Quinta com cinco * Thursday with five

Hoje é dia de estreia! Finalmente tem início a rubrica “Cinco com quinta”, que consiste na publicação de cinco opiniões de bloggers, críticos e leitores acerca da mesma obra. Espero que gostem e que partilhem sugestões de livros para as próximas semanas.

Today we have a premiere! Finally begins the rubric “Thursday with five”, which consists on posting five different bloggers, critics and readers opinions about the same book. I hope you like it and that you share book suggestions for the next weeks.

Livro * book: Ensaio sobre a lucidez (2004)
Autor * author: José Saramago
Blogs:

  • Biblioteca transmissível
  • Esconderijo do pirilampo
  • nlivros
  • Uma biblioteca aberta
  • Sugestão de leitura

Sinopse * book description:

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%. Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar.

“Ensaio sobre a Lucidez”, o romance de José Saramago, constitui uma representação realista e dramática da grande questão das democracias no mundo de hoje: serão elas verdadeiramente democráticas? Representarão nelas os cidadãos, os eleitores, um papel real, e não apenas meramente formal?

Filipe de Arede Nunes, da Biblioteca Transmissível:

Ensaio sobre a Lucidez é uma obra do Nobel português José Saramago. Como já todos sabemos Saramago é um escritor com um estilo atípico que se reflecte, quer nas temáticas que aborda, quer na forma como dá forma às suas ideias, como as passa para o papel e, sobretudo, na forma como utiliza a pontuação. Como não poderia deixar de ser, Ensaio sobre a Lucidez não foge a esta regra e é um reflexo, em toda a linha, desta forma de escrita do autor.

Saramago é um autor que se destaca pela sua imaginação delirante. Os seus trabalhos são, regra geral, intrincados pensamentos e meditações profundas sobre o significado de mitos, dogmas ou sobre factos históricos ou sociais e Ensaio sobre a Lucidez aborda precisamente a temática referente aos factos de natureza social/política na medida em que se debruça sobre o fenómeno do voto em branco.

Nesta obra encontramos muitos traços kafkianos nomeadamente na abordagem que se faz das consequências uma votação massiva em branco pela população da capital de um país. A questão sobre a procura da verdade permite sempre aos autores enredarem-se num complexo emaranhado e na tentativa de transformarem a realidade no absurdo. A ideia do livro é muito boa mas temos a sensação que Saramago se perde logo no princípio e que depois não se volta a encontrar. É que a obra sugere muitas e interessantes questões que depois acabam por não ter resposta ou pelo menos a resposta que é sugerida não nos satisfez inteiramente.

Ensaio sobre a Lucidez é um bom livro. Talvez não seja fantástico porque esperamos sempre mais do Nobel português, mas para os fãs de Saramago é, provavelmente, um livro a não perder.

Samuel, do Esconderijo do Pirilampo:

Não, não se trata do último livro de José Saramago! Também não é o anterior a esse! E não vou falar da opinião de José Saramago sobre a Bíblia. Agora que se fizeram os esclarecimentos introdutórios que elucidam o leitor sobre a nuance de que aqui não encontrará nada sobre a mais recente obra de Saramago e a polémica que a rodeia podemos prosseguir para “O Ensaio Sobre a Lucidez”.

Imagine-se um país em que, num acto eleitoral, os habitantes da respectiva capital votam em branco. É a partir deste acontecimento que o romance se desenvolve dando-nos a conhecer a reacção da classe política que tenta, a todo o custo, assegurar a sua posição e importância na sociedade. Este livro é uma reflexão sobre a democracia e sobre a incapacidade dela (ou talvez dos seus agentes) de lidar com essa atitude diferente mas possível que é a de exercer o direito de voto não se escolhendo ninguém. Lembro-me de em 2004, quando o livro saiu, ter assistido a uma pequena palestra de José Saramago em Aveiro em que ele reforçou que o livro não era um apelo ao voto em branco (sim, na altura também foi um livro polémico) mas sim uma chamada à reflexão sobre uma situação que, apesar de possível, ninguém nunca abordou.

Para quem já tenha lido o “Ensaio sobre a Cegueira” é de notar que o país onde esse romance se passa é o mesmo onde os habitantes da capital votam em branco e que a mulher, o seu marido médico e o cão das lágrimas voltam a aparecer. Apesar de não ser o livro de Saramago que mais gostei até ao momento, Ensaio Sobre a Lucidez é um livro bastante agradável de ler, chegando a ser, em muitos momentos, um retrato hilariante (e fiel…) da classe política e dos seus estratagemas.

