Os profetas, de Alice Vieira

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No ano de 1533, sendo rei D. João III, vivia na ilha de Porto Santo um homem chamado Fernão Nunes, por todos chamado Fernão Bravo. Na mesma ilha vivia uma sobrinha sua, moça de dezasseis ou dezassete anos, chamada Filipa Nunes, que estava havia alguns anos na cama, paralítica. Dizendo-se inspirados pelo Espírito Santo, tio e sobrinha declararam-se profetas. A sua pregação convenceu pobres e ricos, que renunciavam às suas vestes preciosas e partilhavam os alimentos, e até eclesiásticos, que na missa invocavam «São Pedro e São Paulo e o beato profeta Fernando». A heresia não podia ser tolerada. Após dezoito dias de «abusões» dos falsos profetas, os hereges foram presos e levados para a vila de Machico, sendo depois enviados para Évora. Fernão e Filipa foram aí expostos à porta da Sé, ela vestida e ele nu da cintura para cima, com um letreiro dizendo «Profeta de Porto Santo».

Este é um facto histórico, que conhecemos pela pena de Gaspar Frutuoso e ainda hoje é bem recordado em Porto Santo. Com base neste facto histórico, Alice Vieira recria de forma vívida os antecedentes e os dias exaltantes da pregação, os tormentos e mortes infligidos pelas autoridades, e ainda a vida na Lisboa quinhentista, cidade cosmopolita e bela mas sobre a qual se adensam as nuvens da Inquisição e do desastre nacional. Fiel à História mas não ocultando simpatias, com a voz desassombrada e a mestria da escrita que unanimemente se lhe reconhecem, Alice Vieira oferece-nos em Os Profetas um romance histórico forte que não deixará de empolgar – e comover – os leitores.

Apreciação

“Os profetas” é de um registo histórico que narra o percurso de Fernão e Filipa Nunes, tio e sobrinha, que percorrem a ilha de Porto Santo a declarar a palavra da verdade e da libertação, quais profetas inspirados pelo Espírito Santo, depois de a rapariga ter sido capaz de andar após anos de paralisia. Depois de poucas semanas a pregar a palavra, são presos e levados para Évora para serem punidos e, mais tarde, encaminhados para Lisboa, uma cidade  retratada como moderna, culta e imponente, que sofre do terror da Inquisição e do sofrimento e medo consequente.

Trata-se de um romance simplista, sem grandes floreados ou pormenores, que nos conta o percurso de Fernão e Filipa pela voz de uma apaixonada contadora de histórias. A trama é simples, mas dotada de uma enorme fragilidade concedida pelo realismo de sentimentos da protagonista e pelas dúvidas e emoções que a assolam durante toda a sua vida.

Conhecemos com detalhe a história de Filipa, que assume o papel de protagonista, entre a sua infância passada entre ovelhas e vacas, a adolescência deitada numa cama, o início da vida adulta como uma herege e o resto da vida como uma mulher muda e quase invisível. Filipa detecta os momentos que mudaram a sua vida e que são os responsáveis por estas transições drásticas, ponderando vagamente sobre eles quando no-los conta e aceitando-os como parte do seu destino, sem questões ou ressentimentos. Esta postura dormente e desinteressada relacionam-se com a sua aceitação dos factos e com a conformidade de quem não pode voltar atrás no tempo, embora a rapariga carregue, até à sua morte, o peso da dor que lhe foi infligida e a incompreensão da sua cura miraculosa em Porto Santo.

Parte da minha infância foi passada entre os livros de Alice Vieira, pelo que esperei ansiosamente por abrir as páginas d'”Os profetas”, o primeiro romance que não pertence à categoria de literatura infanto-juvenil da autora. Independentemente do género e formato adoptado para o mais recente romance, é muito difícil não identificar as características da escrita de Alice Vieira, visíveis a olho nu para quem conhece a sua obra. As pausas, as observações e a simplicidade de narração estão claramente presentes e conferem ao livro um pequeno trago de nostalgia.

Ficha técnica

Edição/reimpressão: 2011
Páginas: 172
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722124447