La plus belle histoire du monde (1891), Rudyard Kipling

La plus belle histoire du monde

Por vezes restringida ao Livro da Selva e a contos humorísticos que escrevia para os filhos, a obra de Rudyard Kipling, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1907, é em grande medida desconhecida. Em particular, o considerável corpus de contos e romances nos quais o seu espírito curioso, fazendo jus ao humor inglês, é certeiro.

N’ A História Mais Bela do Mundo, Kipling leva a crer que a inspiração surge dos detalhes mais prosaicos que só o artista pode transcender, que só várias coincidências e contingências dão azo a uma obra de arte e que a arte sublima o real e o maravilhoso ombreia com a ciência.

Apreciação

Com pouco mais de 60 páginas, esta obra de Rudyard Kipling é uma homenagem às grandes obras de literatura. Se, por um lado, conta a história de um rapaz de vinte anos que vislumbra memórias de vidas passadas sem o saber, por outro deparamo-nos com as crises inspiracionais de quem escreve e a dificuldade em antecipar e visualisar uma história que gostaríamos de partilhar com o mundo.

Narrando a história na primeira pessoa, o autor resume o relacionamento entre dois homens e na tentativa de incursão na literatura. Charlie é um jovem trabalhador cujos sonhos ultrapassam as suas capacidades, o que está expresso na sua paixão imensa pela poesia e pelo conhecimento de técnicas literárias que, eventualmente, o levarão a escrever um livro. Contudo, o seu arrebatamento é proporcional à rapidez com que os seus interesses se substituem por outros. Em tenra idade, Charlie é absorvido por paixões temporárias e depressa substitui umas por outras: o objectivo de escrever um livro, a descoberta da poesia e, por fim, a entrega ao amor por uma rapariga, o que expressa a vontade de viver e de experienciar próprias de um jovem adulto.

O nosso narrador é um homem adulto com quem Charlie mantém uma profunda amizade e, dada a diferença de idades, é interessante observar algumas características deste relacionamento: a reverência de Charlie perante um homem experiente e, por sua vez, a condescendência deste perante a jovialidade e os seus sonhos. Este relacionamento estreita-se quando, num laivo de aparente inspiração, Charlie revela uma história que gostaria de escrever mas que, por dificuldades em a expressar em papel, acaba por colocar de lado. Graças a esta desistência, o narrador compra a ideia de história e, ao longo de todo o livro, incita Charlie a contar a história tal como a “vê” e com todos os pormenores. Tais são as observações e as “coincidências” com factos históricos que o narrador acredita que o que Charlie narra são memórias de vidas passadas e cujo testemunho deverá constar das prateleiras em todo o mundo. Afinal, a prova da reencarnação poderá ter consequências a uma escala inimaginável e poderá alterar a forma como o Homem lida com a sua vida.

A simplicidade e a inexistência de qualquer tipo de presunção tornam esta pequena narrativa num documento inspirador. Afinal, quem é um ávido leitor conhece o potencial de uma história e a paixão arrebatadora por um livro.