Tema a tema – Tempo

Tema a tema

Por sugestão da Lívia, o tema desta semana é o Tempo. Este conceito tem algo de muito curioso e é muito complexo: há o tempo como medida, o tempo como dimensão, o tempo como Era, o tempo como oportunidade, o tempo sideral, o tempo na linguagem e na música… É uma noção apaixonante que encerra tantos significados e tantas ideias que a sua discussão pode perpetuar-se infinitamente no tempo!

Universo Numa Casca de Noz, de Stephen Hawking

O autor de “Uma Breve História do Tempo” (publicada em 1998, traduzida em 40 línguas, e que já vendeu para cima de 25 milhões de exemplares), um dos nomes maiores da Física à escala planetária, resolveu escrever um novo livro, “O Universo numa Casca de Noz”, onde nos dá conta (de um modo simples e fácil para os leigos – o cientista reconhece mesmo, no prefácio a este novo livro, que o anterior não seria muito fácil de perceber para a maioria das pessoas e se impunha escrever um outro, que todos pudessem entender) das “últimas do reino da Física”.

Começa com uma breve explicação da teoria da relatividade e das leis básicas que regulam o universo e, a partir daí, analisa diversos tópicos da nossa contemporaneidade, como os buracos negros ou as viagens no tempo, ou como no futuro se interligarão a vida humana e a vida tecnológica. Escrito com humor, referindo episódios da sua vida (que é uma lenda e um exemplo; o cientista vive numa cadeira de rodas desde os vinte anos, devido a doença degenerativa neurológica, e, para além da genialidade, é um exemplo de persistência, coragem e optimismo), e com uma série de fotografias a acompanhá-lo, o livro obteve o prémio Avensis, o mais importante galardão para as obras científicas.

Breve História do Tempo, de Stephen Hawking

Os dez anos passados desde a sua publicação em 1988, o livro de Stephen Hawking tornou-se uma referência incontornável da divulgação científica, com mais de 9 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Essa edição encontrava-se no limiar do que era então conhecido acerca da natureza do universo. Mas a última década tem assistido a avanços extraordinários na tecnologia de observação dos mundos micro e macroescópicos, confirmando muitas das previsões teóricas do professor Hawking. Com o intuito de incluir os novos conhecimentos revelados por essas observações no texto original, o autor escreveu uma nova introdução, actualizou os capítulos originais e acrescentou um capítulo inteiramente novo sobre o tema fascinante dos buracos de verme e das viagens no tempo.

“A Breve História do Tempo” conduziu habilmente os não-cientistas de todo o mundo na busca contínua dos segredos escondidos no coração do tempo e do espaço. Esta edição mostra claramente o motivo pelo qual o eloquente clássico do professor Hawking transformou a nossa visão do universo.

Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

Há livros que começam com uma frase e nunca mais a largam, numa viagem obcecada pelo seu significado. É assim este desfiar de memórias e vidas, distribuído por sete volumes, que o francês Marcel Proust deixou como testamento de uma época e de uma filosofia particular e o poeta Pedro Tamen traduziu com delicadeza. Como afirmou o poeta e tradutor Pedro Tamen em entrevista a Maria da Conceição Caleiro (Público, Mil Folhas, 21/6/03), “não é possível contar [‘Em Busca do Tempo Perdido’] a ninguém, não existe como história, há meia dúzia de peripécias, de personagens… Ao nível das peripécias há muitas coisas apaixonantes. As mutações quase rocambolescas das personagens, o que era Odette e o que Odette vai sendo ao longo das 3000 páginas… Mas não é isso que interessa. O que interessa é o que isso significa, é o facto de a vida, o mundo, o tempo correr mais depressa do que nós, e no fundo só podermos descobrir o sentido disso quando o tornamos arte, quando o concretizamos em literatura.  (…) [‘Em Busca do Tempo Perdido’] é a criação de um universo, no sentido mais universal que a palavra possa conter, através da linguagem.”

Como Construir Uma Máquina do Tempo, de Paul Davies

E se pudéssemos construir uma máquina que transportasse um ser humano através do tempo? Fantasia pura? Não, diz Paul Davies, e explica, neste livro, a ciência necessária para que isso possa ser conseguido. Para visitar o futuro, apenas necessitamos de uma pequena ajuda da gravidade e de uma nave espacial que possa viajar quase à velocidade da luz no vácuo. Mas para regressar ao passado a melhor aposta é acharmos um buraco negro conveniente equipado com um buraco-de-minhoca navegável, embora, se não tivermos cuidado, possamos ver-nos arrastados para uma viagem sem regresso, para parte nenhuma. Depois de estabelecer os fundamentos teóricos, Davies expõe um processo em quatro fases para construir uma máquina do tempo e pô-la a funcionar. Mas, se podemos viajar no tempo, poderemos também vislumbrar o futuro e actuar de modo a modificá-lo? Ou alterar o passado, criando todas as espécies de paradoxos bizarros? E, sendo realizáveis as viagens no tempo, por que não nos deparamos com multidões de turistas do tempo a visitar-nos vindos do futuro? Espantosamente inventivo e teoricamente bem fundamentado, Como Construir uma Máquina do Tempo é divulgação científica da melhor – esclarecedora, divertida e estimulante do pensamento.

