A importância dos tradutores literários

Pormenores de uma relação amorosa: o tradutor e a obra de um autor

Traduzir é mais que uma leitura especializada. É entrar dentro dos livros, ter um contacto íntimo, físico, com as palavras. É também conhecer quem escreveu o texto que está nas mãos do tradutor. Fomos tentar descobrir os pormenores de que se reveste esta relação amorosa.

O tradutor encerra-se na companhia de dicionários e do texto que tem em mãos para verter para outra língua. É um trabalho em que o tradutor “tem de estar na toca,” como nos diz Artur Guerra, que traduz com a mulher, Cristina Rodriguez.

“É quase trabalho de copista, de asceta, é preciso ter muito cuidado para não perdermos a noção do original,” diz, por sua vez, Jorge Fallorca. Conseguimos imaginá-lo fechado na sua torre de marfim, com um original espanhol ou catalão à frente, a “copiá-lo” para português. Está sentado a uma secretária, com um computador, e uma pilha de dicionários ao lado, fiéis companheiros desta actividade.

Ainda assim, solitário como é, não deixa de ser um trabalho que se faz em diálogo. Obrigatoriamente o diálogo com o texto que se traduz. Mas muitas vezes com os autores, com os seus intermediários ou com colegas de profissão.

Procurar a origem

Paulo Faria (n. 1967) vai ainda mais longe (e aqui deve ler-se também em sentido literal). Tendo traduzido quase todos os livros de Cormac McCarthy publicados em Portugal – a excepção era “Belos Cavalos”, mas sairá no próximo ano nova edição com tradução de Faria -, viajou até Knoxville, Tennessee, para melhor traduzir “Suttree”.

Antes tinha já estabelecido contacto com o autor. Obteve resposta, embora já o tivesse tentado sem sucesso, aquando da sua primeira tradução de “Meridiano de Sangue” (2004). Primeira, porque acaba de sair nova tradução, feita totalmente de raiz, pelo mesmo Paulo Faria (e se isto não é amor ao trabalho, o que será?).

Este contacto com o autor revela-se, muitas vezes, fundamental. “São valiosas as explicações que os autores nos podem dar sobre passos/expressões empregues, ou sobre informação cultural ou subtexto ideológico que nos escapou.” Quem o diz é Margarida Vale de Gato (n. 1973), que traduziu já Lewis Carroll, Dickens, Yeats, Melville, Poe ou Michaux, e dá aulas na licenciatura em Tradução da Faculdade de Letras de Lisboa.

E não é só o tradutor que ganha. O próprio autor também sai beneficiado quando se estabelece esta relação com o tradutor. Di-lo Margarida e Fallorca sublinha-o: “Os autores são os mais interessados nisso, proporcionar o máximo de informação ao tradutor, para que haja um bom resultado final. Quando um tradutor põe dúvidas ao autor, o autor fica contente, porque aquele não escolheu uma solução mais fácil.”

Solução que, acrescentamos, possivelmente daria mau resultado. Artur Guerra (n. 1949) e Cristina Rodriguez (n. 1955) são casados e traduzem muitas obras em conjunto. Traduziram os três livros de Roberto Bolaño publicados na Quetzal (e mais se seguirão), bem como o mais recente romance do prémio Nobel deste ano, Mario Vargas Llosa: “O Sonho do Celta”. Se há uns bons anos atrás contactavam também com os autores, agora fazem-no menos. “Com a Internet já conseguimos resolver muitos problemas,” diz Cristina. Artur acrescenta que se torna “mais fácil dialogar com outros tradutores, do mundo inteiro, e há dicionários e ferramentas online” que facilitam a tarefa. O facto de serem dois ajuda. Completam-se. “O Artur viveu onze anos em Espanha, na zona de Valência, tem experiências diferentes das minhas”, diz-nos Cristina Rodriguez, filha de pai espanhol.

Para Jorge Fallorca (n. 1949), tradutor de Vila-Matas, Piglia, Bioy Casares ou Toscana, mesmo com as possibilidades que a Internet oferece o contacto com os autores é fundamental. “Eu tento sempre interagir com o autor. Na fase final, na pré-revisão digamos assim, junto questões e coloco-lhas.” Só não o faz, logicamente, para autores mortos, como Bolaño, de quem traduziu “Estrela Distante” para a Teorema.

Fallorca conta-nos como, numa obra do argentino Ricardo Piglia, em que nem o dicionário de lunfardo (o calão de Buenos Aires) lhe iluminou o caminho, foi espantosa a ajuda que deu o autor. “Porque eu não vou pôr a personagem a falar alentejano ou com sotaque da Beira. Há uma toada, uma musicalidade, que se perde inevitavelmente, mas procuro ter o cuidado de não atraiçoar o original, que o livro não seja muito português.”

O autor está quase sempre receptivo a este contacto com o tradutor. Mas em quem traduz não poderá este contacto causar maior pressão? Ou deixá-lo-á mais à vontade por saber que pode recorrer à pessoa que melhor conhece o texto que está a traduzir?

