Julius Caesar (1599), William Shakespeare

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Júlio César quer o poder numa Cidade que sabe estar minada pela podridão, pela intriga, pela alienação. A Tragédia de Júlio César, título com que a peça nos aparece na sua primeira edição, é a tragédia de quem assume o poder sabendo que não pode ser justo quem governa um mundo injusto, e assim se condena à morte. Por ambição, como dizem os honestos? Não importa. Quem quiser reinar num mundo injusto terá de ser tirano. E por ser tirano será abatido. E sendo abatido dará lugar a nova tirania, mais injusta do que a sua, numa Cidade que o terá abatido menos para se purificar que para esconjurar uma culpa que é incapaz de reconhecer. Mais do que a tragédia de um homem ou a tragédia do poder, A Tragédia de Júlio César é a tragédia da própria Cidade, da própria vida política de todos os seus cidadãos. Júlio César é a tragédia de Roma. E Roma é a Cidade, é a vida em comum dos homens.

Análise

A edição que li de “Júlio César” é de 1988 e traduzida pelo Dr. Domingos Ramos, que dedicou um capítulo de Advertência no início da peça de Shakespeare com uma breve análise à obra do autor e a esta peça em particular, pelo que considerei ideal retirar alguns excertos deste texto sobre a história e sobre as personagens para espelhar o trabalho de Shakespeare.

«Que é que Shakespeare nos mostra nesta peça? Sentimentos de almas da alta condição opressos pelas razões de Estado. É também a estes mesmos sentimentos elevados e quase abstractos que Corneille pede o seu patético. (…) No Júlio César, Shakespeare não abre diante da imaginação a janelas das infinitas e fantásticas perspectivas dos seus outros dramas; a cena é vasta, tão vasta quanto possível; contudo, é circunscrita. Por quadro, Roma; por horizonte, o universo romano. É na verdade um largo espaço, pequeno contudo para as exigências do género de Shakespeare.

«A alta sociedade romana, ao agonizar da República, foi cuidadosamente estudada por Shakespeare em todas as suas cambiantes. Todos os personagens são romanos, mas cada qual é um romano particular. Bruto, o platónico, alma nobre, quimérica, virtuosa, estreita, dedicada à Liberdade que prefere a todo o interesse de casta e de condição, mas que ou por hábito, ou por erro de juízo, confunde a liberdade em si mesma  com a liberdade da sua casta; e, para libertar Roma, seria capaz de escravizar o Universo (…). Cássio, ateu, sectário das doutrinas de Epicuro, é o patrício egoísta, violento, que não se sacrifica ao ideal como Bruto, mas que concentra o mundo inteiro dos interesses da sua raça, na segurança da sua liberdade pessoal. Cioso, invejoso como demagogo por preconceito de casta, considera toda a superioridade natural como uma ameaça para os seus privilégios, toda a medida, tomada em nome do bem público, como atentado ao seu património, toda a mudança de estado, como crime para a sua pessoa, e a traição ou o assassinato, mudando de nome, aparecem à sua alma, inacessível à justiça, como um direito natural. Casca é o verdadeiro romano tradicional, pesado, brutal, supersticioso, frio à piedade, sem vida moral, animal de rapina organizado unicamente pela força. António é o representante do que se pode chamar a jovem Roma da época, que só pôde conservar a elegâncias e as artes do mando; acomoda-se às necessidaddes do tempo complacentemente, será o servo do futuro, contanto que seja ele quem governe. (…) Mas onde Shakespeare mostrou toda a extensão e segurança do seu génio foi na pintura da alma de César. Que extraordinária faísca do génio! César não é propriamente o herói da peça que tem o seu nome; aparece quase só para morrer. É a César da última hora que, como sol no poente, desaparece cheio de grandeza e esplendor. Ei-lo tal-qual no-lo mostram os historiadores nos supremos anos da sua vida, soerguida superiormente à esfera da terra pela elevação natural da sua alma e pela volúpia do triunfo. As longas lutas tinham acabado; os obstáculos tinham desaparecido uns após outros. O herói transfigurou-se em deus; as condições humanas nada têm que ver com ele, a sua apoteose começou. (…) Só um génio como Shakespeare é que poderia mostrar em César um filho do destino. Causa assombro e é digno de toda a meditação, mete-se pelos olhos dentro a evidência da grandeza de Shakespeare, comparando-o com o Dante, sendo certo que o poeta inglês não tinha, como o poeta italiano, a tradição sempre viva do Império Romano e o sentimento do partido gibelino, para tornar compreensível a importância da acção de Bruto e Cássio.

«Shakespeare propositadamente não fez herói do seu drama César, mas Bruto: a tragédia que se desenrola perante nós, não é a tragédia da morte de Júlio César, o grande; é a tragédia do erro, do castigo do nobre Marco Bruto; o alcance verdadeiro da obra está nisto: Os deuses não perdoam a própria virtude, quando ela não reconhece os emissários e os ministros necessários nas suas vontades».