Sobre a escrita

Quando leio um bom livro, não consigo deixar de imaginar as horas, os  meses, os anos que  o escritor investiu em pesquisar informação e a construir uma narrativa complexa e sem falhas. Quem escreve, mesmo um autor amador como eu, tenta criar uma teia de acontecimentos passíveis de serem verdade. Têm de ser credíveis e fazer sentido no universo da história que se conta, com um grau de complexidade, de riqueza de pormenores e de tridimensionalidade das personagens muito elevado.

O que me cativa em romances históricos e biográficos é a capacidade de descrição e de interligação de acontecimentos numa estrutura relativamente estanque, com obediência a algumas regras para garantir que a história seja clara e compreensível. A criação do eixo dramático é resultado de um enorme esforço do autor para que toda a história faça sentido e que se desfaça solidamente. É impressionante. Talvez (aliás: é mesmo) por isso é que fujo aos considerados “romances baratos”, que correspondem às comédias românticas no cinema. Depois de ler livros primorosamente escritos e com uma complexidade elevadíssima, simplesmente não consigo pegar em livros com histórias de amor e crises existenciais que de filosofia não têm nada (sem desrespeito aos respectivos autores). Daí que ultimamente me seja tão díficil encontrar livros que me cativem e me despertem o interesse. Nesse âmbito, tenho encontros marcados Jean-Paul Sartre, José Saramago, Umberto Eco, Carlos Ruíz Záfon, Cormac McCarthy, Hillary Mantel, entre outros.

Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de dum acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.

Agustina Bessa-Luís, in “Contemplação Carinhosa da Angústia”