O livro morreu, longa vida ao livro

Ainda sobre a discussão acerca da transformação dos livros. Os livros como os conhecemos carregam um enorme simbolismo, mas a verdade é que os e-books contribuem muito significativamente para o desagravamento ambiental. A questão para os amantes dos livros é: Tradição ou ambiente?

Texto de José Couto Nogueira, cronista do jornal i:

Vai continuar a haver escritores e leitores, o que vai mudar é apenas o tipo de suporte em que as palavras estão gravadas. O digital é mais barato que o papel e mais fácil de armazenar.

MacLuhan esteve certo durante muitos anos, “o meio era a mensagem”. Mas a evolução vertiginosa da tecnologia só poderia ser prevista por um génio da ficção científica (Bradbury, por exemplo), não por um cientista, por genial que fosse. A televisão mudou a nossa maneira de nos entretermos – na protecção da casa, no conforto do sofá, a ver o mundo passar ao vivo e a cores, em tempo real. Os computadores mudaram a nossa maneira de trabalhar, os telemóveis o modo de comunicar. É o progresso, e o progresso, tal como a religião e a morte, é incontornável. Tudo o que já fora imaginado pelos artistas da literatura, até da banda-desenhada.

Por falar em meio e em progresso, os livros em papel vão ser substituídos pelos livros digitais!

Escrevo isto e estou a sentir o arrepio assustado e irritado do leitor. Os livros são insubstituíveis, dirá. Há um valor no livro que não se pode perder, ou cai a civilização. Por um lado, representa o conhecimento, a cultura, a informação e, em última análise, a liberdade de pensamento. Os regimes totalitários proíbem–nos ou censuram-nos. As sociedades livres deixam publicar todos e mais alguns, mesmo aqueles que as criticam. Por outro lado, é um lindo objecto. Folheá-lo, sentir o cheiro do papel impresso; coleccioná-lo, encher as paredes de cor e sabedoria; dá-lo transmite o conhecimento. Ao simbolizar a sociedade da cultura democratizada, o livro tem um valor moral insubstituível.

Com certeza. Mas o que conta no livro é o que lá está dentro, o texto. Como o que conta no CD é a música. Antigamente ouvia-se música tocada ao vivo em instrumentos. Os instrumentos e os músicos não desapareceram, mas, graças à gravação, a música chega a mais pessoas, mais barata. Agora até o CD está a desaparecer, substituído por coisas tão intangíveis como o dowload e a cloud. Graças a essa mudança de meio, a música é acessível a toda a gente, em todas as situações – a andar, a fazer ginástica.

A mudança do livro do papel para o digital é idêntica. Continua a ser escrito por um autor, lido pelo leitor. Mas torna-se mais acessível. Um leitor digital tipo Kindle ou iPad, ou mesmo um smartphone, permite ter 10 mil livros no espaço de um, com menos peso. Também deixa que se receba um livro no meio do campo num país distante. Mesmo que o ditador de serviço não queira. E não se estraga papel, ou seja, árvores, esse bem em extinção.

Mesmo agora, sem que nos apercebamos, a comunicação social já é mais transmitida digitalmente que em papel. O i, por exemplo, tem mais de 3 milhões de leitores mensais. O Sapo, que agrega tudo, informação, opinião e minudências, tem 30. Isto para não falar na televisão, também ela electrónica.

Depois também há a questão dos custos. Pelo que gasta a imprimir o jornal em papel, o “New York Times” podia oferecer quatro Kindles por ano aos seus leitores digitais. Para o leitor, o livro digital sai mais barato – mas o escritor, o editor e o distribuidor continuam a receber.

O genial MacLuhan, se fosse vivo, poderia acrescentar que o meio não muda a mensagem. Claro, os livros em papel vão continuar a existir. Lindos, impressionantes. Como os pianos de cauda. Quer levar quantos nas próximas férias?

Retirado do i online a 14.03.2001