens e da realidade do mundo da droga. Das longas conversas de Christiane com os jornalistas Kai Hermann e Horst Hieck, nasceu um livro que relata a sua vida desde a infância com um pormenor impressionante, de forma evolutiva: começamos por conhecer a sua realidade familiar e as disfunções existentes no seio do seu lar, criando problemas de relacionamento social e, gradualmente, o crescimento de uma enorme necessidade de afirmação junto do seu grupo de amigos e de colegas da escola. A violência paternal, a dormência maternal e a impessoalidade do bairro onde mora, pleno de proibições que impedem a expansão da liberdade criativa infantil de forma saudável, tornaram Christiane uma rapariga ressentida e com uma incontornável necessidade de se superiorizar. Assim, começa por experimentar drogas leves e por sair à noite para a “discoteca mais moderna da Europa”, o Sound, onde integra um mundo disfuncional de pessoas que lidam com os seus problemas do dia-a-dia com drogas pesadas. Com o passar do tempo, Christiane torna-se viciada em heroína e recorre à prostituição para sustentar o vício. Nesta altura, tem 13 anos.

O filme data de 1981 e apenas o encontrei recentemente. A curiosidade e o nervosismo em o ver tornaram as expectativas muito altas, visto que li o livro inúmeras vezes (podem ver aqui a minha análise ao livro e fotografias reais) e criei uma imagem muito concreta daquele que foi o mundo de Christiane, sobretudo porque abundam as fotografias de Berlim e do seu grupo de amigos na Internet. Mesmo assim, e considerando a dificuldade de adaptação das páginas para o grande ecrã, a verdade é que o filme está muito bem realizado e consegue reflectir os dias desta rapariga alemã.

Naturalmente, há aspectos que foram colocados de lado porque o livro é muito extenso, o que permite que o filme se foque nos momentos mais marcantes da vida de Christiane. Em suma, as duas horas de filme resumem os dois anos de decadência da rapariga, entre os 13 e os 15 anos, com passagens que são um autêntico terror: a partilha de seringas entre desconhecidos; os efeitos da ausência de droga em período de desintoxicação, com crianças de 13 e 14 anos a sofrer espasmos e dores musculares brutais por todo o corpo seguidos de vómitos uns para cima dos outros; a descoberta da morte de amigos; a procura desesperada por clientes para angariar dinheiro para comprar mais droga, etc.

“Wir Kinder vom Bahnhof Zoo” é-nos relatado pelo olhar de Uli Edel, com recurso a banda sonora instrumental melancólica (excepto na discoteca, onde toca David Bowie – uma figura importantíssima para Christiane) que carrega o ambiente de uma crueza autêntica; e a câmaras de mão em algumas passagens, atribuindo um maior carácter de realismo a algumas cenas, como se de um documentário se tratasse. Um dos pormenores de que mais gostei foi vermos a perspectiva de Christiane quando entra pela primeira vez num carro com um cliente, transmitindo claramente o seu esforço em se concentrar no que se passava fora do carro e em fugir mentalmente ao pesadelo que vivia. A frivolidade com que Uli Edel nos mostra a realidade de Christiane é arrepiante e torna este filme um clássico que deve ser visto com atenção… e respeitado.

Para além do filme – com SPOILERS

O filme termina com a tentativa falhada de suicídio de Christiane. Na verdade, a sua história no mundo da droga estende-se muito para lá desse momento: com o apoio infrutífero da mãe, Christiane entra em várias clínicas de desintoxicação para se libertar da dependência física, mas a psicológica é ainda mais forte, pelo que acaba sempre por retornar ao meio. A certa altura, Christiane vai viver com o pai e, por um breve período de tempo, consegue libertar-se das drogas, mas depressa consegue contornar as regras rígidas que o pai lhe impõe e voltar à droga sem que a família se aperceba. Certo dia, depois de ser encontrada pela polícia e de ser aprisionada mais uma vez, Christiane é levada pela mãe para Hamburgo, onde fica a viver com a tia e com a avó. Aqui, longe da fria realidade de Berlim, Christiane consegue afastar-se do vício e a ganhar um novo respeito pela vida, afastando-se definitivamente da heroína e recomeçando os seus dias numa nova escola e com novos amigos.

Poucos anos mais tarde, Christiane muda-se para casa de um namorado e integra uma banda musical , Sentimentale Jugend. O livro tornou-se um best seller na Europa e Christiane é admirada por milhões de pessoas em todo o mundo devido à força com que lutou contra a droga. Com este sucesso, Christiane rapou o cabelo (a única coisa que admite não poder fazer aquando da entrada em clínicas de desintoxicação) para não ser reconhecida na rua. Teve um filho há poucos anos mas, segundo notícias recentes, voltou à heroína há aproximadamente um ano.

Ficha técnica

Nome original: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Ano: 1981
Duração/ep: 124 min
País: Germany
IntérpretesCast: Natja Brunckhorst, Thomas Haustein, etc.
Realização: Uli Edel