Quinta com cinco * Thursday with five

Livro * book: Mistério da estrada de Sintra a.k.a. The mistery of the Sintra road (1870)
Autor * author:Eça de Queirós, Ramalho Ortigão
Blogs:

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  • Ler
  • Maria Carmo (a Goodreads user)
  • O prazer das coisas
  • Queirosiana (Goodreads user)

 Sinopse * book description:

Nesta Obra, que pode considerar-se o primeiro romance policial português, Eça de Queirós, com a colaboração de Ramalho Ortigão, faz alternar o mistério, o crime, o adultério e a crítica de costumes, numa sucessão de lances folhetinescos que prendem a atenção até ao fim.

The Mystery of the Sintra Road (original title: O Mistério da Estrada de Sintra) is considered the first detective story in Portuguese. The novel was written in 1870 by José Maria Eça de Queiroz in collaboration with Ramalho Ortigão and published first by instalments in ‘Diário de Notícias’, a Lisbon newspaper, between 24 and 27 September 1870. At the time many people believed it was a true story, as it happened in 1938 with the radio broadcast of The War of the Worlds by Orson Welles.

Two friends were kidnapped on the road to Sintra by three masked men and taken to a mysterious house. In the house there is a corpse. The usual questions arise: Who was he? How did he died? Was it a natural death or a murder? Who was the perpetrator or the instigator of the crime? The two friends are the two narrators, Eça de Queiroz and Ramalho Ortigão, whose story was published in the form of letters to the editor recounting what happened to them.

black__cherry, do Cherry rumbles

First off, note that I only scanned the cover of the book I read because I like to have the exact covers I had on these posts. Also, there’s the collection of short stories I mentioned. Funnily enough, at 160 pages, this is the longest one. Onwards!

Eça de Queirós is one of the most notable portuguese writers, if not the most popular novelist. Up until now, I had only read Os Maias, which is required at most high schools, and everybody will tell you what a pain it is to read Os Maias. Those people obviously have no concept of pain. Real pain is Viagens na Minha Terra, and I like Almeida Garrett, so there. The thing is, his writing is incredibly descriptive and sometimes one does feel as if there hasn’t been any story for the last 20 pages, just endless accounts of furniture smelling like the first cherry blossoms and women also smelling like something pleasant (and erotic). It says on the tin on the preface that he and Ramalho Ortigão quite hate this book and only published it because they feel that no writer should hide even their most terrible work. Of course, upon reading this, I thought “how pleasant that you say you hate it, that it’s below you, but you’ll still welcome the money it will make”. Anyway, I really enjoyed this one. And perhaps that is so because it is quite different from his style (I can’t speak for Ramalho Ortigão, though); you see, the whole book is comprised of letters that were sent to a newspaper, giving the idea that this story actually happened. And reading each letter, you are caught, enticed by this odd mystery and immediately want to read the next chapter (or letter, in this case). This is the mark of a good mystery/thriller. If it excites your mind, then the pacing is right and your story is indeed intriguing. I quite enjoyed seeing it unravel, little by little, even though I sort of guessed what happened after I read the third (or was it the 4th?) letter.

If you are not a big crime/mystery novel person, you should at least know that it is quite easy to read. It even made me want to change up my reading order so I could get to some more portuguese novelists instead of jumping right onto Neil Gaiman or something of the sort. A friend of mine mentioned this has a movie, so if you’re not willing to try the novel, at least consider the movie, since, as I understand, it has a interesting take on the events.

Raquel Silva, do Ler

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão iludiram Lisboa com a história de um crime denunciado nas páginas de um jornal, no que é considerado o primeiro policial português. O génio dos autores mostra-se na escrita, na profundidade das personagens criadas e na crónica de costumes já habitual da geração de 70, aqui bem evidente. Uma excelente obra, uma intriga intemporal, sobre os amores e desamores da sociedade.

O suspense funciona na perfeição neste O Mistério da Estrada de Sintra, desde o momento em que os dois amigos são raptados e levados para uma casa desconhecida, até à verdadeira descoberta de quem matou o homem encontrado na casa de Sintra, como e porquê. Revela-se toda uma nova história através da publicação dos relatos no jornal, tomada por todos como verdadeira, talvez numa primeira (mas forte) crítica à sociedade da época, apática e sem valores, precisando de algo em que acreditar. Agitá-la era o seu principal objectivo.

As personagens de Eça e Ortigão são de uma profundidade envolvente, verdadeiramente densas, modeladas, muito ricas. Uma Cármen que, por amar, perde todas as suas forças; uma condessa que se deixa engolir pela ilusão, primeiro, e depois pelo arrependimento; o seu primo que procura ajudar todos e salvar as honras de todos, e acaba por se perder numa teia de histórias que não são suas. Até o doutor tem um papel fundamental na narrativa, com o qual o leitor se identifica, sabendo apenas o que este relata. Todas anónimas e fictícias, e ao mesmo tempo personagens tão reais.

O desenrolar da história que leva à morte daquele homem faz-se particularmente em três narrativas ou cartas: a do mascarado alto, a de A.M.C. e a ‘dela’, que confessa tudo já perto do final da obra. Todas desvendam personagens e momentos cruciais, destacando-se o romance de Rytmel e da condessa, que de resto condiciona toda a intriga, bem como a admiração e respeito de todos os mascarados por ‘ela’, que os leva a proteger a sua honra.

