Jane Eyre (1847), Charlotte Brontë

Charlotte Brontë conseguiu em Jane Eyre uma fusão perfeita entre o realismo e o romance, incorporando dois temas que persistem no inconsistente colectivo porque expressam aspirações humanas permanentes: o mito de Cinderela, a rapariga pobre e oprimida que casa com o príncipe poderoso, e o mito do sucesso: a recém-chegada sofre, persevera e triunfa da adversidade. No entanto, Jane Eyre não é um mero romance de evasão, tem uma verdade e um realismo totais; nos momentos mais empolgantes da acção, os detalhes, como na vida real, são solidamente prosaicos e mesmo o triunfo final de Jane é um triunfo incompleto, à escala humana. O que caracteriza a arte desta grande romancista inglesa, e ainda hoje a impõe à nossa admiração é, essencialmente, ter sabido descer ao mais profundo dos seres, mostrando-nos, na sua verdade integral, o mau e o bom, o forte e o fraco, na complexidade das suas motivações e das paixões que os dominam, a verdade e a profunda riqueza das figuras que construiu, assim como a violência que as agita, e a humanidade de que vibram e que, página após página, não cessa de nos manter suspensos e ansiosos.

Apreciação

Uma das funcionalidades de que gosto bastante no Goodreads são as leituras conjuntas, porque permite que um grupo de pessoas leia um livro em simultâneo e que vá partilhando a sua opinião acerca de cada uma das fases, permitindo que conheçamos novas perspectivas acerca da história e das personagens. “Jane Eyre” foi um dos livros seleccionados e esta semana termina a leitura, pelo que tenho muita curiosidade em conhecer a opinião dos participantes.

Quanto a mim, fiquei muito desiludida. É verdade que se trata de um livro tristíssimo, passado numa época bastante longínqua com uma realidade muito distante da que conhecemos hoje em dia: as mulheres eram socialmente inferiores, a educação era atípica e o relacionamento familiar bastante diferente.

A infância de Jane

Começamos por conhecer a vida de Jane Eyre desde a infância. Contada na primeira pessoa, esta história toma a forma de uma autobiografia escrita, ao que parece, ao longo da sua vida. Inicialmente, damos conta do sofrimento por que Jane passa em casa da sua tia adoptiva e dos seus odiosos primos, que não acolhem devidamente a criança e acabam por a martirizar e lhe incutir os mais diferentes sentimentos sobre si e sobre os outros. Embora Jane relate estes acontecimentos em adulta, conhecemos a sua visão aos dez anos de idade, quando é vítima de abusos verbais e físicos por parte desta família. Aquilo que nos parecem ser maus tratos exacerbados, são na verdade memórias dolorosas de uma criança que se vê numa posição injusta e incompreendida: orfã e solitária, Jane fecha-se em si e não permite que as pessoas lhe cheguem, o que lhe atribui uma postura muito defensiva e agressiva que ajuda a incentivar a antipatia da tia e dos primos em relação a si. Desta forma, Jane habituou-se a sofrer em silêncio e a questionar a sua existência.

Jane acaba por ser levada para uma escola, onde tenta adequar a sua forma de ver o mundo a uma forma de vida muito diferente: regras estritas, horários inquestionáveis, provações físicas duras e colegas intrigantes. Helen Burns acaba por se tornar a primeira e grande amiga de Jane, ajudando-a a aceitar melhor a realidade e a tranquilizar-se perante momentos duros. Helen fala longamente sobre a sua visão sobre o mundo, sobre a aceitação e sobre a necessidade de praticar o bem para alcançar o céu o que, na minha opinião, acaba por me levar a querer saltar algumas passagens, dado o carácter moralista dos seus diálogos. Mesmo assim, adivinha-se que este relacionamento entre Jane e Helen marcará a nossa protagonista durante toda a sua vida.

O livro começa neste cenário muito intenso, o que me deixou com as expectativas muito elevadas: afinal, gosto de personagens tridimensionais que se questionam e que procuram forças em si perante as maiores adversidades.

A mudança

Jane cresce e toma a primeira grande decisão da sua vida: torna-se preceptora. Em pouco tempo, encontra-se a servir uma casa de um aristocrata inglês e a ensinar a sua filha adoptiva, junto de uma equipa de criados muito vasta e com características muito singulares. À medida que o tempo passa, a história perde o carácter tão negativo a que nos habituámos no início, dando lugar a uma descoberta lenta de Jane sobre si, aristocracia, relações sociais e amor, o que abrandou o ritmo da história entre tamanhas reflexões e descrições do que a rodeia. O relacionamento com o seu patrão, Mr Rochester, é um mistério. Ora austero e frio, ora misterioso e envolvente, Mr Rochester levanta o véu de um mistério que, acreditei, seria o fio condutor desta história, envolvendo as suas raízes, a sua família e uma criada aparentemente insana.

Neste momento, lamentei que o livro tenha mudado bruscamente de carácter, transformando um drama pessoal que revela emoções profundas normalmente escondidas numa narração sobre o dia-a-dia de uma mulher que aceitou o seu passado e que vive em paz com o que alcançou no final da adolescência.

A idade adulta

O seu relacionamento com Mr Rochester evolui dramaticamente e Jane afasta-se dele ao o saber ainda casado e guarda da mulher louca que esconde em sua casa, envolto numa recordação melindrada face à sua família. Por mero acaso, que me pareceu um pouco forçado, Jane descobre alguns membros da sua família e recebe uma herança que a permite sustentar-se e orientar independentemente a sua vida. Chegando à idade adulta de Jane e acompanhando as suas mudanças e decisões, foi-me difícil não comparar a envolvência emocional do início do livro com a inércia demonstrada com o passar do tempo e nos capítulos finais. Senti que os acontecimentos em torno da vida de Jane a tornaram impassível e desinteressada e que as reviravoltas no enredo se assemelham um pouco aos argumentos novelescos.