The life of Pi (2001), Yann Martel

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Publicado em Portugal pela Difel em 2003, A Vida de Pi valeu a Yann Martel o Man Booker Prize de 2002, entre outros prémios, e figurou como bestseller do New York Times durante mais de um ano. Sete anos após a primeira edição, a obra ocupa a 74ª posição no top de ficção da Amazon americana e o 99º lugar na tabela de vendas da amazon inglesa. “A Vida de Pi” encontra-se publicada em mais de 40 países. 

Quando Pi tem dezasseis anos, a família decide emigrar para a América do Norte num navio cargueiro juntamente com os habitantes do zoo. Porém, o navio afunda-se logo nos primeiros dias de viagem. Pi vê-se na imensidão do Pacífico a bordo de um salva-vidas acompanhado de uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala. Em breve restarão apenas Pi e o tigre.

Pi Patel is an unusual boy. The son of a zookeeper, he has an encyclopedic knowledge of animal behavior, a fervent love of stories, and practices not only his native Hinduism, but also Christianity and Islam. When Pi is sixteen, his family emigrates from India to North America aboard a Japanese cargo ship, along with their zoo animals bound for new homes.
 
The ship sinks. Pi finds himself alone in a lifeboat, his only companions a hyena, an orangutan, a wounded zebra, and Richard Parker, a 450-pound Bengal tiger. Soon the tiger has dispatched all but Pi, whose fear, knowledge, and cunning allow him to coexist with Richard Parker for 227 days lost at sea. When they finally reach the coast of Mexico, Richard Parker flees to the jungle, never to be seen again. The Japanese authorities who interrogate Pi refuse to believe his story and press him to tell them “the truth.” After hours of coercion, Pi tells a second story, a story much less fantastical, much more conventional-but is it more true?
Life of Pi is at once a realistic, rousing adventure and a meta-tale of survival that explores the redemptive power of storytelling and the transformative nature of fiction. It’s a story, as one character puts it, to make you believe in God.

Apreciação

Como faço habitualmente, fecho o livro que acabo de ler e procuro opiniões sobre a história na Internet e informo-me mais convenientemente acerca da obra (hábito directamente relacionado com a fuga de spoilers e o encontro de surpresas em cada página). Com A Vida de Pi, que acabei de ler recentemente, o caso foi o mesmo. No Goodreads, onde registo assiduamente as minhas leituras e compilo informações sobre os meus livros, deparei-me com uma opinião geral fantástica sobre esta obra, o que me provocou um sabor agridoce.

Gostei do livro. Adorei a história. Fiquei espantada com a quantidade e qualidade de pormenores que narram as dificuldades físicas e psicológicas pelas quais Pi passa. Fiquei absorvida pela simplicidade e riqueza das descrições da vida no mar, dos hábitos dos animais e da ilha móvel. Contudo, não gostei da personagem. Comecei por antipatizar com Pi no início do livro quando partilha uma série argumentos que assume como verdade absoluta. Na verdade, irritam-me os juízos de valor: entre as pessoas sem religião e as pessoas que pensam que conhecem os jardins zoológicos, Pi – na minha opinião – entrou com o pé errado, o que me levou a distanciar-me emocionalmente da personagem.

Mesmo assim, fiquei encantada com os seus dias no jardim zoológico do pai na India, onde absorve inevitavelmente um conjunto vasto e pormenorizado de conhecimentos acerca da vida animal que partilha de forma apaixonada. Aliás, é impossível não referir que Pi é um rapaz apaixonado, enérgico e cheio de vontade de viver e de experienciar novas emoções, o que é ilustrado pela sua elevadíssima devoção a três religiões em simultâneo. Talvez seja a sua ingenuidade que o torna um rapaz dócil e amável o que, conjugado ao seu olhar atento, permitem que sobreviva 277 dias no Oceano que um tigre de Bengala.

Depois do naufrágio, e depois de Pi estabilizar no barco salva-vidas, surgiu-me frequentemente a questão: como poderá sobreviver com animais selvagens assustados e que se encontram fora do seu território? Depois de a Natureza cumprir o seu papel e de apenas restar Richard Parker, o tigre, com o nosso protagonista, assistimos a um crescendo de vontade de viver . Neste aspecto, pareceu-me que a parte introdutória do livro que se dedica à devoção religiosa do rapaz é esquecida e substituída  no meio da narrativa pela força que nasce de dentro para forma ou seja, pelo instinto mais primitivo de todos: o da sobrevivência. Na minha perspectiva, e ao contrário do que diz a sinopse, não é uma história de sobrevivência que fará o leitor acreditar em deus, mas acreditar na força individual.

