The throwback (1978), Tom Sharpe

Quando Lockhart Flawse veio ao mundo, a sua mãe, uma insaciável e indómita amazona, morreu de parto, recusando-se, até ao fim, a revelar o nome da pai da criatura. O pobre órfão e bastardo foi criado em Flawse Hall, a vasta propriedade dos seus antepassados, pelo nonagenário e excêntrico avô materno e por uma série de estranhos preceptores e governantes que o mantiveram numa total ignorância dos mais elementares factos da vida. Muito jovem casou no alto mar, com a romântica Jessica, uma encantadora rapariga tão ingénua como ele, na mesma cerimónia em que o decrépito e lúbrico avô desposou a mãe de Jessica, ambiciosa viúva, ainda muito bem conservada. E é aqui que verdadeiramente começa a extraordinária carreira do engenhoso Lockhart para conquistar o mundo e lhe impor a sua vontade, não sem antes ter de se desembaraçar de uma dúzia de inquilinos, de um exercito de policias e de funcionários das finanças, de um taxidermista, da própria sogra e de mais um punhado de peças menores, recorrendo à astúcia, à habilidade e às mais modernas conquistas da tecnologia.

Apreciação

Ler este livro é entrar numa espiral imparável de ocasiões completamente delirantes, personagens absurdas e passagens inacreditáveis. Não conhecia o livro (“O triunfo do bastardo” em português), mas sem dúvida que ficou gravado e que o vou referir quando conversar acerca de livros de índole humorística e sarcástica.

Para exemplificar a loucura que é este livro, faço um breve resumo segundo os termos utilizados pelo autor: Lockhart é filho de uma mulher que morreu ao dar à luz, e acabou por ficar a cargo do seu avô, Mr Flawse, porque o seu pai era desconhecido. O avô não é de grandes modéstias e trata as coisas pelo seu nome: o seu neto é o filho da p*ta. Com esta introdução, mergulhamos numa história absolutamente inacreditável onde Lockhart (o filho da p*ta) cria as mais extraordinárias situações para alcançar uma vida desafogada e longe de quem o possa incomodar. Digamos que, para libertar as casas que lhe pertencem, há uma passagem delirante que começa com um homem que, cego pelas dores provocadas pelo spray do forno que o filho da p*ta secretamente lhe pôs num preservativo, utiliza um ralador para tentar tirar o mesmo das suas partes íntimas. Depois disto, não só um cão com LSD ataca toda a gente que se cruza com ele, como uma mulher faz explodir a sua casa ao acender um cigarro enquanto se esconde nas fossas de esgoto, um camião-cisterna despista-se e provoca um acidente de comboio e os polícias que tentam controlar a situação dão por si a disparar sobre cidadãos inocentes que treinam jogadas de golfe.

Tom Sharpe revela uma imaginação sem limites e, melhor que isso, exprime-a com uma enorme facilidade e fluência, permitindo que a leitura adquira um ritmo alucinante e que seja impossível não querer descobrir a próxima artimanha do filho da p*ta. O humor reinante em todo o livro é sarcástico, caustico, satírico, cru e erudito e é um óptimo guia para as personagens que se encontram inevitavelmente em situações de difícil resolução.

Não há muito mais a dizer do livro, a não ser que o procurem e que dêem uma espreitadela. É uma experiência hilariante!