The comfort of strangers (1981), Ian McEwan

O escritor Ian McEwan é um dos responsáveis pela renovação da linguagem na literatura britânica contemporânea, em que se alinham nomes como Martin Amis, Julian Barnes e Kazuo Ishiguro. Com um raro talento para perturbar, as suas obras são alegorias do mal-estar europeu, construídas com detalhes sinistros do quotidiano. Ao Deus-dará é uma fábula irónica e trágica sobre os relacionamentos afectivos.

Ian McEwan narra os esforços de um jovem e entediado casal inglês, Colin e Mary, numa temporada de férias, tentando trazer vitalidade à sua rotina conjugal. O encontro com o morador de um palazzo veneziano revela um anfitrião excêntrico, simpático, carente, casado com uma estrangeira e protagonista de uma estranha biografia. Este é o ponto de partida para uma aventura que mistura paixão, culpa, obsessão e loucura, arrematada com toques sadomasoquistas.

A linguagem económica de McEwan justapõe banalidade e perversidade, aliada a imagens de grande impacto visual, resultando em fascínio e estranhamento numa trama que explora os limites da sexualidade e da masculinidade. Assim como outras obras do autor, esta também revela a rara mestria de McEwan para surpreender e discutir a maldade com uma prosa emocionante. Ao Deus-dará foi adaptado para o cinema com roteiro de Harold Pinter e direcção de Paul Schrader.

Apreciação

Passado numa cidade desconhecida (que, pela descrição, se assemelha a Veneza), “Ao deus-dará” conta a história de Colin e Mary, um casal turista inglês que se aventura em ruas desconhecidas e misteriosas, ilustrando com clareza o tipo de experiência que os estrangeiros vivem em terras alheiras: a rotina no hotel, a descoberta de paisagens, a confusão ao se perderem por não usarem mapa e a necessidade de confiar em pessoas que os acolhem. Colin e Mary são um casal apaixonado, fervente, compreendido e tranquilo que, por obra do destino, se encontra com um residente desta cidade misteriosa. Robert recebe-os num momento menos favorável da sua viagem e disponibiliza-se insistentemente para que todos mantenham uma relação próxima. Com o passar do tempo, este relacionamento revela-se doentio e adivinha um desfecho macabro.

“Ao Deus-dará” é o segundo romance de Ian McEwan que, lido depois de obras exemplares como “Expiação”, deixam a desejar em termos de complexidade no enredo e de descrições tão ricas e ilustrativas. Mesmo assim, este pequeno livro não passa despercebido no que diz respeito a suspense, resultante da complexidade das personagens e da frivolidade descritiva.

Em livros como “O Jardim de Cimento”, Ian McEwan habitou-nos a uma narração absolutamente gélida sobre acontecimentos do dia-a-dia e em “Ao Deus-dará” autor repete essas investidas com a descrição de momentos igualmente frios e dolorosos (normalmente designados como “murros no estômago”) mas com menos sucesso. Essa quebra no ritmo acontece a partir de meio do livro, quando começamos a desvendar o mistério que envolve o casal que acolhe Colin e Mary. Na verdade, depois de passagens rápidas e chocantes, o ritmo é quebrado com acontecimentos de menor importância, o que retira o suspense anteriormente criado e que desilude por falta de constância.

Este livro foi adaptado para o cinema por Paul Schrader em 1990 e conta com Christopher Walken, Rupert Everett e Natasha Richardson para retratar esta história mórbida. No filme, a acção decorre em Veneza. Podem aceder ao trailer aqui.

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Book descrition

As their holiday unfolds, Colin and Maria are locked into their own intimacy. They groom themselves meticulously, as though someone is waiting for them who cares deeply about how they appear. When they meet a man with a disturbing story to tell, they become drawn into a fantasy of violence and obsession.

Opinion

“The comfort of strangers” tells us about Colin and Mary, an English couple that is on vacation in an unknown city (the description reminds us of Venice) who ventures in mysterious streets, illustrating with distinctness the kind of experience that foreigners live abroad: hotel routines, landscape finding, the normal confusion when one is lost without a map and the need of trusting people one doesn’t know. Colin and Mary are a passionate, torrid and understanding couple that meet a resident in this mysterious city. Robert hosts them at a difficult time and insists that they should have a close relationship but as time goes by this affair turns sick and with a macabre outcome.

“The comfort of strangers” is Ian McEwan’s second novel. Being read after other books of the author, such as“Atonement”, this one leaves us unsatisfied due to the lack of plot intricacy and unsatisfying descriptions. Even so, this little book doesn’t go unnoticed when we start feeling its suspense, which is the result of the characters complexity and the description frivolity.

In Ewan’s “The cement garden”, for instance, we get used to his freezing cold narrative about quotidian shocking events. He also does that in “The comfort of strangers” but with quite different results. The rhythm is snapped from the middle of the story when we start to unveil the mystery that involves the couple that hosts Colin and Mary. Actually, after some quick and shocking passages, the rhythm decelerates with events of minor importance, decreasing the suspense that previously prevailed and disappointing for its inconstancy.

This book was adapted into a movie by Paul Schrader in 1990 and the cast is composed of great actors: Christopher Walken, Rupert Everett and Natasha Richardson. In the movie, the story is set in Venice. You can access the trailer right here.