Os três casamentos de Camilla S., de Rosa Lobato de Faria

Desde os ambientes à narrativa, estamos perante um livro adequadamente romântico e profundamente moderno, onde estão presentes a poesia e o maravilhoso a que a Autora já nos habituou. Com este seu terceiro romance, Rosa Lobato de Faria confirma o lugar que lhe cabe na nova ficção portuguesa e a atenção internacional que a sua obra começa justificadamente a merecer.

Apreciação

Conheci este livro por recomendação de uma pessoa que o leu lavada em lágrimas. Deixei-o em lista de espera porque sentia que precisava de um período de preparação para mergulhar numa história romântica, de que normalmente não gosto, salvo histórias de amor trágicas como “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco ou “Romeu e Julieta” de William Shakespeare.

“Os três casamentos de Camilla S.” foi o primeiro livro que li de Rosa Lobato de Faria. Adorei. A obra conta a história de Camilla desde criança, com recurso ao diário que a protagonista escreveu ao longo da sua vida e com o pretexto de, em velhota, partilhar a vida que viveu e os segredos que nunca revelou. Este formato pareceu-me, inicialmente, pouco criativo, mas depressa fiquei vidrada no texto e não conseguia deixar de virar as páginas.

Contada na primeira pessoa, a história dá-nos a conhecer o percurso de Camilla a partir das páginas do seu diário pessoal, o que acaba por conferir emoção à história por dois motivos: atribui-lhe credibilidade e é livre de julgamentos, visto que as páginas que lemos terão sido escritas pela protagonista do auge dos acontecimentos: não há verdade maior que essa. Neste âmbito, somos transportados simultaneamente entre as décadas de ’10, ’20, ’30 e o ano de 1985, no qual uma Camilla idosa nos vai contextualizando sobre a realidade e partilhando ligeiras observações sobre o que viveu e as emoções que experienciou.

De forma subtil, Rosa Lobato de Faria expõe enorme fragilidades femininas e alguns segredos que as mulheres guardam e que nunca partilham e dá palavras às emoções e aos pensamentos mais escondidos, que raramente são expostos no quotidiano com esta ligeireza. Nesse aspecto, Camilla é uma personagem mais que complexa: quase acreditamos que ela existe. Para além disso, esta tridimensionalidade da personagem é sempre acompanhada por sentimentos e acontecimentos que sucedem na vida real, reforçando o carácter de realismo que encaramos durante todo o livro.

Não lemos só sobre o amor. Lemos sobre a perda, sobre o sonho, sobre a morte. Lemos sobre os fantasmas que perseguem as pessoas durante toda a vida, que só elas sentem mas que temem que sejam perceptíveis a terceiros, como se o simples peso na consciência o tornasse visível. Lemos sobre a ilusão, nomeadamente quando a protagonista se convence que o sexo pago não a torna pior pessoa, mas em alguém cujas circunstâncias a guiaram e a absolvem dessa culpa. Lemos sobre, e passo a citar, “a lógica de crime e castigo que a vida não tem”. Lemos sobre o que as portas escondem, narradas de forma a se perceber que todos mentem, todos amam, todos sofrem, todos lutam, todos são o centro do seu mundo. Estes medos e dúvidas são claramente confessados em passagens como esta (atenção que a citação tem spoilers):

“Atraiçoei o Emídio em pensamentos e ele morreu. Arrastei o André para a prisão e sabe Deus que desgraças o esperam. Destrocei a vida do Salomão pela minha fraca cabeça, o meu egoísmo, a minha incapacidade de me controlar. Não sei como penitenciar-me de tudo isto e os meus pecados ainda não acabaram. Agora sinto que abandonei o Carlos Eduardo, cada vez o acho mais distante, embora venha ver-me duas ou três vezes por ano. Fui uma má mãe, uma má esposa, e uma má mulher. Porque é que não percebemos que erramos quando estamos a errar e só mais tarde o remorso nos cai em cima com uma força esmagadora e nos amargura o resto da existência? A paixão não explica nem desculpa tudo. Quis tanto ser eu, ter uma vida própria, correr os meus próprios riscos, quis transgredir, conhecer os meus limites e, se por um lado posso dizer que vivi, por outro direi que morri mil vezes.”

Para além desta exposição da condição feminina que é, também, transversal ao Homem, Rosa Lobato de Faria não se coíbe de, na forma mais crua e no momento mais inesperado, desferir golpes fatais e dolorosos, tornando a personagem principal mais resistente e frágil em simultâneo e esclarecendo que esta é uma história de vida, não um conto de fadas.

Embora as histórias românticas não sejam o meu tipo preferido de leitura, fiquei muito agradada com “Os três casamentos de Camilla S.” e com a sua crueza na exposição da fragilidade humana, embora tenha tido, inicialmente, alguma resistência à forma de escrita da autora. Ao fim dos primeiros capítulos, mergulhei na sua escrita cantada e encantei-me com a sua dose de frases poetizadas.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 1999
Páginas: 208
Editor: Edições Asa
ISBN: 9789724119045
Colecção: Finisterra