Lost and Philosophy: The island has its reasons (2007), Sharon M. Kaye

Como uma notável série televisiva faz luz sobre a condição humana e coloca algumas das questões mais profundas a que todos temos de responder. Quantas vezes nos sentimos perdidos? Todos nós já perdemos, seja numa ilha, seja nas malhas obscuras da vida. A série televisiva «Perdidos» aborda o nosso medo mais profundo: o de sermos isolados de tudo o que conhecemos e amamos, abandonados à própria sorte numa terra estranha.

Quando o Voo 815 se despenha numa remota ilha tropical, aterra num caleidoscópio filosófico. Os sobreviventes agrupam-se num bando para se protegerem contra perigos surreais. Mas quem guardará os guardiães? Reduzidos ao estado selvagem, os nossos escassamente vestidos e bronzeados heróis ficam a saber que já estavam perdidos muito antes do acidente. Ao vê-los lutar contra os seus demónios, poderemos perceber que também estamos perdidos. Locke, Rousseau, Hume: quem são estas pessoas?

Por vezes, parece que é preciso um curso universitário para perceber a série. Mas não é. Basta este livro, em que 27 filósofos exploram as profundas questões que todos enfrentamos, enquanto sobreviventes neste planeta:

– Será que tudo acontece por uma razão?
– Em algum caso se poderá justificar a tortura?
– Quem são os Outros?
– Como sabemos que não somos pacientes na enfermaria psiquiátrica de Hurley?
– E se a iniciativa Dharma estiver a fazer experiências connosco?

Desmond poderá não ser capaz de salvar Charlie, mas este livro pode salvar-vos.

Apreciação

Começando por dizer que sou fã do Lost, talvez a minha opinião sobre este livro seja um pouco suspeita. Mesmo assim, parece-me que este livro é capaz de interessar os seguidores da série, de forma a conhecerem de um ponto de vista filosófico alguns dos elementos mais prementes nesta história. Sharon M. Kaye, a autora, contou com a participação de convidados, todos ligados ao ramo filosófico, para a elaboração de 22 artigos sobre diferentes perspectivas: L(0ve), O(rigin), S(urvival) e T(ransformation), que analisam uma série de situações, relacionamentos e personagens consoante cada um destes temas.

Na minha opinião, o livro deveria chamar-se “Perdidos segundo a filosofia” e não “A filosofia segundo Perdidos”, visto que os autores analisam a série de acordo com uma série de correntes filosóficas, e não o contrário. Lançado a meio da terceira temporada, esta compilação de textos tenta resumir a importância que a filosofia teve no argumento o que, juntando ao facto de os produtores terem admitido que “foi tudo pensado”, nos ajuda a interpretar alguns temas e a esclarecer algumas dúvidas sobre o enredo.

Se considerarmos as correntes empíricas e existencialistas (de Locke e Sartre, respectivanente) ou perspectivas que roçam a religião e o metafísico (S. Tomás de Aquino), concluímos (ou confirmamos) que a série se dedica profundamente a analisar a condição humana da forma mais realista possível. Isto porque as personagens não só são profundamente tridimensionais, como dotadas de um grande realismo que permite uma enorme identificação por parte do público. Na verdade, o passado e os erros cometidos pelo grupo de perdidos perseguem-nos e determinam a forma como decidem viver na ilha que, de forma bastante simplista e resumida, lhes oferece uma oportunidade de redenção e de mudança. Desta forma, reforça-se a ideia de que a guerra entre o bem e o mal não é tão linear como em outras séries ou filmes, visto que em cada decisão há inúmeros componentes a ponderar e outros tantos a relembrar: o carácter de humanidade e o nível de complexidade em cada personagem e entre elas são bastante elevados.

Dos 22 autores convidados, há diferentes perspectivas acerca da ilha, do seu poder e do motivo que levou as personagens a lá chegar. Considerando várias correntes da filosofia, o livro pretende esclarecer conceitos-chave acerca do passado, das motivações e das crenças dos Losties: discute-se o existencialismo e a metafísica, a diferença entre coincidência e o destino (algo bastante abordado por Mr. Eko, John Locke e Jack Shepard) e entre acreditar e saber (algo bastante comentado devido às crenças de Rose), o desentendimento entre os náufragos e os Outros (ou serão os Losties os outros?) e a utilização de experiências comportamentais para se atingir um fim (onde se enquadra a Dharma Initiative), entre outros. Aliás, o recurso a nomes de referência na filosofia, como Locke, Rousseau ou Hume, espelha claramente a presença da filosofia na história, não tivessem algumas personagens estes apelidos.

Resumindo, aconselho a leitura deste livro a todos os fãs da série, ficando a aguardar esperançosa que a autora se dedique a lançar um segundo volume com a análise até ao último episódio. Foi com este livro que soube que o mesmo pertence a uma colecção de análise de conteúdo multimédia, como Seinfeld and Philosophy, The Simpsons and Philosophy, The Matrix and Philosophy e Harry Potter and Philosophy, entre muitos outros.