“Existe a possibilidade de as duas situações se manifestarem,” diz-nos Salvato Telles de Menezes (n. 1949), que traduziu Cabrera Infante, Borges, Salinger, Pynchon ou Nabokov. “Por um lado, com o contacto pessoal, apercebemo-nos de peculiaridades que podem iluminar a obra; por outro, há sempre algum receio de que, perante uma incompreensão do tradutor, o autor, por mais benévolo que seja, recalcitre, sobretudo se interpretámos mal os sinais.”

Margarida Vale de Gato diz que, de início, era temerosa relativamente a esses contactos. “Preferia desembaraçar-me sozinha.” Agora, contudo, tem inclusive um leque de autores que trabalha nas aulas e a quem pediu colaboração com os seus alunos. “Essa participação dos autores tem sido de tal modo gratificante que me penalizo por não ter recorrido mais a ela nas minhas encomendas profissionais de tradução.”

A responsabilidade acrescida por contactar o autor é coisa que Fallorca não sente. “Sinto é menos responsabilidade, por ter a possibilidade de o contactar. Porque é mais fácil solucionar esses problemas de tradução.” E acrescenta ainda: “Se fizessem uma tradução minha sem me colocarem nenhuma dúvida, era capaz de ficar de pé-atrás com a tradução.”

Algumas vezes, o contacto não se esgota nas cartas ou e-mails que trocam. Artur Guerra e Cristina Rodriguez foram a Salamanca para se encontrarem com Torrente Ballester. “Íamos com o ego muito contente pela possibilidade de o encontrar, de o ouvir, de saber o que é que ele dizia do livro, do nosso trabalho,” conta-nos Cristina.

Artur esteve também uma semana em Espanha com um autor, na Casa do Tradutor, uma residência artística só para tradutores das línguas espanholas, uma das provas de que o país vizinho não olha a meios para promover os seus idiomas.

Outras vezes, vêm os autores ao encontro de quem os traduz. Foi assim que Cristina Rodriguez conheceu Vargas Llosa, que numa sua passagem por Lisboa fez questão de almoçar com os vários tradutores da sua obra.

Fallorca conta ainda uma história curiosa, com a autora de “O Jogo da Forca”, Imma Turbau. Não havia meio de a autora dar por concluído o livro. Havia sempre algo para mudar. E o editor português, cansado de esperar, decidiu que como estava era como ficava, e entregou-o a Fallorca. Quando este estava já perto do final da tradução, o editor alerta-o de que havia mais alterações. Fallorca, que na altura vivia no Algarve, não esteve com meias medidas. Falou com a autora e ela disse-lhe: “Mete-te no autocarro para cá, tens onde ficar, e vamos trabalhar no livro.” Em boa hora o fez, porque as alterações não eram de pequena monta.

Descobertas e redescobertas

Artur Guerra já conhecia praticamente todos os autores espanhóis que veio a traduzir. E a relação que tinha com as obras saiu a ganhar do posterior trabalho de tradução. Cristina Rodriguez completa a ideia: “A relação que se tem enquanto leitor é diferente da de tradutor. Enquanto estamos a traduzir, palavra a palavra, vamos descobrir coisas a todo o momento. Quando lemos é uma coisa mais de passagem. Na tradução temos de sentir toda a frase, parar muito mais, ultrapassar as dificuldades.”

Também Salvato Telles de Menezes não tem dúvida: a relação com um autor que já lhe era caro, como Cabrera Infante, sai fortalecida quando o traduz: “Há quase um contacto físico que se estabelece com o texto, como se os nossos dedos tocassem as palavras originais para as transportar, com a delicadeza ou com a violência que impõem, para a nossa língua.”

O devoto da obra de McCarthy, Paulo Faria, que traduziu também Kerouac, Orwell ou DeLillo, diz que a sua paixão literária só ganhou contornos avassaladores quando o traduziu. “A leitura atenta, quase microscópica, a que a tradução obriga dá-nos acesso a aspectos do texto que permanecem necessariamente esbatidos aquando da leitura ‘normal’ (por muito atenta que seja) de uma obra literária.”

E é deste contacto privilegiado, da observação microscópica e da conexão quase física com o texto original, que se criam ligações profundíssimas entre estes trabalhadores da palavra e os objectos do seu trabalho.

Não só são pessoas que amam profundamente aquilo que trabalham, como têm ainda espaço para amar mais. Porque o trabalho de um tradutor proporciona, não raras vezes, descobertas e surpresas impagáveis.

“Em quinze anos de actividade como tradutor, não me recordo de ter traduzido um autor que tivesse lido anteriormente,” diz-nos Jorge Fallorca, que é um exemplo perfeito do que a tradução oferece a quem a faz. “Mas, por exemplo, quando traduzi um do Piglia, fui comprar o Piglia todo. Quando traduzi a ‘Estrela Distante’, comprei o Bolaño todo.”

E Fallorca não só é um exemplo perfeito, como é um exemplo muito feliz do que são estas descobertas através da tradução. “Tenho tido a sorte de me terem enriquecido com a descoberta de autores através da tradução. Só me dão coisas boas. Às vezes parece que os escolhem a dedo. Toscana, Piglia, Bioy Casares, Vila-Matas, Bolaño.”