Iceman, do nlivros:

José Saramago, aquando do anúncio deste novo título afirmou ser este um livro capaz de provocar um escândalo dos diabos e que teria o condão de provocar mais celeuma que o “Evangelho Segundo J.C.” e mais, que se o livro não provocasse um abanão na opinião pública, significaria que os portugueses estariam a dormir. O que ele decerto se esqueceu é que grande parte dos portugueses não têm qualquer hábito de leitura nem querem saber nada de política, logo e por muito que ele escreva, há muita gente que nem sabe quem é José Saramago (claro que exagero…).

Muito honestamente, penso que a pedrada lançada não tem o poder de fazer qualquer mossa. E afirmo isso porque e após ter efectuado uma análise à obra no seu conjunto, acho que as críticas irónicas lançadas pelo escritor aos podres do nosso sistemas política e social não me surpreenderam em nada, ou seja, quem estiver minimamente atento à nossa realidade da nossa sociedade em todas as suas vertentes, não precisa que venha nenhum Saramago, qual iluminado apontar o dedo, e quem se estiver a borrifar por essa realidade, também não se estará ralando por perceber aonde o escritor quer chegar com as metáforas que vai criando.

A obra em si está longe de ser o melhor de Saramago. Claro que o estilo está lá, inclusive penso até que este é dos mais irónicos e mordaz trabalhos do escritor, mas e na minha opinião, ele comete um pecado que me surpreendeu. Ele simplesmente utiliza a mesma fórmula que utilizou em “Ensaio sobre a Cegueira”, aliás, existem tantos pontos em comum que este quase que acaba por ser um género de continuação do anterior, pelo que e quem quiser ler este livro, é quase obrigatório ler o outro.

Quanto à história, Saramago situa-nos numa cidade qualquer (diz ele, mas as semelhanças com Lisboa são mais que muitas) em dia de eleições autárquicas. O meio político é composto apenas por três partidos: o da Direita, que está no poder, o do Centro e o da Esquerda (são em tudo semelhantes ao PSD, PS e PCP), e logo aí é notório que algo de anómalo se passa, pois apenas às 16:00 em ponto as pessoas começam a afluir às urnas. No final do dia, sabe-se o resultado e, para grande espanto do país, 75% dos votos são em branco. Assim e como prevê a constituição, as eleições são repetidas 8 dias depois. Desta vez, debalde, 83% dos votos anunciam brancura total, isto é, apenas uma repetição e confirmação dos resultados anteriores.

A partir daí assistimos ao desconcerto do governo e do próprio presidente da Republica que chega a culpar o povo pelo estado calamitoso em que se encontra o país e que, coitados dos políticos, que sempre foram tão fiéis e que jamais mereceram isto… Mas o governo, através do Primeiro Ministro, anuncia uma investigação profunda às causas ou aos causadores desta anormalidade e posteriormente, como tudo sai furado, acabam por debandar, em alegre caravana, a cidade. Aí verifica-se uma manifestação de satisfação do povo ao ver o governo fugir e é engraçado a forma como Saramago brinca com o acontecimento. Curioso também quando e durante a investigação, todos aqueles que são questionado sem votaram em branco, afirmarem negativamente. Faz lembrar as pouquíssimas pessoas que admitem ter votado PSD nas últimas eleições…

Adiante.

Mas e sem querer entrar mais profundamente na história, posso dizer que temos um Ministro da Defesa altamente radical, mesmo a roçar o fascismo (Paulo Portas escarrado); um Ministro do Interior que faz o que o Primeiro Ministro não quer; um Presidente da República que gosta de atirar uns bitaites mas que anda a reboque do Primeiro Ministro; um estado de sítio que suspende os direitos dos cidadãos mas como também ninguém tem o saudável direito de exigir o regular cumprimento dos direitos que a constituição lhes outorga, nem reparam que foram suspensos; numa cidade que se transforma numa prisão onde ninguém pode sair.

Depois e numa reunião de Ministros, alguém se lembra de comparar esta epidemia à epidemia ocorrida 4 anos antes e é aqui que a colagem com o “Ensaio sobre a Cegueira” acontece. O voto em branco pode ser uma manifestação de lucidez, um contraponto com a cegueira que grassa por todo o lado? Saramago revela assim a sua mensagem: “Atenção, tudo está mal, a nossa democracia está viciada, o voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco…”. Terá esta mensagem efeitos práticos?

Partindo de uma denúncia, entram na acção as personagens do “Ensaio sobre a Cegueira” e é o próprio governo que tenta fazer da mulher do médico o bode expiatório desta epidemia, o líder dos brancosos, a chefe desse grupo de terroristas que põem em causa o sistema democrático. Essa tentativa de criar um bode expiatório, parece-me uma indirecta ao facto de quem está no poder (independentemente do partido), procurar culpabilizar sempre os antecedentes de tudo o que corre mal.