Companheiro de viagens sem igual, Paul Davies é actualmente professor do Imperial College, em Londres, e professor associado da Universidade de Queensland. Obteve o doutoramento na Universidade de Londres e trabalhou nas Universidades de Londres, Cambridge, Newcastle upon Tyne e Adelaide. Os seus interesses em investigação centram-se nos campos dos buracosnegros, da cosmologia e da gravidade quântica. Autor de uma importante bibliografia, foi-lhe atribuído, em 1995, o prestigiado prémio Templeton pelos seus trabalhos sobre o significado filosófico da ciência e recebeu, recentemente, a Medalha de Kelvin do Instituto de Física do Reino Unido. Vive na Austrália.

«O objectivo de um relógio é registar objectivamente o tempo, indicar-nos o tempo. Implícita nesta visão está a divisão do tempo em passado, presente e futuro: o passado, banido para a história; o futuro ainda enevoado e informe, e o presente – o agora, o instante rápido da verdadeira realidade. Esse agora tão importante é considerado como sendo o mesmo em qualquer instante, em todo o universo: o vosso agora e o meu agora são idênticos onde quer que estejamos e qualquer que seja a nossa ocupação. Tal é a percepção do tempo pelo sentido comum: o que usamos na nossa vida quotidiana. Poucas pessoas pensam no tempo de forma diferente. Mas isto está errado – séria e profundamente errado.»

A Mulher do Viajante do Tempo, de Audrey Niffenegger

Este livro é, antes de mais, uma celebração do poder do amor sobre a tirania inflexível do tempo. Para Henry, essa inexorabilidade assume contornos estranhamente inusitados: ele é prisioneiro do tempo, mas não como o comum dos mortais. Cronos preparou-lhe uma armadilha caprichosa que o faz viajar a seu bel-prazer, para uma data e um local inesperados, onde aparece completamente desprovido de roupa ou de outros bens materiais. A Clare, sua mulher e seu grande amor, resta o papel de Penélope, de uma Penélope eternamente reiterada a cada nova partida de Henry para onde ela não pode segui-lo. Quando Clare e Henry se encontram pela primeira vez, ela é uma jovem estudante de artes plásticas de vinte anos e ele um intrépido bibliotecário de vinte e oito. Clare já o conhecia desde os seis anos… Henry acabava de a conhecer… Estranho?!

Operação Cavalo de Tróia, de J. J. Benitez

Existirão fronteiras intransponíveis entre o passado, presente e o futuro? Não será o passado mais do que uma memória? O presente extinguir-se-á como o passado? E o futuro, já existirá nesse momento? “Operação Cavalo de Tróia” é uma colectânea de dossiers divulgados em oito livros do autor J. J. Benitez, que narra uma missão da Força Aérea dos Estados Unidos na qual um módulo chamado “berço” é levado ao ‘passado’ com o propósito de comprovar a existência de Jesus Cristo. A missão é chamada de Operação Cavalo de Tróia. Um major, de nome não revelado, e um piloto voltam no tempo até à época de Jesus Cristo e presenciam muitos factos narrados na Bíblia. Na verdade, a Bíblia é tomada como referência, por conter as datas e eventos da época. Fornecem, também, dados da sociedade da época: costumes, leis (principalmente as leis do judaismo), crenças (judaícas e pagãs, geografia, ambiente, etc). O major, que durante a viagem adopta o nome de Jasão, é escolhido para a operação pelo seu cepticismo e imparcialidade, mas quando encontra Jesus – o Mestre – é tocado profundamente por sua mensagem e a narrativa ganha um tom delicado e humano.

As Esquinas do Tempo, de Rosa Lobato de Faria

“Quando Margarida chegou à Casa da Azenha teve aquela sensação, não desconhecida mas sempre inquietante, de já ter estado ali.” Margarida é uma jovem professora de Matemática. Um dia vai a Vila Real proferir uma palestra e fica hospedada num turismo de habitação, casa antiga muitíssimo bem conservada e onde, no seu quarto, está dependurado o retrato a óleo de um homem que se parece muito com Miguel, a sua recente paixão. Por um inexplicável mistério, na manhã seguinte Margarida acorda cem anos atrás, no seio da sua antiga família. Sem perder consciência de quem é, ela odeia esta partida do tempo. Mas aos poucos vai-se adaptando. Conhece o homem do quadro e apaixona-se por ele. Quando ele morre num acidente, Margarida regressa ao presente. Romance simultaneamente poético e fantástico, As Esquinas do Tempo é mais uma prova do indesmentível talento literário de Rosa Lobato de Faria.

A Cavalo no Tempo, de Luísa Ducla Soares

Uma série de poemas para os adolescentes lerem, admirarem o ritmo e pensarem nos temas abordados! Com risos e ritmos, Luísa Ducla Soares ensina a pensar. O nonsense como forma de dar a ver os desacertos do mundo: o racismo, a guerra, a solidão, a violência. Fio condutor desta guirlanda de poemas: o tempo – os tempos de agora, os tempos antigos, o tempo do relógio…

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Excerto – Dar significado ao tempo:

Um dos prazeres humanos menos observados é o de preparar acontecimentos à distância, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma construção, uma lógica, um começo e um fim. Este é quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si próprio. Isto aplica-se tanto à construção de uma resposta pronta como à de uma vida. E o que é isto, senão a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.

O prazer de narrar e de escutar é o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gráfico. A meio de uma narrativa volta-se às premissas e tem-se o prazer de encontrar razões, chaves, motivações causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso próprio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta construção dá, em substância, um significado ao tempo. E o narrar é, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.

Cesare Pavese, in ‘O Ofício de Viver’