El prisionero del cielo (2011), Carlos Ruíz Zafón

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Barcelona, 1957. Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas. Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria de Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si. Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração do Cemitério dos Livros Esquecidos.

Opinião

“O prisioneiro do céu” foi um livro que abri com bastante expectativa, como qualquer outro seguidor dos livros de Carlos Ruíz Zafón e, em particular, da colecção do “Cemitério dos Livros Esquecidos”. Como nos restantes livros desta saga (“A sombra do vento” e “O jogo do anjo“), deliciei-me com os cenários quase rocambolescos e altamente realistas de Barcelona em tons de cinzento dos anos ’40 e ’50 com que o autor nos brinda.

Gosto muito de ler e em cada livro vivo uma nova experiência. Contudo, com este livro senti algo que não sentia há um tempo: não queria parar de o ler. Aborreci-me por ter de o fechar por ter sono, por ter de ir trabalhar, por não ter uma hora de almoço sozinha para poder continuar a descobrir os mistérios que o autor lentamente desvenda. Desconfiei, desde o início da leitura, que a tradução não foi feita pela mesma pessoa que traduziu “A sombra do anjo”. Ao verificar essa informação, confirmei que Zafón não perdeu a sua magia literária, mas que a tradução para português ficou um pouco aquém do que esperava e do que previa (para quem leu o primeiro livro desta colecção, facilmente detecta os pormenores de que falo: a fluência do texto, os jogos de palavras, o recurso aos sinónimos, a leitura melodiosa). Mesmo assim, não deixei que este detalhe interferisse com o gosto que tive ao folhear as páginas.

Como referido em jeito de nota de rodapé no início do livro, “O prisioneiro do céu” faz parte de uma colecção de três livros, embora não haja obrigatoriedade em ler um antes dos outros ou por uma ordem em particular. Nesse aspecto, o autor fez um bom trabalho ao cruzar e enlaçar as histórias dos três livros com as mesmas personagens e os mesmos locais em tempos diferentes, porque senti que tudo o que Zafón narrava me era, em simultâneo, familiar e desconhecido.

Em “O prisioneiro do céu” acompanhamos duas histórias: a de Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres na actualidade (do livro – meados de ’50) e a vivência de Romero na prisão de Montjuic vários anos antes, onde finalmente conhecemos com maior detalhe algumas das experiências que o marcaram e o tornaram no que o conhecemos. Neste aspecto, confesso que o meu vício neste livro se centrou nesta segunda parte: seguir Fermín na prisão, conhecer (muito mais) aprofundadamente a personagem e desvendar os seus segredos que o tempo esconde, espreitar a prisão de Montjuic do interior e, ainda, saber como se entrelaçam personagens a que já nos habituámos e que conhecemos bem nesta colecção, como o pai Sempere e David Martín (“O jogo do anjo”). Talvez esta parte ocupe metade do livro, conferindo-lhe um grande ritmo e suscitando uma enorme paixão. Em contrapartida, quando nos libertamos deste flashback e voltamos à história inicial, talvez permaneça uma sensação de vazio e de demasiada simplicidade na narrativa. Senti isso ao terminar a narração no passado, sobretudo porque a história é retomada e descrita de forma superficial e sem grandes reviravoltas ou suspense no presente. Aliás, quando estamos prestes a saber como um dos grandes mistérios se resolve, o livro termina, deixando espaço para uma nova história e para um novo livro… e fechando o capítulo com sede de leitura. Na minha opinião, foi um final amargo para um livro delicioso.