Viagens * Travelling

Com ou sem crise, as viagens são tema de conversa: onde fomos, onde gostaríamos de ir, com quem estivemos, quem conhecemos, que locais visitámos, que experiências vivemos, o que procuramos. Depois de regressarmos de uma viagem, gostamos de partilhar os momentos mais marcantes com os nossos amigos. Deve ser por isso que é tão bom ler livros sobre viagens: conhecer o mundo que há mesmo aqui à porta e saber o que podemos encontrar, através das histórias de outras pessoas.

Die Reise nach Trulala (a.k.a. A viagem a Tralala, 2002), Wladimir Kaminer

viagem_tralala«O meu amigo Andrej e eu planeámos logo a nossa primeira excursão. Claro que tinha de ser a Paris, a cidade que corresponde desde sempre a um lugar especial na cabeça dos russos: o quase inatingível paraíso.

Preparámo-nos minuciosamente para a viagem, e comprámos uma máquina fotográfica, bem como dois bilhetes de autocarro com data em aberto: ‘Experimente Paris – por noventa e nove francos, ida e volta’». Na posse deles, podíamos a qualquer momento pôr-nos a caminho de Paris. O que nos parecia demasiado rápido. Para saborear mais longamente a sensação de absoluta liberdade de circulação, começámos por permanecer na nossa residência em Marzahn. Dia após dia, sentávamo-nos na cozinha a beber cerveja e a contar um ao outro histórias sobre essa cidade.»

Final de novela en Patagonia (a.k.a. Final de romance na Patagónia, 2000), Mempo Giardinelli

final_romance_patagonia«Durante os últimos cinco anos eu tinha sonhado intensamente em fazer esta viagem ao sul do Sul da nossa América. Essa região da Argentina que para nós é como um final que não se quer ver, uma espécie de queda do país no verdadeiro fim do mundo. Um território e um limite que está na nossa própria geografia, mas que resistimos a conhecer. Creio que aos nossos irmãos chilenos lhes sucede algo de semelhante, embora eles tenham tido, historicamente, uma relação mais íntima com a sua delgada porção de Patagónia. Talvez porque do lado do Pacífico os Andes recebem boas chuvas, quiçá porque a estreiteza territorial entre a montanha e o mar lhes tem permitido uma olhadela menos dispersa sobre o mundo. Mas nós não, a Patagónia argentina é uma imensidão vazia, um abandono universal cheio de mistério. Para lá de todas as metáforas, a Argentina e o Chile são dois países cujos suis representam, certamente, o verdadeiro finisterra da cartografia americana e mundial.»

As ilhas desconhecidas (2011), Raul Brandão

ilhas_desconhecidas«Olho para isto tão pequeno e tão pobre, para os campos retalhados de muros escuros, para as eirinhas redondas com lajedo de lava e um pau ao meio, a que se junge o boi que debulha o trigo; para os seres e as coisas do mesmo tom apagado e uniforme; olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de Inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado no mundo. Que vim eu aqui fazer? Foi esta pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras que me levou à viagem? Foi este resto de vulcão, sem paisagem nem beleza, que me trouxe? Mas aqui não há nada que ver! Almas tão descarnadas como o penedo e uma vida impossível noutro mundo que não seja este mundo arredado. A vida natural? O homem pode aguentar-se na vida natural, ou é na vida artificial que está a felicidade? Vestido ou nu? É para a Fusão e a mentira que devem tender os nossos esforços, e a verdade em osso será a imagem da inferioridade e da desgraça?… Tão longe– tão só – tão triste! Mas reparo melhor e lembro-me daquelas palavras dum homem em debate com a própria consciência: – No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo.»

Russian Journal (a.k.a. Diário de uma viagem à Rússia, 1935), Lewis Carroll

diario_viagem_russiaEm 1867, Charles Lutwidge Dodgson, professor de matemática inglês mais conhecido pelo seu pseudónimo de Lewis Carroll, fez a única viagem da sua vida ao estrangeiro. O seu companheiro de viagem foi um colega, o Dr. Henry Liddon, mais tarde cónego da Catedral de São Paulo. «Escolhemos Moscovo», escreveu Carroll. «Uma ideia estranha para um homem que nunca deixou a Inglaterra.» Lewis Carroll, que em 1861 fora ordenado diácono, ajudou o seu companheiro de viagem em contactos informais com representantes da Igreja Ortodoxa Russa. A viagem durou dois meses, e os dois amigos visitaram nomeadamente São Petersburgo e seus arredores, Moscovo e Nijni Novgorod. Este Diário, publicado pela primeira vez em 1935, revela uma faceta pouco conhecida do famosíssimo escritor.

Uma viagem à India (2010), Gonçalo M. Tavares

viagem_india«A singular e provocante Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares não é, contudo, a epopeia desta espécie de terra de ninguém do sentido, em que o Ocidente se converteu, mas a travessia e o confronto, ao mesmo tempo intemerato e burlesco, desse caos, não para descobrir nele uma mítica porta de saída mais ilusória ainda que as já conhecidas, mas para encarar a sério o seu paradoxal enigma. É apenas, num travestimento sem precedentes do texto epopaico (Os Lusíadas, a seu modo também é já texto de decepção, por conta da realidade), uma viagem ao fim do nosso fabuloso presente como glosa interminável da existência como tédio de si mesma. Partindo como Gama de Lisboa, e diferindo o mais que pode e sabe, como Ulisses, não o regresso, mas o “fim” da Viagem, Bloom, o seu tão célebre e literário herói, não contemplará (como a humanidade inteira) a face de Deus ou as pegadas de Deus, que no espelho da Índia imaginava contemplar, mas não volverá o mesmo. Agora sabe o que já pressentia. Que não viajamos para nenhum paraíso. Que todas as viagens são sempre um regresso ao passado de onde nunca saímos.»

The innocents abroad (a.k.a. A viagem dos inocentes, 1869), Mark Twain

viagem_inocentesA Viagem dos Inocentes é a primeira edição portuguesa de um dos grandes clássicos da literatura de viagens. Mark Twain, «pai da literatura americana», parte num navio em direcção à Europa, passando pelos Açores, cuja descrição será irresistível para os leitores lusófonos. Entre os seus destinos incluem-se Marrocos, França, Itália, Grécia, Rússia e, mais a oriente, os lugares bíblicos. Os seus relatos, descrições e considerações denunciam, para além de génio literário, um sentido de humor intenso e inesgotável. Na verdade, este foi o maior sucesso literário que Mark Twain conheceu em vida.

Viagens

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“Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?”

Fernando Pessoa