Os segredos do saber

Todos os dias me arrastava até à gruta – e lá me desvendou os segredos do saber.
Com ele aprendi a reconhecer as letras.
E juntar as letras em palavras.
E as palavras em frases.
E as frases enchiam muitas folhas de papel, e ensinavam-nos a ter novos pensamentos, e a ver coisas que nunca tínhamos visto antes.
Os meus olhos abriam-se, de repente, para novos mundos, que tinham estado sempre à minha frente, só que eu não os podia compreender.
E passávamos longas horas a falar do que os livros nos tinham ensinado.
E a ler sobre viagens a terras estranhas por onde os nossos marinheiros se aventuravam, a mando do Infante.
E a comentar as Escrituras, o que Nuno Vaz e todos os padres da ilha, do alto dos seus púlpitos, diziam ser crime sem perdão.

Alice Vieira, in ‘Os Profetas’