Necessidades especiais * Special needs

São muitos os livros que contam histórias de vida que nos parecem longínquas. Contudo, têm surgido ao longo do tempo livros que partilham testemunhos de pais e médicos acerca do que é viver diariamente com crianças com necessidades especiais que, depois de uma leitura atenta, descobrimos que possuem tanta magia e inocência todas as outras.

There are many books that tell biographical stories that seem so far away… Nevertheless, many books that share experiences of parents and doctors with children with special needs are edited frequently. After an attentive reading, we find out that these children are as magical and innocent as all others.

The curious incident of the dog in the night-time (a.k.a. O estranho caso do cão morto, 2003), Mark Haddon

Referido pelo The Times como «um dos melhores livros de 2003» “O Estranho Caso do Cão Morto” é muito divertido. Conta a história de Christopher Boone, um miúdo autista, com apenas 15 anos que vive enredado no seu próprio mundo, longe de tudo e de todos. Possui uma memória fotográfica e é um aluno excelente a matemática e a ciências mas detesta o amarelo e o castanho e não suporta que alguém lhe toque. Absorvido pela sua doença, Christopher desperta um dia quando encontra o cão da sua vizinha morto, no meio do jardim, com uma forquilha atravessada. A partir daqui nunca mais será o mesmo pois só descansará quando descobrir quem cometeu tão atroz crime. Uma obra de humor irónico, que irá em breve ser adaptada ao cinema, pois os direitos para filme foram já adquiridos pelos produtores de Harry Potter, contando com Brad Pitt como actor.

Christopher John Francis Boone knows all the countries of the world and their capitals and every prime number up to 7,057. He relates well to animals but has no understanding of human emotions. He cannot stand to be touched. And he detests the color yellow. This improbable story of Christopher’s quest to investigate the suspicious death of a neighborhood dog makes for one of the most captivating, unusual, and widely heralded novels in recent years.

À procura de um lugar (a.k.a. Seeking a place, 2010), Fátima Marinho

O nascimento do Vicente transformou tudo e todos à sua volta. Chovia no dia 25 de Abril de 2000. Portugal parou para lembrar o valor da liberdade e, logo após o seu nascimento, também a família de Vicente parou debruçada sobre o abismo. Fora concebido numa viagem aos Alpes suíços e a sua vinda preparada com detalhe. Mas Vicente trazia consigo uma revelação esmagadora. Tinha trissomia 21. O dia do seu nascimento foi o acto inaugural de mil desafios, mas também o início de vidas maiores que se escondiam no conforto e na previsibilidade dos dias. Às vezes a felicidade veste-se de breu só para que o sol brilhe mais quando rompe a alva.

The birth of Vicente transformed everything and everyone around him. It was raining on the 25th of April 2000. Portugal stopped to remember the value of freedom and, immediately after his birth, Vicente’s family too stopped and stared into the abyss. He was conceived on a trip to the Swiss Alps and his arrival was prepared in detail. But Vicente carried a crushing revelation. He had Down’s syndrome. The day of his birth was the first of a thousand challenges, but also the beginning of greater lives that hid in the comfort and predictability of the days. Sometimes happiness is dressed in pitch black only for the sun to shine at dawn.

One child (a.k.a. A menina que nunca chorava, 1980), Torey Hayden

Após ter figurado semanas consecutivas nas tabelas de livros mais vendidos em Portugal, “A Criança Que Não Queria Falar” é alvo de uma continuação. Com 8 500 000 exemplares vendidos no Reino Unido relativos ao primeiro livro, traça a história verídica de uma criança vítima de abusos que deixou de comunicar com o mundo. Neste segundo volume, encontramos Sheila já com treze anos e a professora que a ajudou na altura a lidar com o seu bloqueio. Inicialmente a adolescente mal se recorda da professora mas lentamente as memórias vêm à superfície reavivando sentimentos hostis como o abandono, insegurança e experiências traumáticas. Apesar de ser um relato com contornos negros, traz-nos surpreendentemente uma versão vencedora de coragem e perseverança. Inicialmente a autora não quis escrever a sequela, mas contrariamente às expectativas e num tributo a Sheila publicou a continuação de uma história de vida comovente.

“One child” did not start out as a book. Torey wrote it as a personal story to record for herself her extraordinary time with Sheila. It was only after the story was completed that she considered publishing it. “One child” is Torey’s first book and it was the first thing she ever submitted for publication. The story itself was written very quickly – only eight days from start to finish. “One child” is currently in 28 languages and has been adapted in several diverse forms, including a one-act opera, a Japanese puppet play and a TV movie.

A friend like Henry (a.k.a. Um amigo chamado Henry, 2003), Nyala Gardner

Quando Jamie e Nuala Gardner escolheram um cachorrinho para o filho Dale, não eram uma família como qualquer outra à procura de um animal de estimação. O autismo de Dale era tão profundo que o mais pequeno desvio à sua rotina podia provocar-lhe um assustador acesso de fúria. A vida familiar fora praticamente devastada pela sua doença e os Gardner passavam a maior parte do tempo a tentar entrar no mundo autista do filho e dar-lhe o auxílio de que ele tanto precisava. Porém, depois de anos de esforços constantes e progressos lentos, as suas vidas transformaram-se ao acolherem um novo membro na família, Henry, um cachorrinho golden retriever lindíssimo. Os laços criados entre Dale e o seu cão ajudaram finalmente os pais deste menino a atingir o objectivo quase milagroso que tanto haviam procurado e a proporcionar-lhe uma vida preenchida e feliz.

