Inês de Portugal (1997), João Aguiar

Castelo de Santarém, num dia do ano de Cristo de 1359. Enquanto El-Rei D. Pedro I corre a caça pelos campos, os seus conselheiros Álvaro Pais e João Afonso Tello esperam com sombria ansiedade a chegada de dois prisioneiros, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, dois dos “matadores” de Inês de Castro (o terceiro, Diogo Lopes Pacheco, logrou fugir e refugiou-se em França). A esses homens havia sido solenemente prometido perdão, mas o Rei, decidido a vingar a única mulher que amou, quebrou o juramento feito, e agora eles vêm, debaixo de ferros, a caminho de Santarém.

É este o ponto de partida de Inês de Portugal. Mas ao longo das suas páginas é toda a história de Pedro e Inês que João Aguiar reconstrói, abordando pela primeira vez um tema histórico posterior à Nacionalidade e fazendo-o desde logo com um dos mitos maiores da nossa consciência de Nação. O presente romance baseia-se no guião que o autor escreveu, em colaboração com o realizador, para o filme homónimo de José Carlos de Oliveira.

Apreciação

Ao percorrer a minha estante com tantos livros ainda por ler, a minha escolha recaiu sobre “Inês de Portugal”, um pequeno romance acerca da inolvidável história de amor de Pedro e Inês, escrito por João Aguiar e editado em 1997 em Portugal. Foi o primeiro livro que li do autor, que marcou o seu percurso profissional como reputado jornalista e como autor de variados romances históricos, como “O trono do Altíssimo” e “A hora de Sertório”, embora tenha escrito também livros de contos e uma obra não-ficcional.

“Inês de Portugal” é, como refere o autor nas notas finais, não um ensaio de reconstituição histórica, mas um romance acerca do casal Real que ainda hoje toca corações. Com base em factos verídicos, este pequeno livro – de pouco mais de 100 páginas – foi floreado com passagens “fictícias” para retratar de forma completa os acontecimentos históricos que tomaram lugar no reinado de D. Afonso IV e de D. Pedro I, desde o nascer da paixão de Pedro e Inês à exumação do seu corpo, passando pelos vários estágios de dor sentido por El-Rei Pedro aquando da morte da sua amada.

A escrita é tão rica que, de certa forma, completa o enredo e atrbui-lhe um carácter envolvente e apaixonado, retratando fielmente os obstáculos morais que perseguem Pedro e os seus conselheiros: afinal, está em causa a sua honra e o seu nome se Pedro optar por quebrar o juramento que fizera a seu pai e castigar os responsáveis pela morte da Rainha póstuma Inês de Castro.

Ao longo do livro, conhecemos a perspectiva das várias personagens e as suas motivações, o que nos permite ter uma visão muito alargada deste acontecimento trágico e a ocasionar a possibilidade de o leitor julgar os principais intervenientes da história. O livro é dotado de uma enorme simplicidade, com recuos no tempo e no espaço para que acompanhemos e compreendamos claramente todos os passos e decisões que levaram a esta tragédia, incluindo a assumpção de Inês ao destino que a esperará se mantiver o relacionamento com Pedro, o olhar atento de Álvaro Pais e João Afonso, conselheiros do Rei, neste amor proibido e o esforço de Pedro em fazer justiça a todos os níveis, o que o leva a lutar internamente entre a vontade de vingar a morte de Inês sem olhar a meios e a consequências e, pelo contrário, a mandar executar o seu mais próximo amigo depois de cometer adultério.