Roberto Bolaño foi também uma das descobertas mais fascinantes que a tradução proporcionou a Artur Guerra e Cristina Rodriguez. Começaram logo pelo monumental “2666”. Artur ia muitas vezes para um anexo, separado da casa onde vivem e trabalham, por forma a estar mais concentrado. “Às vezes ele vinha de lá um bocado transfigurado,” diz-nos Cristina. “Já não conseguia ver tanto horror junto.”

Referem-se à quarta parte do livro, “A Parte dos Crimes”, que é uma interminável enumeração de cadáveres encontrados e do estado em que estão.

Apesar do horror, Bolaño foi uma descoberta felicíssima para o casal. “A descoberta como tradutor, sendo a primeira, é fascinante. No caso do Bolaño foi, porque não pude ler as mil e tal páginas antes de começar a trabalhar,” diz-nos Artur. E Cristina teve “pena de não puder pôr de lado a faceta de tradutora para o poder ler apenas como leitora.”

Margarida Vale de Gato teve a sorte de encontrar a obra, que não conhecia, de Henri Michaux, “extraordinário poeta.” Já para Salvato, foi a descoberta de Camilo José Cela, que, “talvez devido a preconceitos de juventude,” nunca tinha lido antes, que se revelou das mais felizes dádivas do seu trabalho de tradutor. “Foi muito importante para mim perceber o extraordinário peso temático e histórico e a riqueza de modelos narrativos que a obra de Cela apresenta.”

Quando sai a fava

Inevitavelmente, no meio de tanta coisa boa que vão descobrindo ou redescobrindo, quase todos os tradutores acabam por ter em mãos, em algum momento da sua vida, um trabalho menos bom, com o qual têm mais dificuldade em criar laços.

“Já traduzi coisas menores,” diz-nos Paulo Faria. “Aquilo que é aparentemente fácil de traduzir, a prosa pedestre e sem alma de certos escritores, torna-se penoso ao fim de pouco tempo.”

Quando trabalhava exclusivamente como tradutora literária, Margarida Vale de Gato também teve de traduzir textos menos bons, por não ter alternativa mas também por ter feito “algumas escolhas más.” E, naturalmente, a diferença em relação aos autores com que mais se identifica, sente-se profundamente: “É essencial a empatia na tradução literária. E claro que se servem mal os autores quando não se gosta especialmente deles.”

Para Artur Guerra e Cristina Rodriguez, mais do que a qualidade literária dos autores, é difícil encarar certas ideologias (questão que surge mais em livros de não ficção). “Quando há uma tese, uma ideologia, com a qual não nos identificamos, custa-nos mais a traduzir. O tradutor não tem de estar implicado nisso, claro, mas custa-nos mais.”

O caso de Fallorca será, provavelmente, uma excepção que não encontra facilmente par. Ter traduzido apenas autores que ainda não tinha lido e ter descoberto em todos obras de qualidade é um feliz acaso que não acontece a todos.

Muitos, ainda assim, têm o privilégio de traduzir quase exclusivamente autores de que gostam e com os quais é fácil estabelecer empatia. Daí que estas pessoas sejam trabalhadores felizes, que amam o que fazem e não trocam este trabalho por nenhum emprego.

Os tradutores têm algo em comum com os árbitros de futebol. Quanto menos se der por eles, melhor nos parece o seu trabalho. “O trabalho do tradutor é pôr o autor em evidência e deixarmo-nos a nós, tradutores, na sombra. E esse trabalho de humildade é que é difícil,” diz-nos Cristina Rodriguez. Só que a sombra de que fala devia existir apenas no texto. Não devia reflectir-se no esquecimento em que tão facilmente cai o trabalho tão importante, e tão difícil, destas pessoas.

Não devia ser quase impossível, como é, encontrar o nome do tradutor de uma obra no site das livrarias online ou no próprio site das editoras.

Artur Guerra, no final da nossa conversa, citou Saramago. É curioso o trabalho que tiveram de fazer para o livro recentemente editado “José Saramago, Nas Suas Palavras”, que compila entrevistas, discursos e textos afins do Nobel português. Muitos destes textos vieram de jornais e revistas estrangeiros, que Artur e Cristina tiveram de traduzir. Mas muitas destas declarações de Saramago terão sido feitas em português e traduzidas posteriormente para a língua das publicações em que saíram. Ou seja, tiveram de traduzir para português, palavras que provavelmente foram ditas em português. E acrescentaram ao leque de autores traduzidos, um nome de peso que, de certeza, nunca imaginaram vir a verter para português: José Saramago.

Se Saramago, citado por Artur Guerra, fechou na perfeição a nossa conversa, fechará também este artigo: “Os escritores fazem as literaturas nacionais e os tradutores fazem a literatura universal. Sem os tradutores, nós os escritores não seríamos nada. Estaríamos condenados a viver fechados na nossa língua.”

Artigo escrito por Gonçalo Mira e publicado no Público online em 02.12.2010.