Ao longo da história, onde conhecemos pormenores acerca dos truques que Pi vai aprendendo para se sustentar, permanece a questão no leitor e no protagonista: será Richard Parker a sua morte? Contudo, à medida que o tempo passa, a questão inverte-se e permite acrescentar uma adenda em tom de afirmação: Richard Parker será a sua salvação?! Afinal, e regressando à natureza meiga da Pi, a sua compaixão pelos animais e a sua amizade para com este animal selvagem permite-o sobreviver e vencer tão difícil provação.

Passando os dias, as semanas e os meses, a história embrulha-se e começa a tornar-se desafiante distinguir o que é realidade do que não é. O estado débil de Pi derivado da fraca alimentação e das condições físicas a que está exposto toldam-lhe os sentidos pelo que, a partir de dada altura, questionamo-nos se algumas das passagens narradas pela personagem são verdade ou se são fruto de um estado meio onírico que o faz ter visões e confundir a realidade e a imaginação. No caso da ilha móvel em particular – cujos pormenores não revelo para não estragar surpresas – essa questão põe-se inevitavelmente: Pi estará doente, intoxicado ou conta a verdade?

Independentemente da verdade, penso que o leitor ficará com uma sensação agradável ao terminar a última página e decerto imaginará este cenário tão inóspito quanto pleno de vida.

Opinion

As usual, I closed the book I’d finish reading and started looking for opinions about it on the Internet and searched for information about it (something I usually do to avoid spoilers and to get surprised in each page). With “The Life of Pi” it was the same. In Goodreads – where I register the books I read and keep information about them – I found with a great general opinion about this book, which left a bittersweet taste.

I liked the book. I loved the story. I was amazed with the details quality that tells the physical and psychological difficulties Pi goes through. I was absorbed by the simplicity and richness of the descriptions regarding the life in the ocean, the animal habits and the moving island. However, I didn’t like the character. I start disliking him as soon as I started reading the book, when he shares a great amount of opinions he assumes they’re positively true. Actually, I don’t like that type of judgments: talking about different types of religions (or people without them) and people who think they know zoos, Pi started off wrong and it took me to distance myself emotionally from the character.

Even so, I was thrilled with the days of Pi in his father zoo in India, where he learns what’s to learn about animal life and which information he passionately shares with us. It is hard not to mention what a passionate, energetic and anxious this boy is – this is proven by his great devotion to three whole different religions. Maybe it was also his naivety that made him a gentle teenager, which allied to his attentive look may explain the fact he survives 227 days on the ocean with a Bengal tiger.

After the shipwreck and after Pi sets himself on the lifeboat, I raised this question frequently: how will be able to survive with scared wild animals that found themselves out of their territory and safety zone? After Nature does its part and Richard Parker, the tiger, is the last wild animal left, we watch Pi longing to live more than ever. Actually, I think that the beginning of the book (dedicated to his religion devotion) is forgotten and replaced by the strength that lives from in inside out – the most primitive instinct of all: the survival instinct. In my perspective, and contrary to the book synopsis, this isn’s a book that’ll make the reader believe in god, but a book that’ll make the reader believe in themself.

Throughout the story, while we get to know the details that allowed Pi survive, we keep asking ourselves: will be Richard Parker responsible for Pi’s death? However, as time goes by this question is inverted: Will Richard Parker save his life? After all, the compassion of Pi and his friendship for the tiger allow him to survive and to overcome the ordeal.

As days, weeks and months go by, the story kind of wraps itself and starts to mix what’s real and what’s not. The feeble health of Pi – originated by his week diet and by the physical conditions he’s exposed to – made him darkened his senses and, at a certain time, we start wondering if some of the stories he tells are true or if they’re originated by the oneiric state he’s in. If we take a close look on what happens on the moving island (I won’t share details because I don’t want to spoil the book) we’ll have to ask ourselves: is Pi sick, intoxicated or is he telling the truth?

Whatever happened, I think the reader will finish the book with a pleasant feeling and I’m sure he’ll keep wondering if this scenery is as inhospitable as full of life.