É curioso observar as relações de adultério, na que é mais uma forte crítica à alta sociedade do século XIX, tanto na personagem da condessa como na de Cármen. No entanto, é exactamente através destas duas personagens que se eleva a alma e o coração da mulher: apesar das suas atitudes incorrectas e desrespeitosas, ainda por mais dada a sua condição social, a mulher é aqui tomada como sensível, arrependida, emotiva, genuína… É ela que, no fim de contas, mais se dá e sofre por amor – que morre, inclusive, e mata. O sofrer por amor é mostrado como uma história que se repete e que absolve, por assim dizer, o próprio crime, pois ninguém quer ver julgada aquela mulher que matou apenas por amar demais.

A confissão é, de longe, a carta mais intensa que a imaginação dos autores produziu. Dotada de uma emoção realista, com a qual o leitor se compadece, a narrativa consegue manter uma decência bastante lógica, dadas as circunstâncias em que é escrita. E é a derradeira carta de revelação dos acontecimentos. Apesar de uma certa banalidade da história, de amores, relações humanas e sociais que se perdem, a sua originalidade está, a meu ver, nestes pormenores de escrita e criação interior das personagens, que Eça e Ortigão tão bem sabem fazer.

O Mistério da Estrada de Sintra é um daqueles livros dos quais não vamos querer saber o final logo no início da leitura. É uma obra para saborear, descobrir e deixar levar – e sofrer, também, com o drama e o romance que se misturam com a história policial. É mais uma grande obra de dois grandes autores de final de século, sublimemente escrita e imaginada, a acrescentar à forma inédita como foi apresentada ao público.

Maria Carmo (Goodreads user)

An incredible example of a writing partnership, these two authors challenged each other – each one would write a chapter, the other not knowing where the story was heading, and therefore at each new chapter one of the writers is responding to a challenge, and at the same time challeging the other by giving a certain (new) direction to the action of the story. The movie based on this book was recently done (maybe 2012?) and I believe it won international awards.

Tita, d’O prazer das coisas

O Mistério da Estrada de Sintra é considerado o primeiro policial português, tendo sido escrito por Eça de Queirós e Ramalho de Ortigão. O livro apresenta-se em cartas, de diferentes pessoas que relatam os acontecimentos que vivenciaram ao envolverem-se no misterioso crime, ao redactor do Diário de Notícias, e se vão contradizendo entre si.

Foi uma leitura muito agradável, em que ao longo das cartas, tentamos ir juntando todos os pormenores, eliminando as incongruências, para tentarmos descobrir que foi o culpado e porquê. Como as cartas são de diferentes personagens, que tentam completar a história, não temos um livro sempre com o mesmo ritmo. Temos um início com uma rápida sucessão de acontecimentos, que nos leva a avançar rapidamente, mas a certa altura, deparamo-nos com uma carta mais detalhada e com um ritmo mais lento e menos cativante. Gostei da forma como Eça e Ortigão entrelaçaram um crime misterioso, que prende o leitor, servindo-se do adultério como uma crítica de costumes.Tenho que confessar que o português utilizado, me fez muita confusão no início, mas felizmente, com o avançar da leitura habituei-me.

Queirosiana (Goodreads user)

O primeiro livro deste género em Portugal – mistério e suspense, data de 1871. Surge da ideia de Eça e Ramalho de “abanarem” a cidade de Lisboa com um dos Mistérios mais incríveis de sempre. A população acreditou quando leu a primeira carta do Doutor*** no Diário de Notícias, muitos ficaram receosos de andar pelas estradas de Sintra… durante dois meses Lisboa viveu na ânsia de saber mais sobre este mistério que se inicia com um morto deitado num sofá de uma casa desconhecida.

A história cativa-nos como cativou os leitores há dois séculos atrás, se bem que nós partimos da desvantagem de saber que é um romance e não uma situação verídica, a adrenalina seria muito maior se, como outros, acreditássemos na veracidade daquelas palavras. Ainda assim, deliciamo-nos com a história de amor entre Rytmel e a Condessa W. – em certos aspectos lembrei-me várias vezes de Anna Karenina e Vronsky (embora este só tenha sido publicado em 1873, portanto, nada de confusões plagiadas!). Carmén Puebla, também ela fortemente apaixonada por Rytmel, capitão inglês que parece quebrar os corações de todas as mulheres, surge como a personagem ciumenta e é um pouco a antecipação daquilo em que a Condessa W. se virá a transformar, também ela delicerada pelos ciúmes. Uma mulher despeitada é sempre um perigo.

Mas como disse, tudo começa com um morto – razão pela qual o doutor*** e F. são raptados por um grupo de mascarados enquanto passeiam na estrada de Sintra, pois pretendem que o doutor*** confirme a morte e as suas causas. Chegados à casa misteriosa, pois é de localização desconhecida, é-nos apresentada outra personagem que primeiro se declara o assassino e que depois nega – falamos de A.M.C. um jovem médico de Viseu que entra neste enredo de forma suspeita mas com boas intenções. É pelo Mascarado Alto que conhecemos a história entre Rytmel e a Condessa. O culpado será julgado no fim, por este grupo de homens que, afinal de contas, circulam todos no mesmo meio.