This is the inspiring account of a family’s struggle to break into their son’s autistic world – and how a dog made the real difference. Dale was still a baby when his parents realised that something wasn’t right. Worried, his mother Nuala took him to see several doctors, before finally hearing the word ‘autism’ for the first time in a specialist’s office. Scared but determined that Dale should live a fulfilling life, Nuala describes her despairat her son’s condition, her struggle to prevent Dale being excluded from a ‘normal’ education and her sense of hopeless isolation. Dale’s autism was severe and violent and family life was a daily battleground. But the Gardner’s lives were transformed when they welcomed a gorgeous Golden Retriever into the family. The special bond between Dale and his dog Henry helped them to produce the breakthrough in Dale they had long sought. From taking a bath to saying ‘I love you’, Henry helped introduce Dale to all the normal activities most parents take for granted, and set him on the road to being the charming and well-adjusted young man he is today. This is a heartrending and fascinating account of how one devoted and talented dog helped a little boy conquer his autism.

Gifted children (a.k.a. Crianças sobredotadas, 1997), Ellen Winner

As crianças sobredotadas são objecto de um certo número de ideias feitas, voluntariamente contraditórias. Para alguns, são crianças normais modeladas por pais demasiado ambiciosos que as privam de uma infância «normal»; para outros, pelo contrário, as crianças sobredotadas possuem genes específicos. O seu QI atinge valores vertiginosos que lhes permite brincar tanto com as matemáticas como com a linguagem. E se tudo isto não passasse de contraverdades, e fossem apenas puros fantasmas? A criança sobredotada terá, necessariamente, bons resultados na escola? Quando uma criança de 3 anos domina as leis da perspectiva, devemos contentar-nos com a evocação do seu talento, reservando a qualidade de sobredotada apenas àquelas que são excelentes nas disciplinas ditas nobres? O mundo das crianças sobredotadas é mais complexo do que parece: por detrás do mito, fascinante e inquietante, a autora desta maravilhosa obra revela-nos a realidade de uma infância simultaneamente prometedora e frágil.

In this fascinating book, Ellen Winner uncovers and explores nine myths about giftedness, and shows us what gifted children are really like.Using vivid case studies, Winner paints a complex picture of the gifted child. Here we meet David, a three-year-old who learned to read in two weeks; KyLee, a five-year-old who mastered on his own all of the math concepts expected by the end of elementary school; and Nadia, an autistic and retarded children who are left untouched by the kinds of minimal programs we have today.

Look me in the eye (a.k.a. Olha-me nos olhos, 2007), John Elder Robison

Tal como qualquer criança, tudo aquilo que John Elder Robison mais queria na sua infância era fazer amigos. Mas desde cedo se apercebeu também que os seus estranhos hábitos o afastavam daquilo que era considerado um comportamento «normal». Só aos quarenta anos é que lhe diagnosticaram correctamente uma forma de autismo designada síndrome de Asperger. Olha-me nos Olhos – A minha Vida com Asperger é o seu percurso antes e depois desta revelação – desde as dificuldades de integração até à adaptação a um modo de vida funcional. Uma autobiografia inspiradora para todos aqueles que se sentem fascinados pelo extraordinário poder da mente e do espírito humano.

Ever since he was small, John Robison had longed to connect with other people, but by the time he was a teenager, his odd habits—an inclination to blurt out non sequiturs, avoid eye contact, dismantle radios, and dig five-foot holes (and stick his younger brother in them)—had earned him the label “social deviant.” No guidance came from his mother, who conversed with light fixtures, or his father, who spent evenings pickling himself in sherry. It was no wonder he gravitated to machines, which could, at least, be counted on.

After fleeing his parents and dropping out of high school, his savant-like ability to visualize electronic circuits landed him a gig with KISS, for whom he created their legendary fire-breathing guitars. Later, he drifted into a “real” job, as an engineer for a major toy company. But the higher Robison rose in the company, the more he had to pretend to be “normal” and do what he simply couldn’t: communicate. It wasn’t worth the paycheck. It was not until he was forty that an insightful therapist told him he had the form of autism called Asperger’s syndrome. That understanding transformed the way Robison saw himself—and the world.

Look Me in the Eye is the moving, darkly funny story of growing up with Asperger’s at a time when the diagnosis simply didn’t exist. A born storyteller, Robison takes you inside the head of a boy whom teachers and other adults regarded as “defective,” who could not avail himself of KISS’s endless supply of groupies, and who still has a peculiar aversion to using people’s given names (he calls his wife “Unit Two”). He also provides a fascinating reverse angle on the younger brother he left at the mercy of their nutty parents—the boy who would later change his name to Augusten Burroughs and write the bestselling memoir Running with Scissors. ltimately, this is the story of Robison’s journey from his world into ours, and his new life as a husband, father, and successful small business owner—repairing his beloved high-end automobiles. It’s a strange, sly, indelible account—sometimes alien, yet always deeply human.

Necessidades especiais * special needs

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.  A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.  O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

Eugénio de Andrade, in ‘Rosto Precário’