1984, George Orwell

Segundo Orwell, «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro» é uma sátira, onde aliás se detecta inspiração swifteana. De aparência naturalista, trata das realidades e do terror do poder político, não apenas num determinado país, mas no mundo — num mundo uniformizado. Foi escrito como um ataque a todos os factores que na sociedade moderna podem conduzir a uma vida de privação e embrutecimento, não pretendendo ser a «profecia» de coisa nenhuma.

Apreciação

Como posso ter lido tantos livros antes deste, não sei. Da primeira à última página, George Orwell cativou-me com a sua visão de um mundo totalitário assente em regimes verdadeiros, mas com um enorme laivo de imaginação e hipnotismo no que respeita ao relacionamento social e político. À semelhança de “Animal farm”, o autor brinda-nos com uma crítica profunda ao totalitarismo e à pior face da natureza humana, numa narrativa tão fria e crua que não pude deixar de imaginar o que será viver num regime tão estrito.

“1984” começa por nos dar a conhecer a sociedade onde o protagonista, Winston Smith, vive. Através dos seus olhos, conhecemos rapidamente a forma opressiva em que Londres vive e lida diariamente, nomeadamente na capacidade de esconder emoções e de agradar ao Partido das mais variadas formas e sempre sobre o olhar atento dos seus trabalhadores. Ao longo da história, questionamo-nos acerca da existência do Grande Irmão e dos verdadeiros ideais de quem rodeia Winston, embora percebamos rapidamente que poucas ou nenhumas hipóteses há de contornar um sistema tão rígido e com tantos olhos. Na verdade, Winston tenta lutar contra o sistema e opta por pertencer à minoria que lutará durante décadas ou séculos, se necessário, para alcançar a liberdade do povo.

Desde a criação de ministérios com objectivos específicos para controlar e castigar a população, a construção de um Partido omnipresente no tempo e no espaço, a transição para um idioma novo, a recriação permanente do passado e a capacidade de adaptação das pessoas através do controlo assente no medo e no castigo, George Orwell demonstra-nos que qualquer mensagem é passível de ser transmitida através da linguagem mais simples e com os formatos mais banais. O rompimento com o actual idioma, a actualização permanente do passado, a observação atenta pelos ecrãs e o desaparecimento de revolucionários traduz pura e simplesmente o objectivo de controlar o pensamento e de criar uma sociedade feita à medida e o autor consegue fazê-lo de forma cativante e inesquecível.

Ao longo do livro, apercebemo-nos da forma minuciosa como Orwell criou e estruturou a história: é complexa e quase tangível. É dotada de ínfimos pormenores e não deixa escapar qualquer resposta. É um retrato da sede de poder e de controlo e da obediência e disciplina. No fundo, é uma visão arrepiante e não tão longe da realidade quanto isso. É um livro a ler… e reler!