Dança e infância de Sophia de Mello Breyner Andersen

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) gostava de dançar e dançava desde pequena, frisou hoje à tarde o professor universitário Carlos Mendes de Sousa, coordenador da mais recente edição da obra poética de Sophia, perante o auditório cheio da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, onde decorre o colóquio promovido por Maria Andresen, filha da poeta, em colaboração com o Centro Nacional de Cultura.

No espólio dela – prosseguiu – há fotografias que comprovam o seu amor pela dança, além do testemunho de um dos filhos, Miguel Sousa Tavares, que escreveu numa crónica em que contava que, “às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora”.Por gostar tanto de dançar, transpôs isso para as suas personagens, como a menina do mar ou a fada Oriana. “A dança marca poeticamente todo este texto. Lemos a descrição da dança que Oriana executa para o poeta, como quem lê os seus versos”, como se os seus versos fossem música, um pouco à semelhança também do que Sophia escreveu sobre si mesma: “Quando eu era nova, dançava sozinha em casa os versos que escrevia.”

Quando Sophia era pequena, relatou a professora universitária Paula Morão, o Campo Alegre ainda não ficava bem dentro da cidade do Porto, era nos arredores e aí se situava a “desmedida casa vermelha” dos seus avós, território da infância a que ela muitas vezes regressa na sua obra e que está também muito bem retratado na autobiografia do escritor Ruben A., seu primo, Ruben Andresen Leitão.

Num inédito que se encontra no espólio da poeta, revelou, há uns versos assim: “Primeiro, moramos nas casas. Depois, quando as perdemos, elas moram-nos.”

Na mesa anterior, Helder Macedo, escritor e professor jubilado do Kings College, falara da importância de outra casa, “a casa branca em frente ao mar enorme”, um verso de um poema de Sophia.

“Nunca soube distinguir entre Sophia e os seus poemas ou, parafraseando o verso que me serve de título, entre a casa branca e o mar em frente”, observou, para, a partir desta convergência entre a pessoa que conheceu e a poesia em que a reconhece, recordar alguns dos seus encontros ao longo de mais de quatro décadas.

Frederico Lourenço, professor universitário, escritor e helenista, como Sophia, falou sobre o não vivido na obra poética dela: “O tempo apaga tudo menos esse longo indelével rasto que o não vivido deixa.”

Informação retirada de SAPO  livros a 2 de Fevereiro de 2011.