O final é em beleza. Assiste-se à tentativa de assassinar os opositores e é claramente uma abordagem às variadas tentativas de acabar com os adversários políticos… (não quero entrar em mais pormenores.) Perdoem-me se contei demais!

Em suma e embora sejam possíveis várias ilações, penso que Saramago não descobriu a pólvora. Se o objectivo dele era alertar consciências face ao estado deplorável do nosso sistema democrático, penso que não vai muito longe. Há muito que as pessoas se divorciaram da política e dos políticos, há muito que esses são vistos como oportunistas, mentirosos e charlatães, há muito que os mesmos “baixam as calças” nas campanhas eleitorais para depois nos tratarem com desprezo e também, porque em o “Ensaio sobre a Cegueira” Saramago é mais corrosivo na forma como critica a sociedade em geral.

Depois de ter acabado o livro, fiquei com uma sensação de desconforto e porque senti-me um pouco desprezado pelo próprio Saramago e afirmo-o porque ele cai no erro de agir de acordo com o que critica, ou seja, ele joga connosco e depois larga-nos desamparados… note-se que ele cria alguns cenários muito interessantes e que depois não explora, pura e simplesmente deixa-os cair sem se preocupar em explicá-los, se quiserem, ele tece uma teia sendo depois incapaz de se desenvencilhar dela. Fica assim no ar algumas questões que ele cria e que depois não responde.

Gostei muito do final e da forma como dois cegos perguntam um ao outro se ouviu alguma coisa (não é nada comigo, estou aqui para ver a bola, percebem?). Esta é a minha análise, como disse anteriormente, este livro tem a faculdade de se poder tirar várias ilações e aceito, acredito e é natural que muitos as tenham e que discordem comigo, no entanto, estava à espera de mais e melhor e, depois de tantas entrevistas, não escondo que fiquei decepcionado.

Tiago M. Franco, do Sugestão de Leitura:

Os tornados são fenómenos meteorológicos pouco frequentes no nosso país. O livro que acabo de tem a força de um tornado, mas dos mais violência que a história registou. Em pouco mais de 300 páginas, Saramago mostra-nos como é a actual democracia e como todos nos somos responsáveis por está situação. Se chegamos à situação que o país se encontra, deve-se muito a falta de consciência das nossas populações. Não foram só os políticos, os banqueiros, ou os especuladores que nos levaram há actual crise. Não tivemos consciência e portanto somos todos responsáveis. Acho que essa é uma das principais mensagens a reter em “Ensaio Sobre a Lucidez”.

Estefânea, d’Uma Biblioteca Aberta:

A escolha da leitura deste livro baseou-se fundamentalmente no facto de, tal como a sua acção, vivermos actualmente duas fases eleitorais (primeiro as legislativas e proximamente as autárquicas). Assim, nada melhor que analisarmos a opinião de José Saramago sobre a política nacional que, após a leitura do livro, concluímos não ter mudado significativamente desde o ano em que o livro foi publicado (2004).

Pautado pela escrita incomparável de Saramago bem como pelo seu sentido de humor, este livro constitui uma crítica explícita ao poder instituído e às instituições políticas que o constituem (são os ministros que nada fazem, é o Presidente da República que se encontra imóvel perante as adversidades, etc). Após uma votação em branco maciça, o caos instala-se numa cidade sem nome e a anarquia substitui a tranquilidade presente até então. E então que atitude tomam os governantes? Fogem da cidade, deixando os cidadãos entregues a si próprios, sem leis, sem regras…

Então eis que surge a ideia luminosa introduzida por uma carta anónima: não passará tudo isto de uma conspiração contra o governo e contra a capital? Neste marasmo político e social e para o espanto de nós, leitores, surgem personagens já por nós conhecidas de “Ensaio sobre a cegueira”. Devo dizer que realmente esta mudança no decorrer da acção me surpreendeu pela positiva e uma leitura já de si interessante tornou-se ainda mais cativante!

Assim, este livro poder-se-á considerar a continuação do livro ” Ensaio sobre a cegueira”, sendo a cegueira branca substituída pela “lucidez do voto em branco” (também uma epidemia?ou uma conspiração?). A partir do momento de “entrada em cena” da mulher que não havia cegado há quatro anos e de todo o restante grupo entrámos numa busca incessante ao responsável pela conspiração. Quem são os responsáveis? E porquê?

Neste prisma, Saramago tece novas críticas: à polícia, aos órgãos de comunicação social e à justiça. O soberbo desenrolar da acção tem o seu apogeu no final do livro que é simplesmente surpreendente e ao mesmo tempo revoltante. Maravilhosamente bem escrito, mais uma vez Saramago não me desilude com a sua capacidade realística e humorística. Mais um livro que recomendo vivamente e sem reservas!