Os Portugueses (2011), Barry Hatton

No livro “Os Portugueses”, Hatton relembra os principais momentos históricos que marcaram a nação, desde o período áureo dos Descobrimentos aos anos governados por Oliveira Salazar, sem esquecer a pela peculiar relação com Espanha, e termina com uma análise sobre a modernidade. «A minha intenção é lançar algumas luzes sobre este enigmático canto da Europa, descrever as idiossincrasias que tornam único este adorável e, por vezes, exasperante país e procurar explicações, fazendo o levantamento do caminho histórico que levou os portugueses até onde estão hoje.», avança o autor na nota prévia da obra.

Paralelamente, a construção da identidade de Portugal enquanto povo e os vários estereótipos que (ainda) reinam além fronteiras são abordados e apresentados através de episódios vividos pelo autor ou por pessoas que lhe são próximas. De leitura obrigatória para todos quantos desconhecem a verdadeira alma lusa, portugueses ou não, “Os Portugueses” é uma obra obrigatória, escrita de forma apaixonada por um dos correspondentes mais antigos da imprensa internacional no nosso país.

Barry Hatton vive em Portugal há quase 25 anos. Correspondente da Associated Press em Portugal, o jornalista britânico revela no livro “Os Portugueses” aquilo que somos enquanto país e enquanto povo. Pelo menos aos olhos dos estrangeiros.

Apreciação

“Os Portugueses” é um livro apaixonante e de leitura obrigatória. De nacionalidade britânica e residente em Portugal há quase 25 anos, Barry Hatton faz um retrato do que considera ser Portugal e os Portugueses, analisando brevemente a História do país e justificando as características e hábitos dos seus habitantes, de forma a dar a conhecer além-fronteiras este povo tão recatado e incompreendido.

Com uma linguagem singela e uma abordagem leve, Hatton recua até ao século XII e acompanha alguns dos acontecimentos mais marcantes e impressionantes da História das fronteiras portuguesas, o empreendedorismo que levou os Portugueses a navegar por esse mundo fora na época dos Descobrimentos e as mudanças radicais no ambiente social e político que tomaram lugar entre os séculos XIX e XX.

Sob a perspectiva de Hatton, que tenta desde a primeira página desenhar um retrato fiel, Portugal e os Portugueses podem ser impressionantes e surpreendentes para quem ler este livro. Hatton, originário do Reino Unido (o qual, por sua vez, contém uma História igualmente fascinante, embora altamente diferente), arregala os olhos a algumas das principais características do povo português: por um lado, encara-nos como um povo corajoso. Se há quem agarre o touro pelos cornos e se uma padeira foi capaz de dar cabo de uma dúzia de espanhóis, há também quem arrisque a própria vida por um bem maior – o crescimento e prosperidade de Portugal aquando dos Descobrimentos. Por outro lado, a dificuldade em gerir de forma contida e com uma estratégia detalhada a longo prazo é um dos pontos menos fortes detectados por Hatton. Quem disse que a História se repete acaba por ter muita razão quando lemos este livro que resume em poucas páginas alguns dos principais momentos em que os governantes são hipnotizados pelo Poder e descontrolam a riqueza que recebem e que gastam com igual velocidade. Se for feito o paralelismo entre os Descobrimentos, altura em que Portugal prosperou significativamente com as importações e exportações de bens, e o financiamento pela União Europeia em 1998 (o chamado “ano de ouro”), perceberemos com alguma clareza que a necessidade e vontade de crescer, bem como de se desenvolver, pode facilmente toldar a visão momentaneamente.  Aliada a esta vontade de acompanhar o resto da União Europeia no final do século XX é bastante aprofundada pelo autor, que detalha as barreiras criadas pela ditadura durante décadas a fio e pelo atraso que Portugal sofreu até à revolução de 1974, pelo que os anos que se seguiram acabaram por desnortear o Governo e as camadas sociais e políticas.

Naturalmente, outra das características que Hatton não pode deixar de referir, por já não ser novidade para quem conhece e lida com pessoas estrangeiras, é o acolhimento ternurento que os Portugueses demonstram aos que vêm de fora, partilhando a sua casa, convidando-os para os seus círculos de amigos e, como não poderia deixar de ser, dando-lhes a conhecer a gastronomia rica e pesada portuguesa. Em circunstâncias ditas “normais”, os Portugueses são vistos como um povo calmo, espontâneo e paciente que, segundo a História prova, aguenta as mais duras dificuldades de forma pacífica e adia calmamente tudo o que lhe possa vir a causar aborrecimentos. Mas atenção: se isso acontecer, é melhor saírem da frente!