Jean Barois (1913), Roger Martin du Gard

“O drama de João Barois” resume, em si, toda a angústia do pensamento moderno. É um encadeamento de problemas que se põem em equação e se projectam para o futuro: o insolúvel conflito da religião e da ciência; os direitos da Razão contra as razões dominantes: as contradições da Justiça humana e os caminhos da Justiça ideal; os direitos da Inteligência contra a força bruta; os ódios, por vezes tão cruéis e imprevistos, entre o individual e o social.

Seguir a trajectória de Barois, através de sua juventude religiosa e inquieta, através de seu conflito conjugal, do ambiente escaldante do “Semeador”, do tumulto febril que foi toda questão Dreyfus, da imprevista aproximação da filha e, finalmente, da sua morte, na eloquente contradição com o testamento espiritual, que escrevera em pleno vigor físico e mental – eis um espectáculo de excepcional grandeza, que só um romancista de génio seria capaz de conceber e de realizar.

“O drama de João Barois” não é um romance qualquer. É um monumento literário, verdadeira obra-prima da literatura universal – uma das mais autênticas glórias do espírito humano.

Apreciação

Como começar a falar de um livro de referência na literatura e na reflexão sobre a condição humana, que valeu o Prémio Nobel da literatura ao seu autor? Aliás, como analisar qualquer grande obra clássica? “O drama de João Barois” é um livro imperdível que deve ser apreciado e lido devagarinho, com ponderação e tranquilidade. Terei de vos falar resumidamente da história do início ao fim, de forma a conseguir exprimir claramente a importância deste livro e o apreciar da forma mais fiel possível.

Esta obra conta-nos a história de João Barois, um ateu militante que luta durante toda a sua vida contra a religião. Entre a intervenção em processos judiciais como o de Dreyfus, a criação de um jornal e a presença em conferências, Barois apregoa o ateísmo como o canal do livre-pensamento e da libertação dos dogmas católicos. Explica o catolicismo e questiona as suas fundações, a sua evolução secular e a forma como envolve os seus seguidores de forma tão intensa e inquestionável, contrapondo, pelo contrário, a importância da ciência para explicar a humanidade e a sociedade.

Ao longo da sua vida, Barois cruza-se com ateus e católicos e arrelia-se pela intolerância que estes últimos têm face às pessoas que não praticam religião – lembremo-nos que a história toma lugar no final do século XVIII e que a visão sobre a religião não tinha a abertura hoje existente na Europa. Mas também Barois é intolerante e corta relações com quaisquer hábitos religiosos, pelo que esta dificuldade de aceitar a religião da sua família o leva a separar-se bruscamente da sua mulher e a começar uma nova vida sozinho, “liberto”.

Uma das grandes questões abordadas no livro pelo protagonista e pelos seus amigos é a influência que a educação tem na vida religiosa das pessoas, porque determinará a forma como estas viverão durante toda a sua vida e como encararão as dificuldades e enfrentarão o seu grande e derradeiro medo: a morte. Por outro lado, denotamos ainda um grande confronto geracional e, à medida que Barois envelhece, sente-se afastado do seu propósito e questiona a sua (in)capacidade ao conferenciar sobre o ateísmo.

Depois de um acidente em que Barois quase morre, dá-se uma viragem na sua vida, o que o leva a escrever o seu testamento aos 40 anos. Afirmando no mesmo que está presente de todas as suas faculdades mentais, Barois reforça ser ateu, nega qualquer existência maior e afirma que, conhecendo como se conhece, não o devem levar a sério quando se converter ao catolicismo na hora da sua morte porque, afinal, será o medo da morte a fazê-lo tentar consolar-se através da voz da doença.

Envelhecendo, Barois questiona a sua vida e a influência que quis ter mas que considera não ter alcançado, perante a nação francesa. Será que conseguiu tocar as pessoas? Será que o seu papel foi cumprido e que influenciará o futuro ou que apenas foi tempo perdido? Estamos, pois, perante um livro que nos dá a conhecer a perspectiva ateia e a perspectiva católica, num debate intenso sob a forma de um romance apaixonante e com uma enorme frieza na meditação sobre a condição humana. É imperdível.

Book description

“Jean Barois” traces the evolution of a scientist and journalist from the religion of his youth to his espousal of science as the only source of truth and certainty and, finally, to his return in weakness and old age to Catholicism. The novel strives to be a symbolic concentration not only of a man’s life but also of a spiritual crisis in pre-World War I France.

Opinion

How can I begin writing about a book that is a reference in literature and in the reflection about the human condition that gave his author the literature Nobel Prize? How can one analyze any great classic book? “Jean Barois” is a must-read book that should be read slowly, thoughtfully and quietly. I will have to write you about its story until its end, in order to express clearly the importance of this book in the most accurately way possible.

This book tells us the story of Jean Barois, a militant atheist that struggles against religion all his life. He proclaims atheism as a type of liberation and as the way to achieve a moral freedom. He intervenes in the Dreyfus judicial process, the creates a magazine and he participates in conferences. He explains catholicism and questions its foundations, it centennial evolution and the way it involves its followers in such an intense and unquestionable way, contrary to the way science explains mankind and society.

Throughout his life, Barois is related to atheists and catholics and is troubled by the catholics intolerance – we must remind that this story takes place in the ending of the XVIII century and that the perspective over religion wasn’t as easy as it is today in Europe. But Barois is equally intolerant and decides to step way from any religious habits. His difficulty accepting the religion of his family leads him to a hard separation from his wife and to start a life alone.

One of the greatest subjects addressed in the book by Barois and his friends was the influence that religions has in society’s religious life, because it will determine the way people will live their whole life and how they will deal difficulties and their ultimate fear: death. On the other hand, we also understand the gap between generations and, as Barois grows older, he feels that he didn’t achieve his purpose and starts questioning his inability defending atheism.

After an incident that almost kills him, Barois’ life changes, which leads him to write his testament when he is approximately 40 years old. Clarifying that he is in possession of all his mental faculties, he repeats he is an atheist, he denies any higher existence and he states that, knowing himself as he does, he mustn’t be taken seriously when he converts to catholicism in the moment of his death, just because he will be afraid to die and will be trying to comfort himself through the voice of his disease.

While Barois is growing older, he questions his life and the influence that he always wanted to have and that he believes he didn’t achieve. Was he able to touch people? Was his role accomplished? Will he influence the nation’s future or did he just waste time? Long story short, this is a book that gives us atheistic and religious perspectives, in an novel with an intense debate and with a great crudity in the meditation about the human condition. It must be read.