As descrições nos romances

Jean-Paul Sartre: De um modo geral, aliás, já não sei muito bem porque se escrevem romances. Queria falar do que pensei ser a literatura e além disso do que abandonei.
Simone de Beauvoir: Fale; é muito interessante
Jean-Paul Sartre: Ao princípio, pensava que a literatura era o romance. Dissemo-lo.
Simone de Beauvoir: Sim, uma narrativa, e ao mesmo tempo via-se o mundo através. Isto dá qualquer coisa que nenhum ensaio sociológico, nenhuma estatística, pode dar.
Jean-Paul Sartre: Dá o individual, dá o pessoal, dá o particular. Um romance dará esta sala, por exemplo, a cor dessa parede, desses cortinados, da janela, e só ele o pode dar. E foi do que eu gostei, os objectos serem nomeados e muito próximos no seu carácter individual. Eu sabia que todos os sítios descritos existiam ou tinham existido, que por conseguinte era mesmo a verdade.
Simone de Beauvoir: Embora você não gostasse muito das descrições literárias. Nos seus romances há descrições, de vez em quando, mas sempre muito ligadas à acção, à maneira como as pessoas as vêem.
Jean-Paul Sartre: E breves.
Simone de Beauvoir: Sim. Uma pequena metáfora, três palavrinhas para indicar qualquer coisa, não verdadeiramente uma descrição.
Jean-Paul Sartre: Porque uma descrição não é tempo.
Simone de Beauvoir: Sim. Pára.
Jean-Paul Sartre: Pára, não dá o objecto como ele aparece no momento, mas o objecto tal como ele é há cinquenta anos. É estúpido!
Simone de Beauvoir: Ao passo que indicar o objecto no movimento da narrativa está bem!
Jean-Paul Sartre: Está bem, sim.

Diálogos entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir in ‘A Cerimónia do Adeus’.