o nosso reino, de Valter Hugo Mãe, por Maria Manuel Rocha

História de uma criança de 8 anos, contada na primeira pessoa, que vê o mundo e todas as coisas como manifestações da voz de Deus. É a aventura da candura e da ingenuidade através dos complexos meandros da fé e dos comportamentos humanos. Criado no seio de uma família extensa, o narrador vai assistindo ao esvaziar da sua casa e à dificuldade de explicar esse fenómeno à luz dos supostos desígnios divinos. Entre o profundamente terno e a delicadeza da infância surge uma necessidade de sobrevivência, um engenho maior do instinto humano que é sempre, neste livro, pautado pela necessidade de amar o próximo.

Apreciação

“o nosso reino” é o mundo habitado por uma criança, mais precisamente, o olhar dessa criança (narrador) sobre o seu mundo interior e o mundo que em que vive.

É uma pequena vila piscatória na década de 70, encerrada nas suas ruas estreitas, criando relações de vizinhança, ora cúmplices, ora maldizentes, sem clareiras a permitir aliviar alguns sufocos; encerrada nas suas crendices, medos e preconceitos, como o receio de ir além da vila – “onde começam as árvores é o fim do mundo” -, como a imagem construída à volta do coveiro – “com olhos de precipício”, que “saltava pelas árvores” -, como as críticas face ao amor e à gravidez de uma mulher em idade tardia, a breve referência à possibilidade de aborto clandestino, como as tentativas de feitiços para salvar ou desfazer vidas, ou o cerco da população à criança em busca de milagres; subjugada a uma igreja que castigava, na sua sacristia húmida, bolorenta e fétida de ratazanas; atormentada pelas mortes de familiares, pelos tormentos e naufrágios dos pescadores.

O seu mundo interior é de solidão, perda e isolamento, confrontado com a incompreensão e a morte no espaço familiar. Mas também de imaginação fértil e em mudança, começando a saber de emoções ou realidades até então desconhecidas (pelas histórias do jovem ex-combatente em Angola, ou pelo comportamento dos jovens enamorados após o 25 de Abril). Perante o que o circunda, não deixa de ter algumas fantasias infantis, no entanto vai desenvolvendo certo sentido crítico, iniciando uma busca idealista de noção distinta entre o bem e o mal, que, ao longo da narrativa, evolui para a procura da santidade como meio de ajudar e salvar os outros.

Porém essa diferenciação torna-se-lhe pesada e refugia-se no silêncio – “sei que dizem que és o rapaz mais triste do mundo”-. A grande tristeza do homem que enterra a morte (“era o homem mais triste do mundo”, assim inicia o livro) parece ter passado para a criança incapaz de suportar o fardo da salvação da vida, numa circularidade sugestiva dessa impossibilidade.

Um “reino” de personagens bem construídas, onde se entrecruzam as vivências concretas do dia-a-dia e o plano do maravilhoso, um romance que flui num discurso, ora aproximado à oralidade, em jeito de “contador de histórias”, ora pontuado por imagens poéticas, a oferecer uma leitura interessante e susceptível de diversas reflexões.

Análise feita por Maria Manuel Rocha no Citador. Informação retirada a 09.02.2011.

Ficha técnica

ISBN: 9727597386
Número de Páginas: 155
Encadernação: CAPA MOLE
Data da primeira Edição: 2004