Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida não e não!, de Manuela Gonzaga

Filha e herdeira do fundador do Diário de Notícias. Mulher do administrador do mesmo jornal, o escritor Alfredo da Cunha. Presa num manicómio por um «crime de amor». Os factos relevantes têm início em Novembro de 1918: era uma vez uma senhora muito rica que fugiu de casa, trocando o marido, escritor e poeta, por um amante. Tinha quarenta e oito anos, pertencia à melhor sociedade portuguesa. O homem por quem esta senhora se apaixonou, tinha praticamente metade da sua idade e fora seu motorista particular. Era herdeira do Diário de Notícias e a sua história chocou a sociedade da época.

Contextualização: Maria Adelaide Coelho da Cunha era uma aristocrata lisboeta que vivia no Palácio de S. Vicente com o seu marido, Alfredo da Cunha, no início do século XX. Aos 48 anos, decidiu que o seu casamento estava esgotado, pelo que optou fugir de casa para ir ter com o seu amante, um chaffeur por quem se apaixonou. Esta escolha foi considerada um “crime de amor”, o que levou que o seu marido a internasse num manicómio.

O livro: Mais do que uma história romanceada, este livro é um registo imperdível do tipo de vida que reinava em Lisboa há cem anos, reflectindo claramente a pesquisa profundíssima que Manuela Gonzaga fez. A autora começa por nos contextualizar sobre a realidade da altura: entre o fim da monarquia e o término da Grande Guerra, percebemos a importância deste esclarecimento à medida que vamos conhecendo o percurso de Maria Adelaide.

Quando a protagonista apanha o comboio para sair de Lisboa e não mais voltar, o seu marido inicia um processo complicadíssimo para a reter, o que resulta no seu internamento num manicómio na cidade do Porto. Completamente só, Maria Adelaide tem de encontrar os melhores e mais eficazes meios para provar que não está doida e que esta situação se resume a complicações matrimoniais.

Tratando-se ou não de um caso de divórcio – algo perfeitamente perceptível aos nossos olhos – a verdade é que Maria Adelaide perdeu o controlo do seu destino e da sua vida. Isso começa no momento em que é internada e mantida no manicómio contra a sua vontade visto que, na época, bastava um familiar e dois médicos considerarem a pessoa em questão “maluca” para a internarem “para o seu próprio bem”. Contudo, o internamento tem um vasto conjunto de falhas processuais, fruto da influência exercida pelo marido.

A medicina e a religião: Para o diagnóstico, Maria Adelaide foi sujeita às mais variadas humilhações. Aquilo que era considerada a análise sintomática era, na verdade, um questionário extenso sobre a sua vida, desde problemas de saúde de ascendentes, sentimentos face ao marido e ao filho, postura sobre a vida que deixara em Lisboa… Enfim, um sem-número de elementos que apenas a Maria Adelaide diziam respeito. Mesmo assim, os médicos de enorme renome (como Júlio de Matos, por exemplo) consideraram que a protagonista sofria de “loucura lúcida”, o que significava que, por ser mulher – e as mulheres padecerem durante toda a vida com menstruação, maternidade, menopausa, entre outros -, a sua condição era “natural” e “expectável” a partir de dado momento da sua vida.

Recordemos que a medicina há quase um século atrás não tinha, de longe, os avanços de hoje em dia e que os métodos de diagnóstico eram bastante precários. Aliás, considerando ainda o círculo de influência da Alfredo da Cunha e a visão geral sobre as mulheres, socialmente diminuídas, esta situação acaba por ser naturalmente justificada ao longo da história, por mais revoltante e inacreditável que seja.

Por outro lado, é curioso que, nem por uma vez, são relatados registos acerca da responsabilidade “religiosa” que Maria Adelaide deve ao seu marido. Após a implementação da República, terminaram os julgamentos morais de carácter religioso, o que demonstra o divórcio radical entre o Estado e a Igreja neste período em Portugal, depois de mais de 800 anos de uma rigidez absoluta.

Os registos: Aquando do seu internamento, Maria Adelaide começa a corresponder-se com o seu marido por uma via pouco usual: cartas publicadas num jornal diário do Porto. O marido respondia-lhe através do Diário de Notícias, o qual Maria Adelaide herdara do seu pai (fundador do mesmo). Com o passar dos anos, a história de Maria Adelaide e de Alfredo da Cunha insurgiu e veio a público, tornando-se motivo de discussão um pouco por todo o país. Enquanto ela tentava provar a sua sanidade, ele tentava provar a insanidade. Tudo isto publicamente.

O resultado foi não só a exposição total de uma desavença conjugal, mas também a intromissão desmedida de pessoas que  não tinham ligações com o casal que os julgava desenvergonhadamente e ainda exigia explicações sobre o caso. Foi esta troca de mensagens recorrente que levou várias pessoas – autores, filósofos, advogados, médicos – tentassem interferir no caso, ora a favor de um, ora a favor de outro. Para além disso, até livros foram escritos e editados nacionalmente pelos protagonistas e por apoiantes, na tentativa de esclarecer e resolver toda a situação.

Estas cartas perduraram no tempo e têm sido um importante registo na narração da história de Maria Adelaide Alfredo da Cunha. Para além de livros, também um filme foi realizado em português.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2009
Editor: Bertrand Editora
ISBN: 9789722518499
Colecção: Biografias