O nariz, de Nicolai Gógól, por Cláudia de Sousa Dias

Pai da moderna prosa russa, Nikolai Gógol escreveu um conto, uma sátira que tem por fundo a atmosfera oitocentista de São Petesburgo, e que pelo absurdo e pelo ridículo da situação (o assessor de colégio, major Kavaliov, acordou uma bela manhã sem o seu nariz e, para espanto seu, encontrou esse mesmo nariz, o seu, a passear-se pela cidade, fazendo-se passar por conselheiro de Estado) acabaria por ver recusada a sua publicação, por ser considerado “sórdido”, na revista “O Observador de Moscovo”, para a qual havia sido inicialmente escrito a pedido de Pogodin. Foi mais tarde publicado em “O Contemporâneo”, com uma nota de Pushkin, o pai da moderna poesia russa. Chega agora pela primeira vez à edição portuguesa traduzido directamente do russo por Nina e Filipe Guerra, com uma introdução de Vladímir Nabokov, e é obrigatório lê-lo porque se trata de um dos textos mais marcantes da prosa contemporânea.

Apreciação

Oriundo de uma família aristocrática, Nicolai Gógól foi, durante muitos anos, funcionário público e, também, historiador e professor. A escrita de “O Nariz” insere-se na fase de maior consciência política da sua carreira literária. Trata-se de uma sátira onde o autor denuncia algumas contradições e falhas do sistema social assente no Imperialismo Russo e na máquina burocrática do Estado, ao ilustrar situações onde se faz notar a corrupção do funcionalismo público a vários níveis, os subornos, as chantagens e a censura.

O Autor, no entanto, após ver censurada a sua obra “Almas Mortas” é assolado por uma grave depressão, procurando refúgio no misticismo religioso. Os períodos depressivos acabam por tornar-se cada vez mais longos e condicionar-lhe fortemente a escrita. Por último, o Autor revestir-se-á de uma profunda religiosidade, observando rigorosos jejuns e penitências, colocando em risco a própria sobrevivência levando-o a sucumbir à morte, após um longo período de agonia e delírio.

Esta edição, da Assírio & Alvim, inclui o prefácio de Vladimir Nabokov, o qual destaca o apoio de Pushkin a Gógól, que lhe publica “O Nariz” na revista da qual era editor. Nabokov era da opinião de que este conto faria parte da “fase mais crítica e oposicionista do jovem Gógól em que a crítica e a sátira sociais suplantam o misticismo latente no Autor.”

Gógól tinha a perfeita noção do quanto era vigiado, um facto que, a opinião de Nabokov, se repercute na estrutura interna do conto, sendo notório que o Autor assume,não raro, uma atitude de autocensura, a qual enfatiza, paradoxalmete, a ironia das situações expostas, pautando-se por uma notória acidez no discurso.

Para o Autor de “Lolita”, este conto de Gógól oscila entre o trivial (o quotidiano das primeiras cenas ) e o absurdo (o passeio do nariz solitário pelas ruas da cidade). Trata-se de dois extremos do mesmo continuum a partir dos quais o Autor esboça a acção a acção através da técnica do contraponto, conferindo dinamismo à narrativa ao fazê-la oscilar entre a realidade e o imaginário, ou inverosímil, a que junta a sátira para realçar, de forma caricatural, a hipocrisia, a venalidade ou a mesquinhez das personagens, sobretudo nas cenas que descrevem o exercício da autoridade policial em situação de incontornável abuso de poder.

Critíca por Cláudia de Sousa Dias. Continuar a ler no blog Há sempre um livro à nossa espera

Ficha técnica

ISBN: 972370577X
Número de Páginas: 76
Encadernação: CAPA MOLE
Data da primeira Edição: 2000